Joker The Dark Knight Frame a Frame | © TM &DC Comics.2008 Warner Bros. Entertainment Inc.

Frame a Frame | Que entre em cena o Joker

Em 2008 o mundo viu nascer “The Dark Knight”, um dos melhores filmes do novo milénio, e viu também nascer um dos mais icónicos vilões dos tempos modernos: Joker.

“Some men, just want to watch the world burn.”
– Alfred J. Pennyworth, em “The Dark Knight” (2008)

Esta é a frase que melhor define um dos mais icónicos personagens do século XXI. A sua interpretação por Heath Ledger valeu o Óscar (Póstumo) de Melhor Ator Secundário ao ator australiano e foi a sua inclusão e (e execução) no filme que ajudou a catapultar o realizador Christopher Nolan para o topo do cinema mundial. Em 2008, a 7ª arte viu estrear “The Dark Knight” (“O Cavaleiro das Trevas”), um dos clássicos modernos do cinema, e viu também nascer um dos mais brilhantes vilões da história: Joker.

Frame a Frame | Joker em "The Dark Knight"
Heath Ledger como Joker em “The Dark Knight” (2008) | © TM &DC Comics.2008 Warner Bros. Entertainment Inc.

A cultura pop (e não só) ferve entusiasticamente em antecipação pelo lançamento de “Joker” (2019) nos cinemas. O filme realizado por Todd Philips (Trilogia “A Ressaca”) e protagonizado por Joaquin Phoenix (“Gladiador” e “The Sisters Brothers”) estreou em Veneza, onde venceu o Leão de Ouro para Melhor Filme, e também passou pelo festival de Toronto. Em ambos foi aclamado e a crítica só tem tido elogios para o novo projeto da DC que estreia a 3 de outubro nas salas portuguesas.

INTRODUÇÃO

Com esta rubrica pretende-se analisar a linguagem cinematográfica de diversos filmes, desde pequenas pérolas independentes a enormes blockbusters de verão. Estas análises vão mergulhar em temas como a desconstrução de cenas específicas, de personagens, de diálogos, de estrutura narrativa e outros aspetos que contribuem para a construção de grandes histórias. Neste primeiro artigo, vamos debruçar-nos sobre o diálogo presente numa cena específica (Joker confronta a Máfia de Gotham) de “The Dark Knight” em que somos oficialmente introduzidos ao Joker e ficamos a conhecê-lo um pouco melhor, tudo isso só pelo diálogo.

As melhores introduções de personagens dão-nos pequenas amostras de quem o personagem é, plantando as sementes de características que serão exploradas mais a fundo ao longo do filme. Informação a menos e não sabemos quem é o personagem. Informação a mais e dita de enfiada e deixa de haver uma aura de mistério à volta do personagem. Nesta cena, através dos diálogos ficamos a conhecê-lo um pouco mais concretamente e respondemos a algumas perguntas. Quem é o Joker? Como é que ele pensa? Como é que atua? O que quer?

Frame a Frame | Joker em "The Dark Knight"
Heath Ledger como Joker em “The Dark Knight” (2008) | © TM &DC Comics.2008 Warner Bros. Entertainment Inc.

CAOS PERSONIFICADO

“Eu tinha uma ideia de como seria o Joker no universo que criámos em ‘Batman Begins’, e para mim isso consistiria na criação de anarquista psicologicamente credível. Uma força da anarquia, uma força do caos.” – Christopher Nolan, argumentista e realizador

O diálogo do Joker é imprevisível, porque o caos é imprevisível. Nada é certo nele, desde as suas ações à origem das suas cicatrizes (“He sticks the blade in my mouth- «Let’s put a smile on that face.»” e “So I put a razor in my mouth and do this… to myself”). Nunca sabemos o que vai sair da boca dele e isso deixa a audiência concentrada e ansiosa por saber o que vai acontecer.

“Para mim, a versão mais interessante desse personagem – Joker – é uma que é elementar, quase como se ele fosse invocado do nada, por isso a ideia de que ele tem um passado, há maneiras diferentes de o fazer mas neste universo acabaria por ser redundante para ele.” – Jonathan Nolan, co-argumentista

Vemos que ele domina a conversa fisicamente (no plano abaixo, ele domina o espaço e sobrepõe-se à mesa de mafiosos) e retoricamente. Dado que só ele sabe o que vai dizer e só ele tem controlo sobre o que diz, o Joker é quem tem mais poder. Exemplo disto é quando ele toma controlo da conversa ao responder à ameaça de Gambol (“Give me one reason why I shouldn’t have my boy here pull your head off”) com a sua própria pergunta peculiar (“How about a magic trick?”).

Frame a Frame | Joker em "The Dark Knight"
Heath Ledger como Joker em “The Dark Knight” (2008) | © TM &DC Comics.2008 Warner Bros. Entertainment Inc.

UM CRIMINOSO SEM PROPÓSITO

“Um criminoso sem propósito. Um psicopata. Para mim essa é a forma mais assustadora do mal. O inimigo que não tem regras, o inimigo que não quer nada em particular, que não pode ser entendido e que só pode ser combatido.” – Christopher Nolan, argumentista e realizador

Um objetivo falso. Objetivo e Conflito. O seu objetivo é ser recompensado pela máfia e para isso tem de matar o Batman, conflito. No entanto, mais tarde no filme sabemos que ele nem quer saber de dinheiro (“It’s not about the money, it’s about sending a message.”) nem quer matar o Batman (“I don’t wanna kill you! What would I do without you?” e “And I won’t kill you, because you’re just too much fun.”).

Nesta cena, o objetivo é falso, embora ele queira confrontar o Batman. Um objetivo falso ajuda a manter um personagem imprevisível e desconhecido, obtendo um twist mais tarde na narrativa quando o seu objetivo verdadeiro é revelado. Dado que o Joker se rege por imprevisibilidade e incerteza, esta decisão de lhe dar um objetivo falso nesta cena é adequada.

Frame a Frame | Joker em "The Dark Knight"
Heath Ledger como Joker em “The Dark Knight” (2008) | © TM &DC Comics.2008 Warner Bros. Entertainment Inc.
Lê Também:
Ad Astra, em análise

AUTENTICIDADE

“Chegas a um ponto em que não sabes o que é possível, o que não é possível. O que é permitido e o que não é permitido nesta história. E creio que isso torna o Joker um personagem muito, muito imprevisível. Eu acho que a certas alturas sentes que ele está preparado para fazer o quer que seja. Por isso, a fisicalidade da história é construída de modo a chegarmos a um ponto no final do filme em que estás genuinamente preocupado com a possibilidade da cidade (Gotham) colapsar. Estás realmente preocupado que este tipo possa vir a destabilizar completamente essa sociedade. Penso que sentes que o Joker tem o impulso de mandar abaixo o mundo inteiro.” –  Christopher Nolan, argumentista e realizador

O Joker procura Autenticidade. Ele acredita que conhece as pessoas melhor que qualquer um.”I know why you choose to have your little… er, group therapy sessions in broad daylight.”, “I know why you’re afraid to go out at night.” e “In a way, I knew your friends better than you ever did.” Ele procura revelar o lado autêntico de toda a gente. Um aspeto de si que é explorado brilhantemente ao longo de todo o filme.

Este seu desejo é manifestado na sua intenção e sucesso na corrupção de Harvey Dent, o “Cavaleiro Branco” de Gotham. O Joker consegue destruir a vida de Dent e, com isso, transforma um homem-modelo, “the best of us” como diz o Batman, num monstro. Com isto, o vilão acredita que, se consegue corromper o cidadão modelo, então ele será capaz de corromper toda a cidade de Gotham.

Frame a Frame | Joker em "The Dark Knight"
Aaron Eckhart como Harvey Dent/Two Face e Heath Ledger como Joker em “The Dark Knight” (2008) | © TM &DC Comics.2008 Warner Bros. Entertainment Inc.

“Upset the established order and everything becomes… chaos.” – Joker

I’M NOT CRAZY

“You see, I’m not a monster. I’m just ahead of the curve.” – Joker

Gambol chama o Joker “freak” e quebra o ritmo do Joker. Pela primeira vez desde o início da cena, ele perde o equilíbrio.

“You’re crazy” “No, I’m not. No, I’m not-.” Novamente, ele não gosta de ser chamado louco. Ao contrário de várias incarnações prévias do personagem que adorariam ser chamados de “louco”. (Resta saber o Joker de Joaquin Phoenix regozija nesse insulto ou se segue os passos do Joker de Heath Ledger). Este detalhe cai bem com o mundo hiperrealista de Nolan (quote sobre o mundo de Batman Begins), dado que o Joker crê ser o único consciente da verdade do mundo. Ele é o único que é são. Ele crê que tem de abrir os olhos de Gotham e revelar a autenticidade da sua sociedade e cidadãos. Ser chamado de louco é um insulto à sua claridade de pensamento.

Frame a Frame | Joker em "The Dark Knight"
Heath Ledger como Joker e Christian Bale como Batman/Bruce Wayne em “The Dark Knight” (2008) | © TM &DC Comics.2008 Warner Bros. Entertainment Inc.

A MORTE É UMA PIADA

“Muito do que guia o filme e o livro é a ideia assustadora de uma anarquia completamente sem regras mas de alguma forma atrativa que a rebeldia da adolescência pode apresentar levada ao seu extremo mais catastrófico. Nós queríamos mesmo colocar um pouco dessa ideia dentro desta ideia de quem o Joker é.” – Christopher Nolan, argumentista e realizador

Depois de matar um dos guarda-costas de Gambol com um lápis (será que aprendeu com John Wick?), ele grita “Ta-daa!” Ele não quer saber sobre perda de vida. No entanto, ele vai ainda além disto. No final da cena, após uma provocação do Joker, o mesmo Gambol protesta. “Enough from the clown!” Mas isto não resulta. “Ah-tatatata. Let’s not BLOW this out of proportion.” diz o palhaço enquanto mostra uma série de granadas no seu casaco. Não só a morte dos outros é uma piada para ele, como também a sua própria morte é uma piada. Isto reflete-se ao longo do filme ao rir-se quando Harvey Dent lhe aponta uma arma à cabeça e quando é atirado de um arranha-céus pelo Batman.

Além disto, o Joker nunca quis trabalhar com os mafiosos. Apresenta o seu cartão, como uma piada. Toda esta cena é um esquema para obter armas e homens da máfia.

Frame a Frame | Joker em "The Dark Knight"
Heath Ledger como Joker e Maggie Gyllenhal como Rachel Dawes em “The Dark Knight” (2008) | © TM &DC Comics.2008 Warner Bros. Entertainment Inc.

CONCLUSÃO

“A força do Joker, do personagem, eu gosto de dizer que ela se move pela narrativa como o turbarão em “Jaws” (1975, de Setevn Spielberg). Ele é uma força à qual se reage porque ele não atua com base em lógica. Ele é efetivamente um monstro no filme. Um monstro muito humano. À medida que o Joker age na história, os personagens são testados. Ele força-os a confrontar-se consigo próprios.” – Christopher Nolan, argumentista e realizador

Tal como o tubarão em “Jaws” (1975), o Joker é uma força da Natureza, uma encarnação pura do caos que, apesar de parecer louco, está completamente ciente não só das suas ações e das ações dos outros como também dos pensamentos dos outros, os seus ideais e os seus desejos. Gotham é o seu recreio e os cidadãos os seus brinquedos. E quando estamos a brincar com os nossos brinquedos, é normal não conseguirmos evitar fazer uma cara feliz.

Frame a Frame | Joker em "The Dark Knight"
Heath Ledger como Joker em “The Dark Knight” (2008) | © TM &DC Comics.2008 Warner Bros. Entertainment Inc.

TRAILER | “JOKER” ESTREIA NOS CINEMAS A 3 DE OUTUBRO

Estás entusiasmado com a estreia de “Joker”?

2 thoughts on “Frame a Frame | Que entre em cena o Joker

  • Gostei muito do artigo, sendo fã principalmente da icónica frase “I don’t wanna kill you! What would I do without you?”, sendo o Joker um símbolo de completo caos e o Batman uma representação da justiça e imparcialidade, gosto muito da ideia de eles se completarem um ao outro.
    Espero que o filme faça justiça a esta trilogia fantástica.

  • Muito obrigado pelo teu comentário e ainda bem que gostaste do artigo, Luísa! Realmente um dos aspetos mais cativantes do Joker é mesmo essa dualidade que partilha com o Batman: um caos, o outro ordem. Dois lados da mesma moeda. Aliás, este é um dos pontos onde temos mais curiosidade sobre o novo filme, como poderemos construir um Joker (que é definido pela sua oposição ao Batman) sem o seu Batman? É esperar para ver.
    Por agora, posso apenas recomendar, se tiveres interesse em saber mais sobre a rivalidade Joker/Batman no “The Dark Knight”, um vídeo “The Dark Knight — Creating the Ultimate Antagonist” do canal Lessons From The Screenplay no YouTube!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *