Ad Astra | © Big Picture Films

Ad Astra, em análise

“Ad Astra” é um esplendoroso poema espacial, encapsulado numa profunda e inquietante reflexão freudiana. Pitt entrega-se de corpo e alma como nunca o vimos no grande ecrã.

“Para as estrelas por árduos caminhos” – uma das citações mais emblemáticas da Eneida de Virgílio, é o mantra auspicioso de onde é retirado o vocábulo latino que intitula esta sublime odisseia interplanetária do visionário realizador americano, James Gray (A Cidade Perdida de Z), ele que não nos deixará embarcar na sua quimera, sem inspirarmos uns pozinhos etéreos de Terrence Malick, para suportar os solavancos da viagem. E é na vertigem abrupta, quase como um tontura delirante sem aviso prévio, que o co-argumento de Gray e Gross deixa Roy (Pitt) cair-nos pelos olhos abaixo, enquanto o tentamos agarrar nos píncaros estratosféricos de uma vasta antena estilhaçada por ondas de choque provenientes de Neptuno. Mas o Major Mcbride consegue manter os nervos enjaulados numa camada de aço que nunca trepa acima das oitenta pulsações por minuto, revelando uma certa qualidade sobre-humana que servirá o pretexto de se auto-contradizer nos monólogos travados com a sua consciência. E são essas infusões omniscientes, quase como confissões divinas, que colam Roy à sua humanidade na vastidão do espaço, atormentando a sua jornada épica até ao possível reencontro com o seu pai desaparecido há mais de uma década.

Ad Astra
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A partir deste gancho emocionalmente significativo, Gray vai friccionando o seu protótipo da nossa realidade futurista com uma plausibilidade estonteantemente bela e mordaz, que não reprime a premonição maniqueísta de envenenar a exploração lunar com a sátira corporativa e capitalista nos confins deste nosso século. Por esta altura, Roy vê-se a bordo de um suposto voo comercial da Virgin Atlantic rumo à Lua, na enigmática e ambígua companhia do Coronel Pruitt (Sutherland) – um velho conhecido de Clifford McBride (Jones), com a inevitável acidez humorística de que, um simples kit de cobertor e almofada, possa custar a módica quantia de 125 dólares por pessoa, e multinacionais como a DHL, Subway ou Applebee já tenham filias no nosso satélite natural. O aceno mundano de Gray grita ainda mais alto, quando Roy e Pruitt são brutalmente assaltados por uma parelha de piratas espaciais, num rover lunar a rodopiar descontroladamente na sumptuosa paisagem do rochedo luminoso, numa cena que, só por si, era merecedora de uma nomeação para os Óscares na categoria de efeitos especiais.

(…) Existe aqui um diálogo instrospetivo pertinente, que até se insinua para os lados edipianos…

Rodada no inferno que é o “Vale da Morte”, o deserto californiano mais quente e inóspito à face da Terra, só com recorrência a câmaras infravermelhas, é que Hoytema (Interstellar) e a sua equipa de “VFX” conseguiram penumbrar o céu da superfície lunar, enquanto duplos ensacados em veículos motorizados derretiam no set, e Hoytema arrancava aqueles “shots” claustrofóbicos dos capacetes envidraçados de Pitt e Sutherland num estúdio escuro em LA. E é este pedigree imagético que Hoyte van Hoytema estampa com toda a sua magnificência e fervor em “Ad Astra”, criando autênticos postais idílicos com uma textura quase tocável e um realismo quase assustador.

Ad Astra
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Mas a fita especulativa de Gray, não esgota a sua grandiosa imagem de “Blade Runner” com a agressividade dos filtros cromáticos que crepitam raivosamente para a vista do espectador, esforça-se por sussurrar-nos delicadamente ao ouvido o seu substrato com uma emoção imanentemente humana. Contudo, fá-lo com uma contenção por vezes obsessiva, acabando por subtrair alguma força impactante de certos momentos capitais. Captamos o propósito antrópico de James Gray, em querer, de certa forma, humanizar o tenebroso cosmos com referências familiares, mas ao insistir quase metade do filme a escalpelizar o rosto imaculado de Pitt à espera que ele chore, é como fazer uma sessão de psicoterapia numa hora à espera de ficar curado. Claro que existe aqui um diálogo instrospetivo pertinente, que até se insinua para os lados edipianos, aludindo à eterna problemática dos conflitos parentais (Roy/Clifford), e até amorosos (Roy/Eve), que o desmazelado guião trata quase como elementos acessórios funcionais, não dando grandes hipóteses aos intervenientes secundários de cimentarem a sua marca. Um exemplo bem ilustrativo desse potencial esbanjado, é quando Roy aterra em Marte e trava um colóquio a sós com uma nativa marciana, Helen Lantos (Ruth Negga), num “quarto de conforto” povoado por fascinantes projeções nas paredes da flora e fauna terrestres. Sabe a pouco, porque é neste preciso instante, já no último terço da metragem, que Gray e Gross resolvem conceder-nos uma ligeira folga no colete de forças audiovisual.

(…) Roy e Pruitt são brutalmente assaltados por uma parelha de piratas espaciais num rover lunar a rodopiar descontroladamente na sumptuosa paisagem do rochedo luminoso…

Por muito “Emo” que “Ad Astra” procure ser com as suas interlocuções sombrias e solitárias, ou na companhia de um inteligente medidor de frequência cardíaca, que mais parece uma derivação deturpada daquele famoso teste “voight kampff” de “Blade Runner”, pese embora a sua eficácia no clímax da narrativa, a verdade é que “Astra”, no final de contas, acaba por soar a esta amálgama de influências passadas, que são demasiado reconhecíveis para se tornarem unicamente suas. E esse é o pecado original de “Ad Astra”, que apesar de nos galardoar com um dos melhores Brad Pitt’s de sempre; de nos embasbacar com a sua portentosa fotografia polarizante; de nos atiçar com uma partitura electro-orquestral espirituosa; deixa que os seus laivos de brilhantismo sejam esvaziados nos ditos lugares comuns, induzindo um misto de sentimentos algo contraditórios. Mas não nos interpretem de forma tão taxativa ou literal, a proposta cinematográfica de Gray é, ainda assim, uma preposição altamente visionável e, em certa medida, constitui uma lufada de ar fresco no género de ficção científica, mas deixamo-vos um aviso: se fazem parte daquelas audiências impacientes sem grande pachorra para crises de meia idade, então este filme poderá não ser para vocês.

Ad Astra
Ad Astra

Movie title: Ad Astra

Movie description: A história do astronauta Roy McBride (Brad Pitt) enquanto este viaja para as extremidades do sistema solar com o objetivo de encontrar o seu pai desaparecido e desvendar um mistério que ameaça a sobrevivência do nosso planeta. Nesta expedição, Roy irá descobrir segredos que desafiam a natureza da existência humana e o nosso lugar no universo.

Date published: 2019-09-23

Director(s): James Gray

Actor(s): Brad Pitt, Liv Tyler, Tommy Lee Jones

Genre: Aventura, Drama, Mistério, Sci-Fi, Thriller

  • Miguel Simão - 85
  • Luís Telles do Amaral - 78
  • Cláudio Alves - 90
  • José Vieira Mendes - 70
  • Marta Kong Nunes - 65
  • Daniel Rodrigues - 65
  • Rui Ribeiro - 90
  • Inês Serra - 70
77

CONCLUSÃO

"Ad Astra" é um pedaço de vídeo com características topo de gama, que se deixa levar pela sua própria ambição de querer ser um pouco de tudo aquilo que já o antecedeu, sem que consiga afastar-se o suficiente desses rótulos já experimentados e aclamados. É belíssimo em todos os momentos, obviamente ancorados por uma excelente interpretação intimista de Brad Pitt, mas carece de um enredo mais complexo com locutores que se consigam aproximar um pouco mais do nível da estrela da companhia. Contudo, há que dar mérito a James Gray, por edificar um universo futurista mais humano e menos robótico, lançando as bases de uma discussão agnóstica no mínimo controversa.

O MELHOR: Cinematografia brilhante de Hoytema; cenas impossíveis com uma autenticidade inacreditável; sonoplastia épica; interpretação profunda de Brad Pitt.

O PIOR: Enredo razoável praticamente unidimensional; toada lenta não será do agrado da maioria; edição musical por vezes amarrada à contenção excessiva do guião.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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