‘Gelo’: Entrevista com Luis e Gonçalo Galvão Teles

‘Gelo’, dirigido por pai e filho, Gonçalo e Luis Galvão Teles, é um filme que oscila entre o fantástico e o drama, sobre o cinema dentro do cinema, e sobretudo sobre a memória e a vida, as fronteiras da morte e eternidade. A MHD, falou com a dupla de realizadores de ‘Gelo’, um dos quatro filmes portugueses, que estreiam em rajada este mês de março.

Galvão Teles

MAGAZINE.HD: Como é que este argumento do Luis Diogo chegou às vossas mãos sendo que ele além de argumentista também realiza?

Luis Galvão Teles:  O Luis na altura era ainda só argumentista. Chegou à realização só aí há uns três anos com o Pecado Fatal.

Gonçalo Galvão Teles: Conheci o Luis em 1995 num curso de escrita de argumento  com John Furey, que veio a ser meu professor na USC em Los Angeles. Curiosamente um curso como o que se vê em Gelo, com os alunos a construírem e a discutirem histórias. O Luis escreveu a primeira versão de Gelo, em 1995/96. Mas a primeira abordagem dele ao cinema foi como argumentista de A Bomba do Leonel Vieira.  Ele já tinha vontade de realizar, mas escreveu para aí uns dez argumentos que nos deu então para ler. Alguns deles eram ‘infilmáveis’, mas eram quase todos muito interessantes.

Vê o trailer de Gelo 

MHD: Este argumento de ‘Gelo’ é muito diferente do original?

GGT:  O Luis Diogo deu-me para ler a última versão em 2004. Passei-o ao meu pai e voltou a mim de certa forma. Eram quatro ou cinco histórias paralelas e numa delas havia uma personagem que estudava argumento na Escola de Cinema. Ela inventava histórias com os colegas, como a de uma ambulância que transportava um ferido e quando havia um acidente no outro lado da estrada. Eram várias histórias mas nós centramo-nos na história principal de Joana, que conhece um Miguel, por quem fica fascinada e que a partir daí começam a desenvolver a sua própria história como ir à neve. Pegamos em outra história que estava no original do Luis Diogo: um cadáver com 20.000 anos é encontrado congelado, e do qual seria possível gerar descendência através do DNA. Isto para criarmos de raiz a história da Catarina.

MHD: O filme passa-se basicamente em três tempos, mas a ideia do filme é a eternidade e a noção de que o tempo é relativo?

LGT: O tempo não existe. Cada momento torna-se logo passado. O filme de facto fala desse tempo, quer ele seja relativo, absoluto, infinito ou finito. A Humanidade é na verdade o fluxo desse tempo. No filme não trabalhamos só no tempo propriamente dito. Trabalhamos na dupla dimensão do tempo real e tempo imaginário. Por isso é difícil dizer que há três tempos no filme. Há um real e um imaginário e cada um tem as suas próprias fases.

Gelo Galvão Teles

‘…o que fizemos foi arrumar um conjunto de memórias, que estará para além da nossa existência.

MHD: ’Gelo’ pode parecer um filme sobre a morte e sobre a criogenização…mas eu diria antes que é um filme sobre a vida?

GGT: Uma das coisas que faço nas minhas aulas com os alunos é analisar o Beleza Americana. É um filme que me fascina sobretudo em termos de estrutura de argumento. Uma das primeiras frases em do filme é em voz off: Meu nome é Lester. Essa é minha vizinhança. Essa é minha rua. Essa é minha vida. Eu tenho 42 anos e, em menos de um ano, estarei morto. É claro, eu ainda não sei disso. E, de certa forma, eu estou já morto. Costumo analisar isto com os meus alunos e durante mais de dois terços do filme eles deixam de pensar que o personagem principal vai morrer. Lá está um filme que passa a ser sobre a vida e não sobre a morte. No Gelo é quase a mesma coisa: embora a morte tenha uma importância fundamental na estrutura do argumento, sobretudo a partir de metade, é um filme sobre a vida, sobre as pessoas que lutam desesperadamente e aproveitam esta oportunidade de viver. Na dedicatória final escrevemos o que sentimos: muito mais importante que prolongar a vida, a vida prolonga-se através da memória da nossa existência e do que criamos enquanto estamos cá. Daí a importância daqueles que vieram antes de nós, pais, avós, e importância daqueles que ficam para além de nós, os nossos filhos, netos…o que fizemos foi arrumar um conjunto de memórias, que estará para além da nossa existência.

MHD: O filme é uma passagem de testemunho do Luis (pai), para o Gonçalo (filho)? Luis vai-se reformar?

LGT: Não…não…

GGT: Não ele está quase a começar a filmar novamente.

LGT: Não, não é uma passagem de testemunho porque neste sentido, quero continuar a viver as várias vidas que tenho vivido e continuar a descobrir coisas novas. Eu sei que nada sei e sei que nunca nada saberei….mas quero continuar a fazer, criar, e inventar.  É isso que me dá vontade de viver.

GGT: Se calhar mais cedo reformar-me-ei eu do que o meu pai (risos).

Gelo

‘…embora a morte tenha uma importância fundamental, sobretudo a partir de metade, é um filme sobre a vida…’

MHD: Apesar de ser um filme de género, pode dizer-se ‘fantástico’, há muitas referências de realizadores clássicos americanos….

GGT: Sim há as frases no filme do John Ford, do Billy Wilder é isso? Sim sobretudo de Billy Wilder.

MHD: Mas o Billy Wilder fazia muitas comédias.

GGT: Sim e o meu pai tem alternado entre as comédias e dramas. O meu primeiro filme ou melhor telefilme, O Teorema de Pitágoras, era uma comédia romântica. Mas mais do que referências há inspirações. A minha primeira curta também tinha um lado de fantasia, mas não é uma pré-determinação, de que quero trabalhar este ou aquele género de filme. São apenas histórias.

LGT: No Gelo, o processo começou com o Gonçalo a tratar mais da parte de argumento e eu mais da parte de realização.’

MHD: São os filmes que nos escolhem e não nós que escolhemos os filmes….são palavras vossas…

GGT: Sim eu mantenho isso e pois nunca faço nada premeditado….

MHD: Como é fazer uma filme a quatro mãos, ainda por cima pai e filho?

LGT: Eu dizia: filho faz assim, porque sou teu pai…(risos). Não…é um processo absolutamente natural. Já tínhamos tido mais ou menos esta experiência em A Noiva, que era uma encomenda da SIC e uma participação exterior.  Depois o Gonçalo começou a trabalhar comigo na realização. Houve na altura um trabalho de argumento, mas pouco e não havia tempo para nada. No Gelo, o processo começou com o Gonçalo a tratar mais da parte de argumento e eu mais da parte de realização. A partir de certa altura as duas coisas acabaram por ser a mesma. Estamos a realizar estamos a dar corpo a esse argumento, mas estamos ao mesmo tempo a evoluí-lo. O argumento é uma coisa estática, que vai evoluindo e se transforma a partir do trabalho com os actores e com a própria realização. 

MHD: No fundo é um guião, um guia de realização.

LGT: Exactamente. Um guião que vai evoluindo e que encontra o seu equilíbrio final na montagem. O que aconteceu aqui é costuma ser feito de uma forma mais separada: uma coisa é o trabalho do argumentista outra é o do realizador. Gelo foi feito em consonância, que começou por ser a quatro mãos, e depois como diz o Gonçalo passou a ser um trabalho bicéfalo. Dois cérebros a trabalharem sobre a mesma coisa e a encontrarem a melhor forma de a fazerem evoluir.

GGT: Qualquer coisa que fosse relacionada com argumento, casting, actores, planificação das cenas discutimos tudo de uma forma muito interligada. Não vos consigo dizer exactamente o que eu fiz e o que fez o meu pai: este plano é meu….ou nesta cena fui eu que trabalhei com os actores. Eu fazia uma coisa e o meu pai acrescentava sempre qualquer coisa e vice-versa.

Gelo

‘Os filmes pares são as comédias, os ímpares são filmes em que tento desbravar outros mundos.’

MHD: Imagino que vocês têm uma grande experiência juntos na produção de filmes, não apenas vossos. Isto é como produtores na Fado Filmes.

LGT: A trabalhar juntos mais no desenvolvimento de projetos. O Gonçalo nunca trabalhou diretamente na produção de filmes.

GGT: Trabalhei um pouco no Tudo Isto É Fado.

MHD: Vão continuar a realizar juntos?

LGT: Não sabemos.

MHD: O Luis que está a fazer, já que não se vai reformar?

LGT: Estou a fazer uma comédia.

MHD: Um regresso ao registo ‘A Vida É Bela’?

LGT: Não é bem. A Vida É Bela, era comédia pura e este meu novo filme é mais uma comédia romântica-musical. Tem algumas coisas de A Vida é Bela, como a parte musical.  O argumento que é da autoria do Nuno Markl, é mais de cinema do que de teatro de revista ou voudeville. Começo a filmar a 26 de abril, para estrear ainda durante o verão. Tenho assim uma espécie de filmes pares e ímpares, embora não de uma forma muito rigorosa. Os pares são as comédias, os ímpares são filmes em que tento desbravar outros mundos.

Gelo

‘…a certa altura o meu pai disse: o cinema é a vida! não vamos dizer mais nada.’

MHD: E o Gonçalo, que está a preparar?

GGT: Estamos sempre a trabalhar juntos, mesmo na prática não estando. Temos carreiras autónomas e coisas associadas na Fado Filmes, por exemplo no desenvolvimento de projectos. Se premeditasse-mos ter feito este filme juntos, se calhar isso não tinha acontecido, porque haveria sempre impedimentos de um lado ou do outro. Agora cada um vai fazer o seu caminho: o meu pai com o novo filme ‘Refrigerantes’ e eu com a minha carreira universitária. Recebi a notícia de que tive um apoio para a realização de uma série de dois episódios, passada na I Guerra Mundial, sobre a personagem do Soldado Milhões, um herói que não queria ser herói. Talvez seja um pouco cedo para falar disso. Acho que não vou arrancar antes do início do próximo ano, pois é um filme que terá a ver com as comemorações dos 100 anos da participação de um contingente português na I Guerra Mundial. 

MHD: Há também uma frase que retive das vossas conversas ou das notas de produção: o cinema é a vida, a vida é o cinema’, que também aliás aparece num dos diálogos do filme…

LGT: Aparece sim.

GGT: Olhe é um dos exemplos da nossa colaboração. Teoricamente eu estava a trabalhar mais nas questões de argumento. Rescrevi cenas durante a rodagem por exemplo. Havia uma frase que não estava a funcionar muito bem. Nem para nós, nem para a Ivana Baquero. Passei essa manhã no plateau, enquanto ía-mos tratando de outras coisas e a certa altura o meu pai disse: o cinema é a vida! não vamos dizer mais nada. Eu fiquei a pensar naquilo. Ele disse-me, mesmo que não seja a melhor frase para o diálogo é aquilo que eu sinto. Deixa-me por isso no filme. E ficou!

Gelo

‘…estabelece-se logo essa espécie de embalar do espectador para a sucessão de histórias sobre histórias.’

MHD: Voltando um pouco atrás. Porque é que o filme em parte é falado em espanhol? Uma actriz espanhola como protagonista, tem a ver com questões de co-produção, até porque uma parte do filme passa-se em Espanha, na Serra Nevada?

GGT: As cenas da neve são passadas algures nos Pirinéus, mas são rodadas na Serra da Estrela. Inicialmente havia algumas exigências normais da co-produção. Mas depois foi qualquer coisa que se tornou maior do que o próprio filme e que as nossas próprias decisões. A dada altura quando a Ivana encarnava aqueles dois papéis, era impossível imaginar outra pessoa e pôr-lhe outra voz. E assumimos o filme como ele é, sem barreiras linguísticas e geográficas.

MHD: E abrindo também a possibilidade de o filme estrear em Espanha?

LGT: Para Espanha vamos fazer uma versão dobrada, como eles fazem normalmente. O que aconteceu foi que a personagem da Catarina adolescente, que é uma actriz portuguesa magnífica, a Beatriz Leonardo, foi dobrada pela própria Ivana, com voz de adolescente para haver continuidade entre os dois personagens. A língua, mesmo sendo a nossa noção de pátria é a nossa separação do mundo. Acho que no cinema como estamos num processo imaginário onde todas as histórias são possíveis e desde que sejam coerentes e funcionem a língua deixa de ter importância. No início tivemos um certo receio desta solução das duas línguas, chegamos a por a hipótese teórica de dobrar o espanhol para português. Mas decidimos que não, pois isso faz intrinsecamente parte do filme e dobra-lo seria amputa-lo. Fizemos uma primeiras projeções com pessoas conhecidas e elas disseram-nos que ao principio estranha-se mas depois entranha-se como dizia o Pessoa. Com o filme pronto isso acaba para nós por ser aceite com naturalidade.

MHD: O cão o Johnny, acaba por abrir e fechar o filme. Parece que fecha o círculo…

GGT: Tem a ver exatamente com a questão das histórias que escolhemos da primeira versão do argumento original. Para mim era muito importante que o filme começasse com uma história inventada, para estabelecer logo um padrão de que iria ser um processo de criação de histórias sobre histórias. Ao abrir com uma história criada por um dos personagens, estabelece-se logo essa espécie de embalar do espectador para a sucessão de histórias sobre histórias. Depois tem os seus reflexos no final quando o Johnny, volta a aparecer. A mudança da história do Johnny no final é a primeira assunção de que o personagem principal a Joana (Ivana Baquero), vai escrever a sua própria história. E que apesar de lhe dizerem que o final era este, ela muda o final, pois nós todos podemos escrever a nossa própria história.

Sinopse: As vidas de duas mulheres cruzam-se de forma inesperada. Concebida a partir do DNA de um cadáver congelado com mais de 20.000 anos, Catarina (Beatriz Leonardo) cresce encerrada num palácio isolado, sob a tutela de Samuel (Albano Jerónimo), um investigador que a usa como cobaia num projeto sobre a imortalidade humana. Joana (Ivana Baquero), uma jovem estudante de cinema, apaixona-se por Miguel (Afonso Pimentel), um colega mais velho obcecado pelo gelo, paixão que acaba súbita e tragicamente durante uma viagem iniciática ao cume de uma montanha nevada.

Gelo Galvão Teles

Estreado em Portugal 2016-03-03

Duração: 105 minutos

Origem: Portugal, Espanha

Género: Drama, Fantasia

Realização: Luís Galvão Teles, Gonçalo Galvão Teles

Argumento: Luís Diogo, Gonçalo Galvão Teles, Luís Galvão Teles

Elenco: Albano Jerónimo · Samuel, Beatriz Leonardo · Catarina, Carlos Santos · Médico Chefe, Duarte Grilo · Técnico VF, Gonçalo Galvão Teles · Professor Gonçalo, Inês Castel-Branco · Beatriz, Ivana Baquero · Joana, Ivo Canelas · Filipe, João Jesus · Génio, José Afonso Pimentel · Miguel, José Neto · Guarda, Mia Tomé · Enfermeira, Miguel Mestre · Rapaz, Sara Barros Leitão · AlunaSara Mestre · Rapariga

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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