Óscares 2017 | Greig Fraser

Em 2016, Greig Fraser assinou a fotografia de dois sucessos, Rogue One e Lion, mas  foi apenas o drama australiano que lhe valeu a nomeação para o Óscar e não o épico interestelar.

 


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OUT OF THE BLUE (2006) de Robert Sarkies
OUT OF THE BLUE (2006) de Robert Sarkies

 

Tal como na página anterior, onde explorámos a carreira e estilo de Bradford Young, vamos aqui falar de outro nomeado ao Óscar de Melhor Fotografia. Neste caso, trata-se de Greig Fraser, o diretor de fotografia australiano que está indicado pelo seu trabalho em Lion – A Longa Estrada para Casa. Outras semelhanças entre estes dois nomeados incluem o modo como as carreiras destes dois homens são relativamente curtas mas resultaram em preenchidas e muito ilustres filmografias, especialmente nos últimos cinco anos, e como, em ambos os casos, eles já eram favoritos da crítica antes de serem finalmente celebrados num panorama mais mainstream. Consequentemente, este ano marca a primeira nomeação para Young e Fraser.

Apesar de tudo isso, estes dois artistas estão longe de serem a cópia um do outro e isso nota-se logo quando examinamos o seu estilo pessoal. Segundo o próprio Fraser, o seu estilo é adaptável, maleável e inconstante, variando de projeto para projeto sendo que ele não quer ficar preso a uma só estética. Apesar disso, conseguimos denotar alguns elementos recorrentes no seu trabalho. Enquanto Young é um mestre da subexposição, baixo contraste e fontes de luz diegéticas. Pelo contrário, Fraser tem-se vindo a mostrar um adepto de esquemas de iluminação marcados por intensas fontes de iluminação offscreen, recortes que pintam as faces dos atores de forma expressiva, o uso de uma suave luz de brancura leitosa e um controlo sobre a cor que normalmente se manifesta em esquemas cromáticos uniformes com cuidadosas pinceladas de bombástica cor.

 

bright star greig fraser jane campion oscares

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BRIGHT STAR (2009) de Jane Campion

 

Como final comparação entre estes dois jovens nomeados para o Óscar, enquanto o estilo de Bradford Young deve muito à fotografia urbana e ao cinema americano dos anos 70, as influências de Fraser parecem recair mais sobre a pintura. Essa qualidade é particularmente aparente no filme que lhe marcou uma reviravolta imensa em termos profissionais. Depois de anos a filmar produções australianas e neozelandesas com relativo sucesso como Out of the Blue, Greig Fraser filmou Bright Star para Jane Campion, um romance histórico de estonteante beleza em que cada fotograma podia ser pendurado nas paredes do Louvre. Nas suas imagens reminiscentes de pintura romântica da primeira metade do século XIX, Fraser mostrou um virtuosismo monumental e, para além do mais, Bright Star é o perfeito exemplo de como algo tão “técnico” como a fotografia pode ter um impacto tão forte na experiência da audiência como os atores ou ter uma carga intelectual tão essencial como o texto.

 

let me in greig fraser

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LET ME IN (2010) de Matt Reeves

 

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branca de neve e o caçador greig fraser oscares

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BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR (2012) de Rupert Sanders

 

O sucesso crítico do filme pode não ter seduzido as audiências mais viradas para o cinema comercial ou as associações de prémios de Hollywood, mas foi suficiente para catapultar Fraser para fora da Austrália e rumo ao cinema americano e às grandes produções. Logo no ano seguinte, por exemplo, Let Me In chegou aos cinemas. O filme é um remake americano de um triunfo do cinema de terror escandinavo mas, ao contrário de outros elementos da equipa criativa do filme, Fraser não se deixou cair na simples cópia e conferiu ao projeto uma estética singular e estranhamente calorosa, bem diferente do original com a sua fotografia severa e glacial. Continuando a caminhar por entre os estúdios americanos, Greig Fraser viu estrear, em 2012, Branca de Neve e o Caçador, o primeiro grande blockbuster com fotografia sua. Uma coisa é certa – por muito que critiquemos o filme pela sua anémica narrativa, os seus aspetos visuais são impecáveis.

 

mata os suavemente greig fraser oscares

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MATA-OS SUAVEMENTE (2012) de Andrew Dominik

 

Com esta carreira em meteórica ascensão, Greig Fraser começou a ganhar um certo estatuto como um favorito dos críticos e cinéfilos que se preocupam com o lado mais formal da sétima arte. Para esses admiradores, 2012 foi um ano glorioso com a estreia de dois triunfos de Fraser, para além do blockbuster já mencionado. Primeiro, foi Mata-os Suavemente, um drama de crime com um temperamento cáustico e uma atmosfera fumarenta e decrépita que, mesmo assim, permitiu que Fraser conjurasse sublimes imagens de desolação contemporânea. Depois, houve a estreia de 00:30 A Hora Negra, o filme que é, juntamente com Bright Star, a joia da coroa da filmografia deste diretor de fotografia. Com composições memoráveis, imagens de cortante clareza e uma sequência de ação noturna que ficará nos anais do cinema americano, parecia que Fraser ia finalmente alcançar uma nomeação para o Óscar. Infelizmente, a controvérsia à volta do modo como o filme representava tortura acabou por afundar a sua campanha durante a Awards Season e Fraser foi uma das grandes vítimas do backlash.

 

zero dark thirty greig fraser oscares

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00:30 A HORA NEGRA (2012) de Kathryn Bigelow

 

Consulta Ainda: O vestuário de Rogue One: Uma História de Star Wars

 

rogue one greig fraser oscares

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ROGUE ONE: UMA HISTÓRIA DE STAR WARS (2016) de Gareth Edwards

 

Desde então, Fraser filmou algumas curtas-metragens e alguns dramas de suposto prestígio mas desapontante variedade visual como The Gambler e Foxcatcher, mas em 2016 voltou em força. No panorama mais comercial, o ano passado viu estrear o filme mais popular que Fraser alguma vez filmou, Rogue One, onde a sofisticação estética do trabalho fotográfico ajudaram a conquistar também as massas críticas. Distante da escala astronómica de Rogue One, Lion marcou o vitorioso regresso de Fraser ao cinema australiano, se bem que com um pé assente na Índia onde a primeira metade do filme decorre. Aí, o trabalho de Fraser mostrou-se vital na captura não condescendente ou explorativa de um mundo de miséria que, mesmo assim, é maravilhoso aos olhos de uma criança inocente. Até no pesadelo das ruas de Calcutá e na frieza inofensiva da Tasmânia, a fotografia de Fraser se revela como um elemento essencial para o sucesso do filme cuja narrativa depende da intensidade imagética latente às memórias infantis do seu protagonista. Pelos seus esforços, Fraser arrecadou então a sua primeira nomeação para o Óscar – já não era sem tempo!

 

lion greig fraser oscar oscares

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LION: A LONGA ESTRADA PARA CASA (2016) de Garth Davis

 


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Do mundo de câmaras, lentes, iluminação e filtros, passamos para o panorama da cenografia para cinema, onde iremos explorar a carreira de um dos colaboradores preferidos de realizadores tão celebrados como Quentin Tarantino e Wes Anderson, Não percas!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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