Greta: Viúva Solitária crítica

Greta: Viúva Solitária, em análise

Isabelle Huppert é uma vilã enlouquecida em “Greta: Viúva Solitária”, um exemplo de hagsploitation do século XXI com Chloë Grace Moretz como a vítima inocente.

No início dos anos 60, Hollywood estava a viver um tempo de cismas e mudanças radicais. As vanguardas europeias estavam prestes a entrar à força na indústria cinematográfica americana e o sistema dos grandes estúdios começava a ruir sobre si mesmo. Nos plateaus, novos profissionais de olhos postos no futuro viviam em comunhão com gerações que tinham crescido e começado suas carreiras ainda no tempo dos filmes mudos. Alguns cineastas do passado conseguiram adaptar-se, outros caíram em esquecimento e deixaram-se tornar obsoletos. Para mulheres, especialmente atrizes, o envelhecimento e a revolução de costumes, fazia com que fosse particularmente difícil navegar pela indústria cinematográfica sem afundarem.

Tal situação, levou a que muitas das mais poderosas estrelas de outrora se tivessem de voltar para projetos carentes de orçamento e de classe, filmes de série B. No caso de atrizes mais velhas, o cinema de terror acabou por se revelar como uma peculiar casa para passar os anos finais da carreira. Assim, lendas do grande ecrã eram tornadas psicopatas grotescas, vencedoras de Óscares deixavam que o público se risse do seu degredo e exagero, deixavam-se ser exploradas. Este tipo de cinema é conhecido como hagsploitation. Parte do apelo do género devém da misoginia e medo do envelhecimento que permeiam a sociedade, mas há deleite cinéfilo em ver argumentos de meia tigela interpretados com todo o primor de uma diva consagrada.

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Hagsploitation do século XXI!

Em 1962, “Que Teria Acontecido a Baby Jane?”, com Bette Davis e Joan Crawford, deu à luz e tipificou o género cinematográfico. 55 anos depois, este Grande Dame Guinol do grande ecrã ainda tem descendentes a chegar aos cinemas mundiais. Desta vez, contudo, o produto salaz vem pintado com uma pátina de respeitabilidade artística e sofisticação europeia. Afinal, “Greta: Viúva Solitária” conta com a realização de Neil Jordan, um cineasta Oscarizado e patriarca veneroso do cinema irlandês, e tem, no papel principal, aquela que é talvez a atriz francesa mais prestigiada dos últimos 40 anos, Isabelle Huppert. Ela dá vida à personagem titular, uma mulher que anseia pela presença de uma filha e busca isso mesmo na companhia de jovens indefesas.

Apesar da magnificência psicótica de Huppert, Greta não é a protagonista deste thriller desequilibrado. A história centra-se em Frances, uma jovem oriunda de Boston que recentemente completou os estudos superiores e sofreu a morte da sua adorada mãe. Quando a conhecemos, ela está a viver em Nova Iorque com Erica, uma amiga da faculdade e, certo dia, depara-se com uma chamativa mala de pele verde perdida no metro. Decidida a ser uma boa samaritana, Frances guarda a mala e procura devolvê-la à sua proprietária, seguindo a morada na documentação que está no seu interior. Assim ela chega a uma casa resguardada num pequeno beco no meio da selva urbana, onde habita uma velhota chamada Greta.

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Numa perfeita performance de boas maneiras e hospitalidade, a dona da mala convida Frances a tomar um café e, passados uns minutos, a jovem está praticamente a comer da palma de Greta. Umas notas no piano, histórias de perda e um brilho de solidão no olhar desta mãe cuja filha está longe, a estudar em Paris, e Frances está pronta a oferecer-lhe a sua companhia. Ao longo do que parecem ser poucos dias, elas tornam-se mais próximas, sendo sua relação uma perfeita união de necessidades afetivas. Uma filha que quer uma mãe e uma mãe que quer uma filha preenchem o vazio emocional na vida uma da outra. Pelo menos, assim é até uma noite fatídica. Enquanto está a jantar em casa da nova amiga, Frances descobre um armário cheio de malas exatamente iguais àquela que a levou até Greta, cada uma identificada com o nome de uma rapariga diferente.

Horrorizada, Frances tenta cortar relações, mas a viúva solitária recusa-se a ser ignorada. Greta inunda o telefone da sua presa com constantes mensagens, segue-a a ela e a Erica e até chega a invadir o local de trabalho da jovem, causando um escândalo que acaba com a senhora de afetações gálicas a ser escoltada pela polícia. Num gesto desesperado para se livrar das atenções deste monstro, Frances tenta pedir desculpas a Greta, mas a sua insinceridade não é muito bem aceite pela perseguidora imparável e, como já seria de esperar, ela toma medidas drásticas para manter esta nova filha na sua vida. Ou seja, temos aqui um clássico thriller de stalkers e paranoia, com três atos bem definidos e uma fórmula perfeitamente convencional.

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Cuidado com a Greta…

Tal é o tradicionalismo do enredo, que é impressionante quão o filme é um pesadelo de ritmos caóticos. Ao construírem o guião, Neil Jordan e Ray Wright, tentaram apressar em demasia a aparição do lado mais enlouquecido da vilã, pelo que o primeiro ato da história passa a correr. O espectador não tem noção dos parâmetros da relação entre as duas mulheres antes de haver uma rutura. A porção do meio, em que Greta é uma stalker sinistra, é a melhor do filme, mas termina com umas reviravoltas oníricas que não acrescentam nada à história. Por fim, chegado o terceiro ato do drama, “Greta: Viúva Solitária” rende-se às fórmulas mais básicas do terror de série B, o que não é mau até ao momento em que a cronologia deixa de fazer sentido.

O filme tem somente 98 minutos, mas parece muito mais comprido devido a tais desequilíbrios, acabando por se deixar arrastar por muitos momentos mortos e sem interesse. A construção formal é relativamente perfuntória, pelo que também não se encontra grande valor aí. Onde o filme brilha, contudo, é na dinâmica das duas atrizes no seu centro. Como Frances, Chloë Grace Moretz não telegrafa qualquer tipo de vulnerabilidade, pelo que a sua vitimização persistente acaba por ganhar uma qualidade visceralmente chocante. Contudo, como os melhores exemplos de hagsploitation, “Greta: Viúva Solitária” só existe para que Isabelle Huppert possa fincar os dentes num papel psicopático demente e, pela sua parte, a atriz francesa faz isso mesmo com abandono e diversão.

Isabelle Huppert dá bom uso aos seus mecanismos minimalistas do costume para tornar Greta numa figura tão mais ameaçadora pela sua expressão inelegível. Contudo, ela também é capaz de ocasionalmente se atirar de cabeça para as profundezas do excesso, do melodrama e do camp inerentes à proposta narrativa. “Greta: Viúva Solitária” pode ser um mau filme, mas trouxe-nos a imagem de Isabelle Huppert a dançar alegremente com uma pistola na mão e uma cena em que ela aterroriza um restaurante vestida num fato Chanel e uma máscara de fúria desinibida. Por isso, temos de ficar gratos.

Greta: Viúva Solitária, em análise
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Movie title: Greta

Date published: 2019-04-12

Director(s): Neil Jordan

Actor(s): Isabelle Huppert, Chlöe Grace Moretz, Maika Monroe, Colm Feore, Stephen Rea, Zawe Ashton, Thaddeus Daniels, Jeff Hiller

Genre: Drama, Mistério, Terror, Thriller, 2018, 98 min

  • Cláudio Alves - 50
  • José Vieira Mendes - 60
  • Daniel Rodrigues - 55
55

CONCLUSÃO:

Devido a uma estrutura disfuncional e um estilo desinspirado, “Greta: Viúva Solitária” é um thriller muito convencional e muito aborrecido também. Contudo, quando o realizador Neil Jordan simplesmente aponta a câmara na direção de Isabelle Huppert e deixa a atriz fazer o que lhe apetece, o filme torna-se num espetáculo de Grande Dame Guinol do mais alto calibre.

O MELHOR: Huppert, deusa, rainha, diva consagrada do cinema mundial.

O PIOR: O sonho.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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