Dorothy Arzner | A primeira grande pioneira do cinema sonoro

Durante os anos 30 e 40, Dorothy Arzner foi a única mulher a realizar filmes no sistema dos grandes estúdios de Hollywood e deixou a sua marca na História do Cinema.

Quando a produção de cinema primeiro se começou a desenvolver no sentido de se tornar numa verdadeira indústria de entretenimento para uma nova cultura de massas, ainda muitos olhavam para os filmes como apenas uma moda passageira. Em consequência da falta de prestígio ou pressuposta inexistência de futuro profissional garantido, não existiam ainda condições de privilégio institucionalizado a impedir que mulheres tivessem posições de importância na sua estrutura. Poder-se-ia dizer mesmo que profissões como a montagem e a escrita de argumentos eram dominadas pela presença feminina, mas isso veio alterar-se por completo quando a sociedade em geral se apercebeu da crescente relevância económica da sétima arte. Propulsionado pelo nascimento de Hollywood a meio da segunda década do século XX, o mundo do cinema foi invadido por homens que, simplesmente pelo seu género, tinham prioridade profissional em relação às suas colegas, que gradualmente foram sendo relegadas a trabalhos de assistência e secretariado a superiores masculinos.

 

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Rudolph Valentino em BLOOD AND SAND (1922)

 

Esta introdução é importante pois, quando começou a sua carreira em Hollywood, Dorothy Arzner fê-lo bem longe da cadeira de realizador. Muito pelo contrário, a antiga estudante de medicina que tinha decidido que queria ser uma realizadora de cinema após uma visita a um estúdio, começou a trabalhar para a companhia que se viria a chamar Paramount enquanto estenógrafa. Com muito esforço e aprendizagem pelo caminho, Arzner foi promovida a técnica de montagem, uma posição onde demonstrou os seus talentos ao editar mais de cinquenta filmes, muitos dos quais foram sucessos críticos e comerciais. Foi aliás, num desses sucessos para os quais trabalhou como editora, que Dorothy Arzner pôde experimentar, pela primeira vez, o ofício de realizadora ao filmar algumas sequências de Blood and Sand protagonizado por Rudolph Valentino.

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Por muito auspiciosa que a sua estreia, não creditada, tivesse provado as aptidões cinematográficas de Arzner, a Paramount manteve-se relutante em deixar que ela realizasse um filme a solo. Foi mesmo preciso uma oferta de trabalho da Columbia Pictures para que o estúdio de Arzner finalmente se rendesse aos seus pedidos. Fashions for Women de 1927 foi então o primeiro filme no qual Arzner teve o crédito que tanto desejava e, surpreendentemente, foi um sucesso de bilheteiras que propulsionou instantaneamente a carreira da sua realizadora. Nesse mesmo ano, Dorothy Arzner iria realizar mais dois filmes, incluindo Get Your Man, uma comédia romântica protagonizada por uma das maiores estrelas da época, Clara Bow. A colaboração, que começou mal devido à relutância de Bow em trabalhar com uma mulher atrás das câmaras, depressa se provou frutífera e, quando chegou a altura da sua “it girl” se estrear no cinema sonoro, a Paramount colocou Arzner em cargo do projeto.

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Dorothy Arzner e Clara Bow durante as filmagens de THE WILD PARTY (1929)

 

Foi em 1929 que Dorothy Arzner filmou The Wild Party e se tornou, não só na primeira mulher a realizar um filme com som sincronizado, mas também numa das maiores pioneiras, independentemente de género, dos primeiros anos do cinema sonoro. Durante as primeiras filmagens, Clara Bow mostrou-se muito nervosa, especialmente em relação aos microfones primitivos que, estando escondidos em adereços específicos, limitavam os movimentos da atriz que, no cinema mudo, era famosa pela sua exuberante fisicalidade. Decidida a contornar o problema e a libertar os atores e a câmara do registo estático e solene causado pelos microfones fixos, Arzner apareceu um dia nos estúdios com uma cana de pesca e pediu ao operador de som que pendurasse na sua ponta o microfone para que, durante as filmagens, o aparelho pudesse estar suspenso sobre os atores de modo a possibilitar uma maior variedade de movimentações. Assim nasceu o boom microphone que, hoje em dia, é uma das bases para a gravação de som em cinema.

 

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Ruth Chatterton no papel que lhe valeu a sua primeira indicação para o Óscar em SARAH AND SON (1930)

 

Interessantemente, The Wild Party não constituiu somente um marco profissional, histórico e revolucionário na carreira de Dorothy Arzner, mas também acabou por se tornar numa espécie de resumo das idiossincrasias pessoais da sua abordagem cinematográfica. Mais especificamente, temos aqui um filme onde relações homossociais entre mulheres são colocadas numa posição de invulgar destaque e retratadas com franqueza num registo que prioriza o trabalho dos atores ao mesmo tempo que prima pela economia formal, especialmente em termos de montagem e ritmo. Para além do mais, foi uma de quatro estupendas colaborações de Dorothy Arzner com  o ator Fredric March.

 

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Uma das melhores cenas de MERRILY WE GO TO HELL (1932) com Fredric March e Sylvia Sidney

 

A melhor destas colaborações viria em 1932, durante o melhor período na carreira de Arzner que, inclusive, filmou Sarah and Son que valeria a Ruth Chatterton a sua primeira indicação para o Óscar de Melhor Atriz. O projeto protagonizado por Fredric March que mencionámos é Merrily We Go To Hell, um retrato da relação tóxica entre um escritor alcoólico e sua esposa, uma herdeira cujo romantismo juvenil dá lugar a uma amargura autodestrutiva à medida que o seu casamento se vai transformando numa eterna fonte de sofrimento. O momento em que Sylvia Sidney observa, rígida, o modo como o seu marido beija uma amante de longa data no meio de uma festa é um dos maiores exemplos da elegância e economia formal de Arzner.

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Katharine Hepburn vestida de traça prateada em CHRISTOPHER STRONG (1933)

 

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A deslumbrante Joan Crawford em THE BRIDE WORE RED (1937)

 

Merrily We Go To Hell foi um dos filmes mais lucrativos de 1932, um feito fantástico se considerarmos que, por esta altura, Dorothy Arzner era a única mulher a realizar filmes para os grandes estúdios de Hollywood. A fartura não ia durar muito contudo, mas isso não impediu Arzner de trabalhar com algumas das melhores atrizes da altura, algumas das quais acabando por se tornar suas amantes. Só para dar alguns exemplos, Arzner filmou Claudette Colbert em Honor Among Lovers (1931), Kataherine Hepburn em Christopher Strong (1933), Rosalind Russell em Craig’s Wife (1936) e Joan Crawford em The Bride Wore Red (1937). Este último filme foi um particular desastre de bilheteiras, mais devido a Crawford e um guião péssimo do que ao trabalho de Arzner, e marcou o início do declínio de Arzner.

 

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Maureen O’Hara e Lucille Ball protagonizam DANÇA, RAPARIGA DANÇA (1940)

 

Dorothy Arzner viria a assinar somente dois filmes nos anos 40, o musical proto feminista Dança, Rapariga, Dança (1940) e o drama de guerra Crepúsculo Sangrento (1943), tendo, ao todo, realizado dezassete longas-metragens – um recorde para mulheres no sistema dos grandes estúdios norte-americanos. É possível que conflitos com Louis B. Mayer tenham estado na raiz do abandono de Arzner a Hollywood, mas é certo que ela nunca parou de trabalhar. Primeiro, filmou curtas educacionais para mulheres no exército, depois aventurou-se pelo mundo do teatro, da rádio e até da publicidade devido a um pedido especial de Joan Crawford. Por fim, Dorothy Arzner dedicou-se ao ensino e, enquanto professora de Cinema na Universidade de Los Angeles, onde acabaria por instruir e influenciar uma série de jovens que futuramente viriam a dominar o cinema americano como Francis Ford Coppola.

 

“Não é maravilhoso que tenhas tido uma carreira tão fantástica, quando (na sociedade da época) não tinhas o direito a ter uma carreira de todo?”

– telegrama de Katharine Hepburn acerca de Dorothy Arzner

 

Já viste algum dos clássicos de Dorothy Arzner? Se estás interessado em explorar a oeuvre desta cineasta, para além dos títulos já mencionados, também recomendamos o glamouroso drama Nana de 1934 e o espetáculo de pura extravagância que é Paramount on Parade de 1930.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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