13º IndieLisboa | Amor e Amizade, em análise

Kate Beckinsale encabeça um elenco de luxo na mais recente comédia de Whit Stillman, Amor e Amizade, uma obra que representa o primeiro filme de época desta autor assim como a sua primeira aventura a adaptar Jane Austen ao grande ecrã.

Quem esteja acostumado em ver, nas adaptações cinematográficas da obra de Jane Austen, doces e inspiradores romances, que se prepare para ser surpreendido por Amor e Amizade, o mais recente trabalho do realizador Whit Stillman. No filme, este autor americano traz para o cinema uma das primeiras e mais esquecidas obras da autora inglesa, uma narrativa onde a sua cortante sátira e venenoso humor são postos em lugar de destaque e o romance é apenas mais um inconveniente absurdo na vida das suas personagens.

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Lady Susan é o título original da obra literária mas também dá nome à sua protagonista, uma recente viúva que olha as pessoas à sua volta como peças de xadrez com que despreocupadamente jogar partidas de implacável manipulação social. Na sua condição de viuvez, é quase possível simpatizar com esta aristocrata que tanto depende da generosidade de terceiros, mas depressa nos apercebemos da sua jovial e abjeta amoralidade, sendo o modo como trata a sua filha algo de particular repreensão. No mundo inteiro, parece que apenas a sua amiga americana, Alicia Johnson, é capaz de a compreender e merecer a sua confiança, sendo uma usual cúmplice nos esquemas de Lady Susan, para muita irritação do seu marido.

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Esta premissa rapidamente se desdobra numa panóplia de divertidas manipulações e situações tão ridículas e convolutas que o filme se parece tornar numa farsa clássica. Stillman construiu esta peça de virtuosismo cómico a partir de uma estrutura epistolar na obra original, pelo que a sua adaptação muito altera do original de Austen. Muitos puristas literários ficarão decerto horrorizados com estas mudanças e ainda se encontrarão mais escandalizados com as mudanças feitas por Stillman ao final da história, mas é de salientar como esta versão captura de modo tão brilhante o espírito do livro e do olhar de Austen. Afinal, muitos críticos e académicos já outrora caracterizaram Whit Stillman como a Jane Austen do cinema americano, e tal é absolutamente incontornável nesta obra de cinema de época.

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Há que apontar, no entanto, que, apesar de este ser abertamente um filme de época ao estilo do costume drama britânico, Stillman não se deixa conter pelos usuais dogmas dos mais classicistas filmes de época ingleses, injetando uma boa dose de humor pós-moderno no modo como apresenta esta trama. Nos ritmos do diálogo, deliberadas repetições e rápido fluir do enredo, Stillman parece ativamente fugir à vagarosa respeitabilidade da enfadonha invenção, concebendo algo que mais se aproxima de uma screwball comedy dos anos 30. Os atores quase parecem estar a competir para ver quem consegue articular as suas palavras de modo mais perfeito e a maior velocidade, a não ser quando é necessária uma pausa abrupta neste jogo rítmico, uma demora que traz sempre consigo humor.

Amor e Amizade

É conveniente salientar que o trabalho dos atores não é somente louvável pela sua virtuosa e rápida articulação do diálogo híbrido de Austen e Stillman, sendo este um elenco de fazer inveja a muitos outros. Mesmo os nomes que mais dúvidas possam levantar pelo seu contexto numa adaptação de Austen, como Xavier Samuels ou Chloë Sevigny, amplamente justificam tais decisões de casting com o seu inesperado domínio dos ritmos cómicos do diálogo e perfeito nível de manienta estilização para fazer tal construção triunfar.

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Por muito que todo o elenco seja brilhante, existem dois nomes a realçar. O primeiro é o de Tom Bennett como Sir James Martin, um homem de confortável fortuna e infeliz tendência para muito tagarelar e todos à sua volta aborrecer, e o segundo é o de Kate Beckinsale como a própria Lady Susan. Ambos os atores são geniais na sua requintada criação de personalidades de completo ridículo e artifício, como que incorporando no seu trabalho uma das mais importantes facetas desta adaptação, o modo como as personagens, o texto e o próprio filme parecem estar jovialmente cientes do seu absurdo e, ao invés de se mostrarem constrangidos com tal coisa, celebram a sua mesma tolice.

Amor e Amizade

O absurdo na vida de jovens privilegiados é a especialidade de Stillman desde Metropolitan, a sua primeira longa-metragem, e este filme não escapa a esta constante temática e tonal. Tal não poderia ser mais claro nas apresentações das personagens, em que a ação para e texto aparece no ecrã, descrevendo cada figura com elementos do texto epistolar de Austen. Mesmo essa natureza de Lady Susan como uma obra epistolar é jocosamente celebrada numa deliciosa cena em que os pais de Lady Catherine Vernon, a desconfiada cunhada da nossa anti-heroína, tentam ler uma carta da filha e rapidamente desistem de tal feito quando confrontados com a sua tendenciosa prosa e dúbia caligrafia.

No final e apesar da estranha escolha de um título pertencente a uma outra obra de Jane Austen, Amor e Amizade é um dos melhores feitos de adaptação na história desta célebre autora no cinema, e é, ao mesmo tempo, uma incalculável delícia no panorama atual do costume drama. Que, apesar de toda a sátira e amoralidade, Lady Susan nunca é vilificada ou grandemente punida pelas suas atitudes é a cereja no topo do bolo que é este filme, uma sobremesa que, com tais personagens e aguçados diálogos, é mais ácido que meramente açucarado.

Amor e Amizade

O MELHOR: Os ritmos cómicos e hilariantes diálogos que perfeitamente mesclam o sentido de humor pós-moderno e irónico de Whit Stillman com o olhar sardónico de Jane Austen.

O PIOR: Alguns dos elementos mais técnicos como os figurinos ou a cenografia em que, ocasionalmente, o baixo orçamento do filme é infelizmente notório.


 

Título Original: Love & Friendship
Realizador:  Whit Stillman
Elenco: Kate Beckinsale, Chloë Sevigny, Xavier Samuels, Emma Greenwell, Tom Bennett
NOS | Comédia | 2016 | 92 min

Love and Friendship Amor e Amizade

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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