13º IndieLisboa | Le Fils de Joseph, em análise

Pegando em temas bíblicos e numa enorme rigidez formal, Eugène Green, criou Le Fils de Joseph, uma tocante comédia sobre um adolescente em busca de uma figura paternal.

le fils de joseph

Filmes sobre temas bíblicos há muitos. Todos os anos parece que um novo realizador decide experimentar o que aconteceria se subvertesse ideias cristãs e delas conjura-se uma visão supostamente original. Ainda há poucos meses, as salas portuguesas foram agraciadas por uma paródia sobre estes temas na forma de Deus Existe e Vive em Bruxelas. Ao contrário desse e muitos outros filmes, contudo, Le Fils de Joseph, a nova comédia do realizador Eugène Green, não se propõe a retirar narrativas da Bíblia e as expor sob a luz da ironia contemporânea. A abordagem deste filme francês está, na verdade, muito mais interessada em explorar temas da moralidade inerente a várias narrativas bíblicas, concebendo um conto em que esses mesmos contos são referidos e analisados, como que num registo quase académico.

Mais especificamente, Le Fils de Joseph desdobra-se a partir da figura de Vincent, um adolescente carrancudo que nunca conheceu o pai, sendo que a sua mãe, Marie, afirma que ele não tem pai. Quebrando a confiança de Marie, o jovem protagonista acaba por localizar Oscar Pormenor e parte em busca de seu criador. Infelizmente, Oscar, um nome de sísmica importância no mundo das publicações literárias francesas, é uma figura de inegável repugnância, exibindo-se como o egoísta e desumano rei de uma corte de pretensiosos lambe botas, esperançosos autores e absurdos críticos. Enojado e revoltado com esta figura, Vincent toma inspiração na história de Abraão e Isaac, e decide inverter os papéis. Um dia, entra no escritório de seu pai e tenta matá-lo.

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No entanto, tal tentativa homicida é interrompida pela incerteza de Vincent e este foge, acabando por esbarrar com Joseph, o irmão de Oscar. Os dois depressa iniciam uma próxima amizade, com o homem mais velho a tratar o jovem como uma espécie de filho que nunca teve. Decidido a seguir o caminho do bem e não do mal. Ou a voz de Deus segundo Joseph, Vincent decide emparelhar o seu novo amigo com Marie. Daí, o filme vai resvalando numa sequência de imprevistos, cada um mais absurdo que o outro, à medida que, na inversão de Cristo, Vincent nega o seu distante e todo poderoso criador em prol da criação de uma família por ele mesmo idealizada.

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Mais ainda que a sua história cómica concebida a partir de temas bíblicos e ideias contemporâneas sobre o que constitui uma família e uma relação paternal e filial, é a formalidade da direção de Green que realmente diferencia Le Fils do Joseph, não só de outras obras de inspiração bíblica como de outros filmes neste panorama de cinema independente europeu. A pintura, a arquitetura e a fotografia não são apenas inseridas no filme como objetos de observação por parte das personagens, ou decoração dos cenários cuidadosamente desenhados, mas também são uma clara fonte de toda estética do filme. Com o seu uso primoroso de cor e luz, assim como utilização de rígidas composições que raramente dispensam o tripé, Green formou um mundo longe da realidade humana, mais perto da pintura religiosa que do comum cinema independente. Mesmo nas suas escolhas cromáticas, Green demonstra uma magistral erudição em matéria de pintura religiosa, usando, por exemplo, o azul como cor unificante da nova família deste pseudo Cristo.

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É bom, no entanto, apontar como os interesses de Green e, por consequência, das suas personagens, não se reduzem a artes visuais. Sendo que a música e a literatura também marcam presença. É, aliás, uma récita dentro de uma igreja parisiense que se apresenta como ponto de reviravolta tonal do filme que passa de um frio e cómico exercício formal e teológico, para uma obra de pulsante humanismo, escondido por camadas de ostentoso artifício. Um dos grande triunfos deste realizador é mesmo como consegue transmitir à sua audiência o sublime que ele encontra em tais objetos artísticos, algo que poucos realizadores semelhantes parecem conseguir fazer, esquecendo-se que, apesar de toda a teoria do cinema de autor, não estão a fazer filmes exclusivamente para a apreciação dos seus mesmos criadores. Esse êxtase na perceção das personagens e do cineasta, tem uma curiosa tradução imagética quando várias personagens olham diretamente para a câmara em momentos que parecem querer transmitir através do ato de olhar, as suas experiências e pensamentos para a audiência no cinema, ou mesmo procurar nelas o entendimento que lhes é intangível nos seus confins narrativos.

Esse perfurante olhar não é o único aspeto em que a rígida formalidade no estilo de Green acaba por ganhar manifestação humana nos seus atores. A partir do primeiro diálogo trocado entre Vincent e um amigo que lhe propõe uma parceria num negócio de venda de esperma, a audiência é confrontada com um estilo de atuação completamente removida de qualquer noção de naturalismo. Apesar do nome dos irmãos Dardenne marcar presença nos créditos devido ao seu papel como produtores, a direção de atores presente em Le fils de Joseph está muito mais ligada à abordagem de autores contemporâneos como Martin Rejtman, que procuram um absoluto minimalismo nos seus intérpretes. Aqui, os atores não falam os seus diálogos, mas declamam-nos como se fossem parte de uma estilizada e formalizada construção de teatro barroco, as suas posturas são obsessivamente rígidas e inexpressivas, tal como as suas feições que apenas mostram emoção em pontuações quase ritualistas que relembram as codificações teatrais não só do barroco mas mesmo de outras correntes artísticas de países não europeus, como teatros asiáticos. Há quase uma displicente apatia nos atores que, contudo, ganha uma componente imensamente humorística quando emparelhada com a florida e inatural caráter dos diálogos escritos por Green num estilo tão removido do discurso realista como a sua direção.

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A grande exceção neste elenco é Maria de Medeiros, num papel de abjeto absurdo. Como Violette, uma pretensiosa e fútil crítica literária, a atriz portuguesa é uma jubilante chama de descarado ridículo humano, cambaleando pelo filme como se tivesse saído de uma farsa inebriada e sempre acompanhada por um copo de champanhe e uma boquilha encimada por um cigarro nunca fumado. De certo modo, essa diferenciação estilística, reflete a própria estruturação do discurso do filme, em que a inexpressão interpretativa serve de modulação antagónica da verbosidade demasiado enfática e floreada. Em tais mecanismos de contrastes estilísticos, Green concebe um registo tão hilariante como sagazmente capaz de carregar as ideias mais problemáticas e complexas deste filme que, por vezes, parece uma ensandecida mistura entre Robert Bresson e The Parent Trap.

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É certo que muitos cinéfilos irão encontrar em Le Fils de Joseph mais um exemplo de crónico e penoso pretensiosismo cinemático típico destes circuitos de festivais, mas a verdade é que, neste trabalho, Eugène Green concebeu aquele que é o mais acessível dos seus filmes. Aqui, os seus devaneios formalistas, ao invés de se apresentarem como sujeitos de si mesmos, são um veículo de apresentação de uma história humana, que é estranhamente comovente mesmo com todo o artificialismo formal que sobre si mesma se abate. O resultado é uma obra de maravilhosa simbiose cómica que tem como sua maior fragilidade a sua simplicidade. Esta condição sempre ameaça tornar o filme em algo inconsequente, se inegavelmente belo e tocante.

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O MELHOR: As prestações de todo o elenco, com destaque para a já louvada Maria de Medeiros, mas também Mathieu Amalric e o jovem Victor Ezenfie na sua estreia cinematográfica.

O PIOR: Esse estranho perigo de final inconsequência.


 

Título Original: Le Fils de Joseph
Realizador:  Eugène Green
Elenco: Victor Ezenfis, Natacha Régnier, Fabrizio Rongione
Comédia, Drama | 2016 | 115 min

Le fils de joseph

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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