Present Perfect

16º IndieLisboa | Present. Perfect., em análise

Depois de ter ganho o prémio principal do Festival de Roterdão, “Present.Perfect.” chega a Portugal. Este documentário chinês é um dos filmes em competição no IndieLisboa deste ano.

Muitos são os grandes autores cinematográficos que usaram a câmara como meio para conceber documentos autobiográficos. Quer seja por entre subterfúgios de ficção ou pela qualidade mais direta do documentário, existem inúmeros filmes que, na sua essência, são um gesto dos seus criadores a se exporem ao mundo e a preservarem a memória das suas vidas em celuloide. Com os avanços tecnológicos que vemos nos nossos dias, com o desenvolvimento de redes sociais e uma crescente democratização de meios de filmagem, o gesto autobiográfico há muito deixou de ser algo exclusivo de cineastas com acesso a câmaras e com carreiras prestigiadas. Em certa medida, youtubers e livestreamers são um novo tipo de cineastas do século XXI.

Entendendo o valor desta expressão videográfica das redes sociais, já alguns profissionais do grande ecrã tentaram usar os materiais e obras desta geração de cineastas digitais para elaborar projetos com um formato mais tradicionalmente cinematográfico. Em 2014, Wiam Bedirxan e Ossama Mohammed estrearam a versão final de “Água Prateada – Um Auto-Retrato da Síria”, onde vídeos publicados nas redes sociais por cidadãos sírios foram a base para uma reflexão, tão lírica como documental, sobre o apocalipse de uma nação. Deste modo, os sujeitos do documentário são os autores da sua própria história cinematográfica e o retrato da Síria não é obra de um só realizador, mas sim de toda uma comunidade.

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A internet é a pátria comum da Humanidade.

A cineasta Shengze Zu não seguiu o modelo exato de “Água Prateada”, mas é difícil não olhar para “Present.Perfect.” como um autorretrato da China contemporânea. O documentário é um mosaico composto por fragmentos de uma série de live streams chineses. Na sua pesquisa, a realizadora reuniu quase 800 horas de filmagens feitas ao longo de, mais ou menos, 10 meses e editou-as em forma de quatro capítulos focados numa série de indivíduos que vivem em frente à câmara e moldam as suas vidas consoante as demandas da câmara e da audiência. A realizadora evitou dar atenção às superestrelas do livestreaming na China, que ganham a vida através do seu trabalho de vídeo, preferindo focar-se em pessoas mais “comuns”, especialmente aqueles que, na sociedade chinesa, são ou párias ou roldanas da máquina social a quem ninguém presta atenção.

Antes de nos mostrar o que quer que seja, a cineasta estabelece um contexto histórico, posicionando a pesquisa do filme no passado, quase contrariando a qualidade imediata e em direto que estes vídeos supostamente têm. Num texto informativo, Shengze Zu fala de como o Ano Zero para a febre de livestreams na China foi 2016. Por 2017, já cerca de 422 milhões de chineses eram anchors, ou seja, aqueles que gravam vídeos transmitidos em direto em sites online. Alguns, nomeadamente aqueles que a realizadora evita, chegaram à fama e à prosperidade económica através desta febre, mas o governo rapidamente impôs novas legislações para melhor controlar repentino poder e influência destes livestreamers e suas respetivas plataformas.

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Estas palavras sobre leis e atos de cibersegurança e monitorização estatal, sugerem um elemento político que está obviamente presente no filme, mas que Shengze Zu raramente expressa de modo direto. “Present.Perfect.” evita conclusões impostas sobre as imagens, preferindo construir uma relação concetual que ganha significado através da acumulação dos vídeos. Fica a cabo da audiência esmiuçar o que é que a cineasta quer dizer com as suas escolhas de imagens. Note-se, por exemplo, que os primeiros dez minutos da obra, o primeiro capítulo, são quase exclusivamente dedicados a imagens sem voz humana. A demolição de edifícios antigos, a construção de novas metrópoles, o processo industrial e a destruição de paisagens naturais ao som de música pop pintam uma visão meio ambígua do custo do progresso chinês.

“Present.Perfect.” assume-se assim como um filme que rejeita a passividade do espectador, forçando-o a dialogar internamente com as ideias e imagens que lhes são propostas. A realizadora até evita música que não esteja já contida na pesquisa vídeo, excisa qualquer tipo de narração e extrai a cor das imagens de modo a dar coerência visual à obra. Depois de toda esta sintetização, o que sobra são os testemunhos de uma série de chineses que vivem para a câmara. Muitos deles, admitem até que o fazem por necessidade de companhia. Num dos momentos mais lacerantes do documentário, um homem de meia-idade com o corpo de um rapaz pré-adolescente fala com um dos seus espectadores, questionando se, o facto de conversarem por chat, quer dizer que são amigos. Esta dinâmica é comum a quase todos os sujeitos do filme, todos eles em busca de uma conexão humana, mesmo que ela seja artificial.

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A barreira que separa o real do virtual é ambígua.

Colocar uma câmara em frente a alguém irrevogavelmente torna o seu comportamento numa performance. A necessidade de estar sempre ligado ao resto do mundo é tão grande que uma ida à casa-de-banho se torna num espetáculo de humor autocrítico e a viagem até um apartamento tem de ser planeada de modo a evitar zonas com má wi-fi. Apesar de tudo isto, é impossível negar quanto estes vídeos significam para quem os faz. Mesmo que haja uma componente de artifício e falsidade às interações dos anchors com os espectadores, não podemos completamente invalidar a experiência de companhia e ligação humana que os intervenientes sentem. “Present.Perfect.” pode dar ideia que a aprovação pessoal que os anchors procuram é uma miragem, mas não ousa afirmar que a miragem não tem valor.

Estas ideias fazem-nos regressar ao texto inicial. Lá, a realizadora refere como a internet é a pátria comum da Humanidade e que, nos tempos que correm, a barreira que separa o virtual e o real é ambígua.  Com esta ideia em mente e com todas as imagens que nos são fornecidas, as leis descritas no início ganham uma qualidade muito mais sinistra. Quando o estado chinês puxou as rédeas da liberdade dos livestreams, muitos dos indivíduos que aqui vemos foram obliterados do ecossistema virtual, sua precária conexão com o resto da Humanidade, sua boia salva-vidas num oceano de rejeição foi-lhes roubada. O título de “Present.Perfect.” sugere que o que outrora era imediato se tornou num fragmento perdido do passado. Shengze Zhu assina assim uma última homenagem a uma breve era de expressão individual na História do seu país e dá novamente voz àqueles que foram silenciados. Este é um autorretrato da China, feito pela China e, notoriamente, não é uma pintura particularmente positiva.

Present.Perfect., em análise
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Movie title: Present.Perfect.

Date published: 2019-05-05

Director(s): Shangze Zhu

Genre: Documentário, 2019, 124 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

“Present.Perfect.” é um reflexo de uma China virada para as câmaras e para os ecrãs em busca de um bálsamo para a sua solidão. Quer sejam costureiras a falar dos seus problemas monetários enquanto cosem centenas de pares de cuecas, homens à procura de gratificação sexual com outros homens, bailarinos de meia tigela a invadir o espaço público, homens com a cara queimada a tentar achar empatia ou agricultores idealistas a falarem de estilos de vida ecológicos pintam uma imagem cáustica e urgente da sua nação. “Present.Perfect.” é uma proposta fascinante de cinema feito à medida do século XXI, com suas ferramentas específicas e sobre suas particulares ansiedades.

O MELHOR: O respeito que a realizadora sente pelos seus sujeitos é palpável, evitando que o filme se torne num ato de exploração amoral que facilmente poderia ter sido nas mãos de outro cineasta.

O PIOR: Os momentos que antecedem o final, onde vemos formigas a devorar os cadáveres de insetos maiores e ouvimos uma celebração da resiliência das baratas é um pouco forçada tanto no seu niilismo como na sua simbologia dentro do contexto do documentário.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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