"Kindred" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’21 | Kindred, em análise

A primeira longa-metragem de Joe Marcantonio, “Kindred”, é um pesadelo cinematográfico sobre o modo como uma mulher perde controlo sobre a sua vida, seu corpo, sua mente. O filme integra a secção Boca do Inferno do IndieLisboa 2021.

Há muito tempo que a gravidez fascina os criadores de terror. No cinema que mete medo, terror sobre a gravidez é praticamente um subgénero. Aí, a epítome é mesmo “A Semente do Mal” de Roman Polanski, onde o processo pelo qual a vida gesta serve para intensificar o modo como uma mulher vê toda a sua autonomia roubada pelo marido, pelos vizinhos, por toda uma sociedade que a vê como incubadora e pouco mais. Esse e outros títulos também exploram o pânico visceral que pode surgir com o crescimento de um corpo parasítico dentro do organismo. O milagre da vida também dá para ser visto como um pesadelo.

“Kindred” junta outros elementos a este cenário, como diferenças raciais e os desequilíbrios económicos que devêm de uma sociedade de classes hierarquizadas. O resultado é um filme claustrofóbico, um exercício em angústias que tanto nascem do corpo como da mente, do medo individual e da opressão institucional. O pior é que, no início, tudo parece um sonho de idílio doméstico. Charlotte Wild é uma jovem britânica, Preta e tenaz, que encontrou sua alma gémea em Ben. Ele é branco e, além disso, vem de um meio social completamente diferente do dela.

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Sua família, da qual o homem se mantém afastado tem fortunas antigas, inclusive uma propriedade palaciana que Charlotte jamais viu. De facto, tanto ele se quer afastar das raízes que o casal planeia emigrar para a Austrália e lá criar nova vida partilhada. É um sonho de romance solarengo, doce e belo. Só que a doçura da felicidade é prelúdio para a tragédia. Quando ele morre subitamente e com atroz brutalidade, Charlotte também descobre que engravidou sem saber. Afetada pelo luto, pela lacerante perda, a jovem deixa que a família de Ben entre na sua vida.

Num golpe de cruel ironia, até o corpo do amado lhe é roubado, com ele a ser enterrado na propriedade familiar, bem longe da Austrália onde sonhava viver. Além disso, o que aparentava ser solidariedade, gradualmente apodrece e revela ser obsessão. Sob o pretexto de cuidados médicos, Margaret, a mãe do falecido, toma controlo de Charlotte, dominando todos os aspetos da sua existência. Fechada no casarão antigo, medicada por doutores amigos da sogra, vigiada por um capataz fiel ao clã, a nossa protagonista vê como a liberdade lhe escapa por entre os dedos, qual pluma de fumo.

Apesar de toda esta violência psicológica, depressa percebemos que Margaret não se interessa por Charlotte enquanto ligação ao filho que perdeu. Muito pelo contrário, a matriarca envelhecida só quer saber do neto que cresce no ventre da prisioneira. Suas táticas quebram a mente da jovem, mas o filme jamais trai a sua heroína. “Kindred” jamais esconde a vilania de Margaret através de ambiguidades psicológicas, tornando tudo claro e tenebrosamente inevitável. Talvez por isso o drama não se integre assim tão bem no género de terror.

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É certo que mete medo, mas isto é mais tragédia que fábrica do susto. Os desequilíbrios sociais acima referidos, por exemplo, sublinham a tirania de Margaret sobre Charlotte. A senhora usa todo o seu cachê de respeitabilidade para desacreditar as queixas da grávida. A um certo ponto, o uso de drogas e mentiras bem afinadas quase convence a heroína de que está louca. Para alguém que originalmente tinha ponderado o aborto, esta gravidez forçada até ao término é uma espiral de indignidades onde nada é deixado incólume ou por revirar.

Nem o sentido de sanidade é respeitado. Só o corpo enquanto incubadora interessa. Ela é tornada em objeto pelos olhos dos seus manipuladores, um artefacto colonial no panorama imperialista da nobreza Britânica. Em termos de realização e escolhas estéticas, Marcantonio reforça tudo isto com imagética simbólica. Corvos são uma constante, pássaros ominosos que tanto servem para indicar a realidade tenebrosa como para sugerir a necessidade de voo, da fuga. O apelo a moscas e aranhas enquanto versões invertebradas de Charlotte e Margaret é menos bem conseguido, mais banal que enervante.

O mesmo não se aplica à arquitetura que é filmada como um encadeamento de caixas, quase caixões, que encerram Charlotte numa prisão sem saída. Há ainda as texturas das superfícies, sinais de luxo envelhecido, podre e morto, o cadáver do fausto que se decompõem enquanto engole almas indefesas. A música é igualmente hábil, mesmo quando se apoia nos clichés do horror contemporâneo. Até as passagens mais casuais, aqueles vislumbres de domesticidade benigna do início, são contaminados pelo veneno sónico. A montagem também enegrece o gesto modesto, contaminando os ritmos do quotidiano com gangrenososas tonalidades.

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Não há nada no universo do filme que não esteja doente e moribundo, um cosmos em perpétua decadência. Dito isso, “Kindred” é, acima de tudo, uma montra para os talentos do seu elenco e são eles que mais brilham, ofuscando até os truques de Marcantonio. No papel principal, Tamara Lawrence prima pela angústia cristalizada, traçando os parâmetros da aflição ao nível do corpo e da interioridade. Fiona Shaw é ainda mais impressionante como a antagonista principal. Sua maior e mais impressionante façanha é quão humana a sua Margaret acaba por ser.

Como vemos numa cena de monólogo dramático, ela é uma mulher cheia de vulnerabilidades dolorosas e medos profundos na fonte de cada maldade. Se ela fosse um monstro simplista, seria fácil odiar suas ações sem consideração sobre a sua verosimilhança. Na sua forma plena, humanizar a matriarca obsessiva só a torna mais horrenda. Afinal, quando observamos Shaw, percebemos que a história de “Kindred” não é tão descabida assim. De facto, pode estar a acontecer algo semelhante agora mesmo. Este pesadelo é uma realidade para muitas pessoas. Cuidado!

Kindred, em análise

Movie title: Kindred

Date published: 3 de September de 2021

Director(s): Joe Marcantonio

Actor(s): Tamara Lawrance, Fiona Shaw, Jack Lowden, Edward Holcroft, Chloe Pirrie, Anton Lesser

Genre: Drama, Terror , Mistério, 2020, 101 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“Kindred” é uma boa novidade no panorama do cinema de terror sobre a gravidez. Enquanto estudo das pressões sociais que se abatem sobre o corpo feminino, o filme surpreende. Alguns lugares comuns tiram valor ao exercício, mas os atores compensam tudo.

O MELHOR: Fiona Shaw – que assombro!

O PIOR: O simbolismo animal é muito banal e não se adequa à subtileza com que o resto da história é contada.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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