"Summer of Soul" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’21 | Summer of Soul, em análise

Summer of Soul (…Or, When the Revolution Could Not Be Televised)” é um extraordinário documentário musical e foi o filme de abertura do IndieLisboa deste ano. Que grande início para o festival!

O Festival de Woodstock, decorrido entre 15 e 18 de Agosto de 1969, é um monumental marco na História da música e dos movimentos culturais dos anos 60. No rescaldo imediato do evento, a criação de um épico documental de Michael Wadleigh ajudou a consolidar sua importância, reforçando a iconografia de Woodstock, sua apoteose estética, o som de uma década. Com o passar dos anos, muitos outros filmes foram realizados sobre o festival e a lenda só aumentou. Hoje em dia, é difícil imaginar que ainda exista alguma filmagem inédita de Woodstock. O seu espólio visual foi explorado e publicado até à exaustão.

Comparar Woodstock com outros eventos semelhantes diz-nos muito sobre quais as narrativas e imagens que a cultura hegemónica escolhe preservar na memória coletiva. Não se trata de uma decisão deliberada, na maior parte das vezes, mas um reflexo de comportamentos, preconceitos e ideologias. São forças tão enraizadas no tecido social e das instituições que a maior parte das pessoas nem pensa em quanto elas influenciam o mundo, o próprio ato de relembrar. Veja-se o exemplo do Festival Cultural de Harlem, uma série de concertos que durou seis fins-de-semanas repartidos pelo Verão de 1969.

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© IndieLisboa

Se Woodstock representa uma cristalização ribombante dos movimentos culturais e evoluções musicais dos anos 60, o Festival Cultural de Harlem fez o mesmo. Aliás, muitos dos artistas que lá tocaram estão no panteão dessas grandes lendas musicais cujo legado é eterno. Falamos de Nina Simone, Gladys Knight & the Pips, Stevie Winder, Sly and the Family Stone, e muitos outros. Estes não são nomes desconhecidos. Então porque é que esta reunião momentosa dos seus talentos foi tão prontamente esquecida? A resposta é tão óbvia quanto triste.

A comunidade de Harlem é maioritariamente Afro-Americana, com bairros latinos à mistura e muitas comunidades imigrantes. Gente branca é minoria nessas ruas e, por isso mesmo, o evento caiu no esquecimento. Alguns lembram-se e sentem a influência do festival – muitos deles músicos agora – mas não é algo que se encontre dentro do mainstream pop. Tal paradigma é ultrajante, especialmente porque todos os concertos foram amplamente filmados, não se podendo argumentar que não há tanto registo como houve de Woodstock.

Durante as festividades, Hal Tulchin filmou as atuações e os espetadores com a exímia observação de um mestre do cinema. Acumulou assim uma montanha de material que passou décadas a tentar divulgar. Canais televisivos rejeitaram-no uma e outra vez e, no limite, Tulchin tentou organizar uma longa-metragem documental a que chamaria “The Black Woodstock”. Infelizmente, nem esse projeto se materializou, por falta de financiamento, de interesse institucional e apreço pela história cultural daqueles condenados às margens de uma sociedade dominada por Brancos.

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Foi por isso mesmo que Ahmir Khalib Thompson, mais conhecido como Questlove, decidiu que já era altura de brilhar uma luz no trabalho de Tulchin e todo o legado do Festival Cultural de Harlem. O resultado desses esforços é um majestoso documentário que já muito prémio tem ganho no circuito dos festivais. Em Sundance, por exemplo, a fita conquistou honras do júri e das audiências. “Summer of Soul (…Or, When the Revolution Could Not Be Televised)” tem-se provado um triunfo e não é fácil perceber porquê. Não só se trata de um riquíssimo filme-concerto, como também de uma exploração sobre evoluções musicais e sistemas sociais, História, vidas Americanas.

O realizador, que aqui assina a sua primeira longa-metragem, exibe as imagens por ordem cronológica, dando bom uso à estrutura temática do festival. Cada dia era dedicado a um estilo musical – blues e gospel religioso são dois exemplos – pelo que há toda uma carga concetual distinta a cada episódio de folia. Assim, vamos apreciando as performances musicais desse quente Verão com mais de cinquenta anos ao mesmo tempo que apreciamos as perspetivas de várias pessoas. São pessoas que cantaram nesse palco nova-iorquino e são membros da audiência, jovens que cresceram a ouvir familiares falar do concerto e muito mais.

Sem chegar ao limite de dividir a peça em capítulos, Questlove organiza uma fluida passagem de género para género, encontrando os pontos de união entre géneros que, durante muitas décadas, se desenvolveram em oposição. A hibridização de cantos de igreja com instrumentalização laica é um pormenor especialmente curioso. Nesse exemplo, descobrimos a História da Música não só através do som da composição, do espetáculo, como também pelo modo como afetou as pessoas envolvidas. Longe dos academismos frios, este assunto fala-se num contexto familiar. As filhas de um músico comentam como a herança musical do pai acabou por influenciar a sua própria sonoridade, até num paradigma em que os ritmos blues eram repudiados pela comunidade evangélica.

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Além disso, Questlove ainda explora o teor político do evento, o modo como a sua memória e sua realização dizem muito sobre a América de antes e de agora. Isso ocorre tanto nas entrevistas presentes como na interseção de imagens do noticiário. Fala-se da luta pelos direitos civis, tanto no palco como nas ruas, na esfera pública e privada. Fala-se de como a chegada do Homem à Lua é, para muitos um símbolo vácuo de progresso intocável. Como se pode celebrar esse feito quando, aqui em baixo, na Terra, tanta desigualdade condena comunidades inteiras a pobreza que transcende gerações? Fome, gentrificação divisões urbanísticas e educacionais, violência policial e tantos outros assuntos vêm ao de cima, sem, no entanto, roubarem fulgor à música.

Esse é o maior milagre deste “Summer of Soul,” onde tudo é político e tudo pode ser gesto de protesto, mas onde, ao mesmo tempo, se privilegia a alegria. Num mundo com tanto sofrimento, há que celebrar aquilo que nos dá júbilo. No final, este filme é como o festival que lhe dá razão de existência. Trata-se de uma festa em forma de cinema, uma celebração comunitária que convida à inclusão e à partilha, à reverência e ao amor pela Arte. Há aqui ferocidade de quem questiona o estado do Mundo, mas também a misericórdia de quem entende o valor de um momento de pura paixão. “Summer of Soul” imerge o espetador no seu som, num feitiço inebriante onde o passado e presente, quiçá o futuro, comungam sob a alçada de uma esperança doirada.

“Summer of Soul (…Or, When the Revolution Could Not Be Televised)” volta a ser exibido no dia 29 de Agosto, às 21:45, na Culturgest. Podes encontrar mais informações no site oficial do IndieLisboa.

Summer of Soul, em análise
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Movie title: Summer of Soul (...Or, When the Revolution Could Not Be Televised)

Date published: 22 de August de 2021

Director(s): Ahmir "Questlove" Thompson

Genre: Documentário, Música, 2021, 118 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

Imersivo e poderoso, cheio de júbilo e muito conteúdo político, “Summer of Soul (…Or, When the Revolution Could Not Be Televised)” é um dos grandes triunfos cinematográficos de 2021. Não há festa mais essencial neste ano de pandemia e confinamentos prolongados, neste Verão impossível, que o Festival Cultural de Harlem em 1969. Este é o som do Verão e é tão magnífico que nos insufla o peito de sentimento. Uma salva de palmas!

O MELHOR: A flexibilidade tonal e ideológica da fita, seu mesclar de reflexão contemporânea com nostalgia embevecida por um espetáculo passado. Muito amor há que se dar à montagem de Joshua L. Pearson e à sonoplastia também. Tudo isso e temos ainda que felicitar a banda-sonora, quiçá a melhor do ano. Talvez até a melhor da década.

O PIOR: O facto que Hal Tulchin morreu em 2017, antes de poder ver este brilhante uso das suas filmagens, esta extraordinária homenagem aos seus esforços cinematográficos. Temos esperança que Tulchin teria aprovado, talvez amado, o filme de Questlove.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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