"Un cielo tan turbio" | © Syndicado

IndieLisboa ’21 | Un cielo tan turbio, em análise

Un cielo tan turbio”, também conhecido como “So Foul a Sky”, foi um dos primeiros filmes a passar na secção Silvestre do IndieLisboa 2021. Trata-se de um documentário poético oriundo da Venezuela, um hino triste sobre uma nação subjugada pela indústria petrolífera.

Depois de “Nocturno: Ghosts of the Sea In Port”, o cineasta galego Álvaro F. Pulpeiro virou-se para a obra de Joseph Conrad para a sua segunda longa-metragem. Nomeadamente, o realizador inspirou-se no “Nostromo” do escritor polaco-britânico. Esse livro, originalmente publicado em 1904, inventa uma nação Sul-Americana, um país chamado Costaguana, e a partir daí delineia toda uma sociedade na ravina da revolução. Fala-se de instabilidade política, das cicatrizes de antigas tiranias e de uma economia baseada nas minas de prata. Conrad usa a mentira, o engenho da ficção especulativa, para iluminar os problemas de todo um continente.

Apesar da sua influência, há que se entender quanto “Un cielo tan turbio” não é uma adaptação de “Nostromo”. Afinal, enquanto o livro se designa narrativa, há uma amorfia observacional muito deliberada no edifício fílmico. A obra do grande-ecrã é um documentário no limiar da abstração, uma odisseia pela Venezuela contemporânea onde o petróleo subjugou a nação à ditadura do capital, onde a Natureza é explorada e a pobreza se espalha como uma praga. Longe de se focar no indivíduo, a câmara esta sempre em movimento, sempre na busca de mais sujeitos humanos, pessoas que funcionam como parte de um todo e não como protagonistas. Este não é um retrato humano, mas uma meditação sobre o coletivo da nação.

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Em termos mais concretos, a estratégia audiovisual de Pulpeiro centra-se nas horas perdidas em que a noite se torna dia e esse mesmo dia morre num sepulcro noturno. O crepúsculo e o amanhecer são tempos de transição e também a terra parece existir em infinitas configurações de espaços transitórios. As observações de “Un cielo tan turbio” repartem-se pelos muitos cantos da Venezuela: a fronteira da Venezuela com o Brasil, o Deserto Guajira, Maracaibo, Cabimas, Amuay, navios da marinha e refinarias petrolíferas. Contudo, em todos esses lugares, só se veem estradas e pessoas em movimento, em busca de esmola ou na viagem para o trabalho, operários descansando por um misericordioso segundo.

Poucas vezes se enquadra uma pessoa em composição tradicional. Grandes angulares e ângulos fragmentadores distorcem o ser humano e tornam-no numa continuação da paisagem. Quando se olha para cima, é para ver um céu a arder, nuvens queimadas pela luz da alvorada ou grandes expansões de fumo negro, cuspido por chaminés que parecem catedrais do progresso e do apocalipse. A câmara impávida, mirando estradas e autoestradas de grandes distâncias, sucumbe sua imagem numa escuridão líquida e reluzente. O alcatrão parece brilhar como um rio escuro, os faróis das viaturas quais pirilampos sobrevoando uma superfície fluvial.

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Esta visão de uma nação industrializada, onde todos os espaços são ora de passagem ou de indústria, acaba por abstratizar a própria vida, sugerindo uma realidade imaginada. “Un cielo tan turbio” conta a verdade através de imagens moldadas em pesadelo pela objetiva da câmara. Assim se encontra a máxima influência de Conrad no trabalho do cineasta documental. A Venezuela que vemos, tanto é um país real como é herdeira de Costaguana, uma sinédoque imaginada que nos permite ponderar sobre a decadência de uma terra que só encontra desespero no passado, no presente, e num futuro incerto. É poesia, por outras palavras, mas o lirismo manifesta-se carregado de indignação política e a força de um protesto.

Veja-se o ritmo constante de uma mão que conta notas. Tão rápido o movimento, tão bem treinado e automatizado, que conseguimos ler as palavras inscritas no dinheiro, as várias folhas sobrepostas num palimpsesto translúcido. O som é que nos recorda a ação, enquanto os olhos se perdem no ritmo, no nome da República da Venezuela que brilha negro nessas notas bem contadas. Muitas das pessoas que o filme captura são ricas e pobres em simultâneo. As mãos cheias de notas não impedem a exploração selvagem por um sistema injusto. Tanto o formalismo puro e duro do filme nos desconeta da ideia concreta do dinheiro, como nos faz refletir sobre a economia em ruínas da Venezuela e o impacto que isso tem na população.

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É sempre um jogo de sugestões, pois claro. Palavras sussurradas por um narrador sisudo, ecos da rádio onde se ouvem falar de políticos distantes. Bustos em edifícios oficiais recordam também quanto aqueles em poder estão distantes da gente vulgar. Para aqueles que fazem estes caminhos traiçoeiros, no deserto e no mar, os grandes líderes são tão humanos, tão presentes, quanto as representações estatuárias. Um pormenor precioso é o modo como a luz fraca nunca nos permite ver as feições desses mesmos rostos de pedra. Percebemos a sugestão de uma silhueta facial, mas jamais podemos contemplar o seu olhar. Tal como as pessoas dentro do filme, o espetador sente-se alienado desses figurões.

Longe das construções humanas, das autoestradas fatalistas, o engenho de Pulpeiro, a montagem de Martin Amezega, os sons metálicos na música de Sergio Guitiérrez Zuluga e a miraculosa fotografia de Mauricio Reyes Serrano perpetuam esta distorção audiovisual, quase mística. Os vislumbres de natureza terrena, quer seja fauna ou flora, parecem sempre uma extensão do desespero humano. Catos vestem-se em plásticos rasgados, farrapos ruinosos, monumentos de lixo que tornam a paisagem em algo fantasmagórico. Por seu lado, as cobras deslizam pelo chão, serpentinos predadores que se afiguram hibridizações dos muitos tubos plásticos e mangueiras usadas para transferir e transportar o petróleo, gasolina, gasóleo. Tudo ou é um agoiro de morte, uma extensão do comércio petrolífero ou uma ameaça hostil. Quiçá todas essas vertentes sejam uma só.

As últimas imagens deixam a terra e o céu, focando-se nas fronteiras aquosas da Venezuela, mirando o sol que se esvanece à medida que a câmara se afunda. Nas águas negras, perde-se a luz, perde-se a esperança, a identidade, perdem-se obrigações e perde-se o ar, perde-se o filme também. Mas, quando o túmulo subaquático parece certo, somos pescados pelas grandes máquinas que escoram o fundo do oceano em busca de mais ouro negro. Em certa medida, o movimento é o mesmo. A câmara perpetua um distanciamento da costa, das pessoas, dirigindo-se a uma realidade onde só existe o horizonte e esses titãs petroleiros.

Un cielo tan turbio, em análise

Movie title: Un cielo tan turbio

Date published: 23 de August de 2021

Director(s): Álvaro F. Pulpeiro

Genre: Documentário, 2021, 83 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

“Un cielo tan turbio” é um documentário assombroso que se debruça sobre o estado atual da Venezuela e orienta uma crítica política por meios da poesia abstrata. Mais do que uma etnografia ou o registo da miséria moderna, o filme sente-se como um espectro cinematográfico, o fantasma de algo perdido na procura do progresso, do capital.

O MELHOR: Bandas folclóricas cantam na estrada e tentam ganhar uma esmola. Seus ouvintes são operários e, numa passagem inesquecível, um grupo de mulheres com quem viajam na parte de trás de uma carrinha a céu aberto. Na noite cerrada, os seus rostos iluminados parecem flutuar por um espaço negativo, uma impossibilidade física onde a profundidade se sublima a nada e o corpo em movimento veloz voa imóvel. Que cena! Tão espetacular quanto é modesta, aqui se regista o milagre de um cinema que encontra a veia política pelo caminho formalista.

O PIOR: As interrupções de um narrador poético quebram o feitiço levantado pelas imagens menos demonstrativas. Perguntamo-nos se uma forma ainda mais abrasivamente difusa não beneficiaria o filme. Talvez fosse melhor se mergulhasse totalmente no paradigma do cinema experimental.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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