Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché

16º IndieLisboa | Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché, em análise

Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché” é uma tentativa desesperada de resgatar o legado de uma das pioneiras mais importantes da História do Cinema. Trata-se de um dos filmes incluídos na Secção Director’s Cut do IndieLisboa.

Quem foi Alice Guy-Blaché? Essa é a pergunta que Pamela B. Green propõe tanto à sua audiência como a uma coleção bem impressionante de profissionais da indústria cinematográfica. Para desespero desta realizadora, parece que quase ninguém sabe responder à questão com mais do que uma confissão de ignorância. Muitos críticos e historiadores já vieram manifestar-se contra a premissa de “Be Natural”, impugnando que Alice Guy-Blaché está longe de ser uma figura desconhecida ou injustamente apagada dos anais da História do Cinema. Afinal, há livros escritos sobre ela, qualquer estudioso empenhado das origens do cinema em França deverá saber o seu nome. Contudo, vendo o que Green aqui nos mostra, é difícil não olhar para essa opinião como o resultado de uma perspetiva insular e terrivelmente privilegiada.

Até aqui pela MHD já mencionámos a História de Alice Guy-Blaché que foi, não só, a primeira mulher realizadora como também uma das primeiras pessoas a realizar qualquer tipo de produção cinematográfica. Há quem lhe atribua a autoria do primeiro filme narrativo, “La fée aux choux” de 1896, e é indisputável que ela foi a primeira mulher a fundar um estúdio de produção cinematográfica quando abriu as portas dos Solax Studios em Nova Iorque no ano de 1910. Estima-se que tenha realizado quase 500 filmes ao longo da sua carreira que acabou repentinamente na alvorada dos anos 20 e o nascimento de Hollywood. Muitos foram os cineastas de renome que apontaram para ela como inspiração, incluindo Alfred Hitchcock e Sergei Eisenstein, mas não demorou muito até que o nome de Alice Guy se começasse a perder, pouco e pouco, até que chegamos ao estado atual.

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“Be Natural” era a mensagem que Alice Guy-Blaché tinha nas paredes do seu estúdio. Ela queria que os atores atuassem de forma naturalista.

Não querendo desacreditar em demasia as pessoas que dizem que Alice Guy-Blaché não foi esquecida, consideremos que as mesmas pessoas que Green entrevistou provavelmente saberiam bem o nome dos irmãos Lumière, de Louis Feuillade e George Meliés. Todos eles foram contemporâneos de Alice Guy-Blaché e, examinando com atenção a evolução da sétima arte nos seus anos primitivos, seria difícil dizer que eles foram significativamente mais importantes que ela. Feuillade, na verdade, foi assistente da cineasta e só se tornou realizador graças aos seus incentivos. Num gesto de crueldade particularmente aguçada, Alice Guy-Blaché, décadas depois de ter sido rejeitada pela indústria cinematográfica francesa após regressar falida dos EUA, viu alguns dos seus filmes serem erroneamente creditados ao antigo subalterno.

É entendível a fúria que parece dominar a realizadora de “Be Natural”. Como é que é possível que tal aconteça? Como é possível que mesmo cinéfilos como Peter Bogdanovich nunca tenham ouvido falar desta pioneira revolucionária? De certo modo, o documentário aqui analisado serve de resposta a essa mesma questão, ao mesmo tempo que tenta propagar o evangelho de Alice Guy-Blaché. Pamela B. Green é a pregadora, que procura converter as massas tanto por meio da biografia como pela mostra de alguns excertos dos muitos filmes de Alcie Guy-Blaché que muitos presumiam estar perdidos. Apesar de não chamar atenção para isso, Green dá grande uso aos mais recentes esforços da Gaumont que, após décadas de sistemático apagamento do nome da realizadora, fizeram um esforço hercúleo de restauração e conseguiram recuperar 90 curtas-metragens.

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Ver a obra de Alice Guy-Blaché de novo no grande ecrã é um milagre assombroso e Green sabe usar a maravilha cinéfila de tais instantes para insuflar o coração do espectador de indignação e muita curiosidade. A sua abordagem é frenética, quase fazendo lembrar a hiperatividade hiperestilizada de Baz Luhrmann, mas nunca é indisciplinada. Muitos são os realizadores que, ao fazer elegias a mestres cinematográficos do passado, embalsamam seus ídolos em modelos de cinebiografia convencionais, traindo a inovação representada pelo próprio sujeito da obra. “Be Natural” escapa a tais dinâmicas, exibindo-se com toda a glória que um pesado trabalho de pós-produção e desenho gráfico elaborado podem oferecer.

Para certos espectadores, tais devaneios estilísticos poderão ser uma marca de hubris feia. Diríamos que, pelo menos, esses mecanismos dão ao projeto um entusiasmo energético que muito faz para dar urgência a um assunto que, essencialmente, é um dilema de preservação e documentação histórica. Além do mais, Green está aqui a tentar enfiar uma carreira com quase meio milhar de filmes, sem falar dos anos que vieram a seguir a uma reforma forçada, em duas horas. Será de esperar alguma rapidez e síntese. Mesmo os devaneios mais estranhos do documentário acabam por coerir com o seu tema central de conservação histórica, incluindo as muitas passagens em que Green deixa de estar a narrar (com a voz de Jodie Foster) a vida de Alice Guy-Blaché e simplesmente retrata o laborioso processo de encontrar informação.

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Alice Guy-Blaché realizou um dos primeiros filmes com um elenco inteiramente composto por atores afro-americanos.

Desde cassetes que têm de viajar por metade dos EUA até ser possível recuperar os seus conteúdos até aventuras telefónicas pela árvore genealógica da antiga pioneira do cinema, os esforços de Green são impressionantes. Impressionante também é o modo como a cineasta nunca parece formular “Be Natural” como um exercício destinado a académicos, mas sim como um potencial produto para as massas. Este é um exercício documental perfeitamente acessível e as conclusões a que chega não podiam ser mais relevantes. O filme, como já indicámos, é tanto uma homenagem e celebração de Alice Guy-Blaché como é uma investigação sobre o crime do seu esquecimento.

“Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché” mostra-nos como é fácil apagar alguém dos livros de História. Basta omitir-se um nome, enganar-se um pouco aqui, um pouco ali, trocar datas e fazer uma série de gestos que tanto podem ser acidente como maldade e, de repente, as escolas de cinema francesas têm salas de projeção com o nome de uma cineasta que ninguém conhece, nem mesmo os estudantes. Reverter este processo é muito difícil, muito mais que o apagamento em si e acaba por revelar quão sexista as próprias instituições dos estudos de cinema e história da Arte podem ser.

O historiador e cineasta Mark Cousins já veio a acusar a História do Cinema de ser sexista por omissão. Tais gestos de preconceito e opressão tendem a ser difíceis de desvendar devido à sua passividade, mas, face ao exemplo de Alice Guy-Blaché, é impossível ficarmos indiferentes. Enfim, mesmo quem já soubesse tudo o que o filme tem a dizer sobre esta cineasta de outros tempos, é certo que até hoje não havia um documentário tão singularmente empenhado em perpetuar o legado de Alice Guy-Blaché. Quem realmente ama o cinema não poderá ver nada de negativo nisso, pois não?

Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché, em análise

Movie title: Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché

Date published: 2019-05-03

Director(s): Pamela B. Green

Genre: Documentário, 2018, 103 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

Uma peça de jornalismo de investigação, arqueologia cinematográfica e elegia artística, “Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché” está longe de ser um documentário perfeito, mas as suas intenções não podiam ser melhores. Oxalá os esforços de Pamela B. Green acabem por levar mais pessoas a conhecer o nome, legado e trabalho de Alice Guy-Blaché, que devia justamente ser tão apreciada como outros dos seus contemporâneos como Louis Feuillade, George Meliés e até D.W. Griffith.

O MELHOR: As passagens das obras de Alice Guy-Blaché restauradas em toda a sua glória.

O PIOR: Há uma certa vilificação que não é totalmente injustificada, mas que deveria quiçá ter mais nuance, especialmente considerando os desenvolvimentos mais recentes no restauro e conservação dos primeiros filmes de Alice Guy-Blaché, cuja carreira começou exatamente nos estúdios Gaumont.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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