De los nombres de las cabras

16º IndieLisboa | De los nombres de las cabras, em análise

De los nombres de las cabras” é um documentário sobre a ilha de Tenerife e seus povos indígenas que teve a sua estreia mundial no IndieLisboa e integra também a competição de longas-metragens do festival.

Ao discutir a expansão marítima dos países ibéricos, há uma triste insistência em evitar a palavra “conquista”. Durante muito tempo, “descobrimentos” era o eufemismo de eleição, um termo que reflete em si uma visão imperialista ao privilegiar a perspetiva europeia acima de qualquer outra. Afinal, as terras que Espanha e Portugal “descobriram” e tomaram como suas, já eram habitadas, já pertenciam a outros, a povos nativos que foram sistematicamente categorizados como primitivos e selvagens. Tais ideias legitimam as ações dos poderios europeus, suas chacinas, exploração de recursos e obliteração de culturas nativas.

A História é escrita pelos vencedores e, neste caso, as nações colonialistas foram as que reclamaram a vitória. Com seu poder consolidado pela violência, moldaram os factos e esculpiram a memória coletiva, apagaram a perspetiva daqueles que foram as vítimas sacrificadas em nome da sua glória. Talvez, nos dias que correm, tais retóricas inerentemente racistas estejam a entrar em desuso, pelo menos nas salas de aula, mas é impossível ignorar o seu efeito na cultura dos países envolvidos no pesadelo colonialista, quer sejam eles os impérios ou as nações “descobertas”.

Numa das passagens mais interessantes de “De los nombres de las cabras”, os cineastas Miguel G. Morales e Silvia Navarro colocam em destaque um vídeo meio propagandista da Espanha de Franco. Aí, referindo-se às ilhas das Canárias, afirma-se que os espanhóis não conquistaram a região. Para o locutor, “conquista” é uma expressão feia que sugere um domínio forçado, que não terá ocorrido segundo as suas palavras. Apesar de este ser um momento memorável, está longe de ser a única instância do documentário em que as mentiras colonialistas mostram a cara e revelam de modo bem explícito esse referido processo pelo qual a História é reescrita para servir os interesses daqueles que estão no poder.

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Um estudo sobre os ciclos da história e o modo como eles moldam o facto.

Usando exclusivamente imagens de arquivo, algumas delas num estado bastante deteriorado, esta equipa de cineastas propõe-se a examinar a ilha de Tenerife das Canárias, acabando assim por revelar estas dinâmicas históricas. Sua base é principalmente composta pelas documentações levadas a cabo por um arqueólogo nos anos 80. Arqueólogo esse cujas palavras denotam como a influência imperialista afeta mesmo aqueles que dedicam a vida ao estudo do passado. Uma das crenças que guia as explorações que observamos é que o povo Guancho, nativo da ilha, vivia dentro das cavernas rochosas, quase que numa perpétua Idade da Pedra que só foi superada graças aos espanhóis.

Aliás, segundo a retórica que ouvimos, os espanhóis salvaram a ilha, trazendo ao seu povo a maravilha da igreja católica e pondo-os a trabalhar para a prosperidade da pátria. Tão eficiente foi esta salvação que a cultura específica das ilhas foi praticamente esmagada sob o peso dos valores europeus. A ideia dos Guanchos a viver nas cavernas terá sido um mito criado por esta ignorância face ao passado de Tenerife. Os buracos nas rochas não eram nenhum tipo de habitação, somente um depositário para os cadáveres. As cavernas eram os túmulos que arqueólogos, como aquele que tanto ouvimos neste filme, saquearam para depois encher prateleiras com crânios dispostos como souvenirs numa loja para turistas.

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Em certa medida, Morales e Novarro também saqueiam arquivos históricos em busca de matéria-prima audiovisual. Seu amor pelas texturas da película antiga, cheia de arranhões e buracos, degradação e ruído, é claro e quase reflete o modo como os arqueólogos encaram os objetos que encontram. No entanto, “De los nombres de las cabras” recusa tornar-se num exercício puramente formal ou uma glorificação cega de uma civilização martirizada face à agressão colonialista. Desse modo, este é quase um exercício de cinema anti etnográfico, uma inversão dos filmes que tentam descobrir os segredos do passado e preservar o facto histórico em celuloide.

Aqui, o objeto de estudo não são tanto os Guanchos, mas sim aqueles que os apagaram e mitificaram, as histórias que os tornaram selvagens primitivos e as palavras de historiadores preconceituosos que privilegiaram os interesses e as mentiras dos conquistadores acima da verdade dos conquistados. Não podemos afirmar que seja um filme particularmente arrebatador, funcionando mais como uma base para discussão académica. Contudo, a plasticidade das imagens recolhidas e o discurso ideológico que se denota na montagem elevam “De los nombres de las cabras” acima de muitos outros filmes construídos de forma semelhante.

De los nombres de las cabras, em análise

Movie title: De los nombres de las cabras

Date published: 2019-05-08

Director(s): Miguel G. Morales, Silvia Navarro

Genre: Documentário, 2019, 62 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

Com uns parcos 62 minutos, “De los nombres de las cabras” é um valioso esforço cinematográfico que tenta deixar a descoberto as dinâmicas de privilégio colonial e preconceito racista que moldam a História. Através de imagens de arquivo e da pesquisa feita por um arqueólogo nos anos 80, especialmente uma série de entrevistas a pastores locais, os cineastas constroem um fascinante documentário ensaístico desprovido de narrações contemporâneas intrusivas.

O MELHOR: A seleção judiciosa e astuta das imagens de arquivo.

O PIOR: Com a sua curta duração e alguma repetição de ideias, o filme parece um pouco insubstancial. As ideias que levanta são interessantes, mas não é um filme que galvanize muito o espetador.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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