Il Risoluto indieLisboa

15º IndieLisboa | Il Risoluto, em análise

Il Risoluto” é um documentário onde, através de longas entrevistas, o cineasta italiano Giovanni Donfrancesco tenta exumar os fantasmas do fascismo italiano. Este é um dos filmes na secção competitiva internacional da 15ª edição do IndieLisboa.

Documentários construídos sobretudo a partir de entrevistas não são nenhuma raridade, podendo-se até considerar a norma quando nos focamos em projetos televisivos de caráter mais jornalístico. No entanto, mesmo tendo isso em consideração, é difícil não olhar para o mais recente trabalho do cineasta italiano Giovanni Donfrancesco e nele atestar uma certa simplicidade fora do normal. “Il Risoluto” é, na verdade, pouco mais que uma longa entrevista sob a forma de um monólogo, mais ou menos livre de contexto, de Piero Bonamico, um italiano expatriado nos EUA.

É precisamente no Vermont que todo o filme se desenrola, numa pequena casa junto ao espelho gigante de um grande lago. Aí vivem Bonacimo e sua esposa, Lee Aura, e é no escritório sombrio da habitação que a maior parte da entrevista decorre, sendo que Donfrancesco apenas abandona a sua rígida abordagem por alguns instantes aqui e ali, como que dando oportunidade ao espectador para respirar por entre as torrentes verbosas de informação que Bonamico oferece à câmara. A duração de 159 minutos do filme já seria causa suficiente para a necessidade destas pequenas pausas, mas o tema da conversa certamente exacerba a necessidade de algum espaço para respirar e assimilar informação.

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“(…)pouco mais que uma longa entrevista(…)”

Logo no início do seu discurso, Bonamico afirma que o que se passou em Itália na primeira metade do século XX não foi uma guerra, mas sim as ações de um gangue liderado por um criminoso. Criminosos eram também aqueles que faziam parte desse sistema. Bonamico era então, por admissão própria, um criminoso, tendo passado a sua adolescência como um membro da Decima Mas, uma das milícias fascistas mais temidas e sanguinárias durante o período da 2ª Guerra Mundial.

Como já referimos, longe de se tentar desculpar ou desculpabilizar de seus feitos, o entrevistado idoso está sempre pronto a sublinhar a sua participação nos horrores, admitindo como, no contexto social em que vivia, o fascismo era algo aliciante. Afinal, enquanto as classes altas tinham a ópera, o teatro, o cinema e tantas outras distrações da sua vida já por si privilegiada, os mais pobres, que ansiavam por forma de escapar, nem que fosse por minutos, à sua realidade, tinham o fausto do aparato fascista.

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Tal realidade é quase palpável nas palavras de Bonamico, que via no uniforme das milícias algo semelhante a uma promessa silenciosa de prosperidade e importância, um estatuto acessível até aos mais pobres, consoante os sacrifícios que estivessem dispostos a fazer ou, como ele viria a descobrir, os hediondos crimes que estivessem dispostos a perpetrar em nome do estado. Segundo este italiano há muito saído do seu país de origem, o aliado número 1 do fascismo foi a ignorância e Itália estava e está cheia de ignorantes, ele mesmo incluído nesse grupo. Ao contrário dos ignorantes de hoje, contudo, Bonamico afirma não esquecer, ele não esconde o passado ou seus erros.

Pelo menos é essa a ficção que ele parece contar a si mesmo e a quem o queira ouvir. “Il Risoluto” é um grande documento de reminiscências pessoais, trazendo uma perspetiva raramente ouvida a uma das eras mais negras da história recente. Com isso dito, há grandes limites no discurso de Bonamico e o maior deles todos é a incapacidade de pensar nas suas vítimas. É certo que ele fala sobre elas, sobre os atos que foi forçado a fazer, mas nunca considera o sofrimento que lhes causou e tenta sempre evitar ponderar sobre isso. Esta é a história dele, a de um homem  que ainda hoje é marcado pelos horrores que causou, pela violência que executou às ordens do estado, um trauma que, no extremo da sua arrogância, Bonamico afirma ser algo que faz dele um homem completo.

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“(…)uma reminiscência fascinante, à qual parece faltar forma(…)”

Quando o realizador tenta questionar o seu entrevistado, tudo começa a dar para o torto e, no momento mais dinâmico de todo o filme, Bonamico recusa-se mesmo a falar. Quando, no último de quatro atos do filme, ele volta a ser entrevistado, é já noutro cenário, menos íntimo, mas também mais confortável para o velho italiano. Talvez por isso, pela reticência e resistência de Bonamico, Donfrancesco nunca consegue guiar o filme a nenhuma conclusão ou formar, na sua rígida estrutura, qualquer tipo de tese.

No final, “Il Risoluto” é somente uma reminiscência fascinante, à qual parece faltar forma, ou talvez a implacabilidade de um interrogador capaz de quebrar as barreiras pessoais do antigo soldado fascistas. Na sua forma derradeira, o melhor que se pode dizer do filme é que, como documentário sobre o fascismo em Itália, é uma obra frágil e um tanto ou quanto incompleta. Apesar disso, avaliado como um estudo de uma personalidade singular, suas contradições e reticências carrancudas, então já é algo mais precioso. É pena, portanto, que a ambição palpável de Donfrancesco pareça estar sempre mais virada para a tese histórica do que para o retrato intimista, não obstante a pequenez formal do seu edifício fílmico.

 

Il Risoluto, em análise

Movie title: Il Risoluto

Date published: 29 de April de 2018

Director(s): Giovanni Donfrancesco

Genre: Documentário, 2017, 159 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO

“Il Risoluto” é um documentário tão ambicioso como simples, mas por vezes as suas ambições acabam por ser demasiado grandes para o que, no final, acaba por ser principalmente um retrato intimista cheio de insinuações políticas e históricas que não vão dar a nenhum tipo de tese ou conclusão.

O MELHOR: O desentendimento entre entrevistado e entrevistador, por muito irritante que tal conflito possa ter sido para o realizador.

O PIOR: A invariabilidade visual do filme é bastante cansativa, especialmente considerando a grande duração do mesmo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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