"Les Sorcières de l'Orient" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’21 | Les Sorcières de l’Orient, em análise

Les Sorcières de l’Orient”, também conhecido como “Witches of the Orient”, é um documentário sobre a seleção nacional de voleibol feminino que representou o Japão nos anos 60. A obra integra a Competição Internacional do IndieLisboa 2021.

O cineasta documental Julien Faraut tem vindo a criar uma filmografia focada no modo como imagens de arquivo de acontecimentos desportivos podem ser moldadas em objetos intrinsecamente cinemáticos. O seu “John McEnroe: In the Realm of the Perfection” é tanto sobre a figura titular como sobre a plasticidade cinética da bola a cortar o ar, as linhas invisíveis que desenha no court de ténis. Ao reduzir a partida a um conflito audiovisual, tão geometria como colisão de personalidades fortes, ele concretiza uma variação moderna e modernista do documentário desportivo.

No seguimento desse projeto, Faraut volta ao mesmo milieu, mas, desta vez, seu foco de interesse expande-se da miopia individual para um olhar coletivo. “Les Sorcières de l’Orient” não é a história de um herói ou mesmo de uma heroína. Acima de tudo, é a documentação de uma equipa que fez história e uniu a nação em torno da ambição partilhada pela vitória. Se há aqui uma procura a perfeição, jamais toma as formas hostis que vimos no retrato de McEnroe. Pelo contrário, através da interseção de técnicas e transfigurações formais, este filme tem um tom mais celebrativo que analítico, uma homenagem ao invés da dissecação.

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As protagonistas são as trabalhadoras de uma fábrica de têxteis em Osaka, mulheres que formaram uma equipa de voleibol como extensão da comunidade operária. Dessas origens humildes, a ascensão foi rápida, quase vertiginosa. Na alvorada da década de 60 já elas representavam o Japão, ceifando uma vitória improvável aos soviéticos. Só que, como foi nessa época que o voleibol se tornou modalidade olímpica, a história não ficou por aí. Nas Olimpíadas de Tóquio em 1964 foi onde as desportistas consolidaram sua lenda, ganhando o ouro e a alcunha de bruxas do Oriente para a imprensa internacional.

Alcunhas e diminutivos têm lugar de primazia neste filme sobre recordar o passado. Reunidas pelo realizador, as senhoras já idosas recordam os nomes que seu treinador lhes deu, esses títulos jocosos que ajudaram a moldar sua lenda, sua popularidade. Alguns dos nomes são bem caricatos e sua apresentação, em intertítulos ilustrados e freeze-frames serve de prelúdio à caricatura animada. Acontece que o fenómeno do sucesso desportivo levou à proliferação de animes sobre voleibol, reconfigurações arquetípicas destas operárias tornadas ídolos olímpicos. No entanto, mais do que a depuração cartoonesca, estas animações revelam temas comuns, ideias que definem as jogadoras enquanto figuras culturais.

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Há um grande foco no esforço físico, no flagelo do treino e na brutalidade de um treinador destemido. Lentamente, vamos descobrindo como as histórias destas bruxas do Oriente foi muitíssimo caracterizada pelo homem que alegadamente as conduziu ao sucesso. O documentário contraria esse impulso histórico, renegando a personagem masculina para as margens da estrutura. Só seu avatar desenho-animado deixa grande impressão. De resto, “Les Sorcières de l’Orient” pertence às mulheres e seus grandes feitos em jogo. Se tanto, as forças soviéticas, equipas rivais e imponentes, emergem enquanto maiores personagens que o treinador.

Por entre os muitos esforços vitoriosos que o filme exibe, Faraut vai concretizando uma tapeçaria granular, tecida em celuloide de 16mm, que conta a história do Japão enquanto potência da Guerra Fria. Refere-se a uma nação a reinventar-se no pós-guerra e a querer descobrir uma identidade nova, divorciada dos crimes passados e com os olhos postos no futuro. Esse paradigma combativo ajuda a contextualizar os vídeos das partidas enquanto narrativa épica, ajuda a dar a essas passagens a energia de um drama mainstream. De facto, devido à sua metamorfose recorrente, mistura incessante de registos animados e documentais, antigos e atuais, “Les Sorcières de l’Orient” jamais deixa que o espetador descanse. A estimulação nunca para.

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Mas qual é o resultado final de toda esta criatividade? O foco restritivo dos projetos anteriores de Faraut conduzirem a teses claras, ideias fixas e cristalizadas com sintética precisão. “Les Sorcières de l’Orient” é uma inspiradora explosão de constante invenção, mas os conceitos basilares são, por isso, difíceis de apurar. A colisão de formas entretém ao mesmo tempo que ofusca o espetador, limitando uma visão geral do filme e o que está a dizer efetivamente sobre a equipa nacional de voleibol feminino no Japão dos anos 60. É esta a dissecação do mito ou pretende perpetuá-lo pela mão do cinema?

Sem um conceito unificante, o filme restringe-se à sugestão de atmosferas inefáveis e sentimentos delicados. Justapõe-se as várias imagens de arquivo até que a audiência se sente hipnotizada, até que as próprias filmagens contemporâneas se afiguram marcadas pelo êxtase do passado, sua melancólica memória, sua cálida nostalgia. É certo que não saímos do cinema com um novo entendimento do voleibol ou da história japonesa, nem mesmo destas mulheres específicas. Contudo, sentimos compreender um pouco da paixão que levou Faraut a dedicar todo um filme às bruxas japonesas, às campeãs de outros tempos, às heroínas do desporto. A transmissão desse afeto é raison d’être suficiente para justificar o projeto.

Les Sorcières de l'Orient, em análise
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Movie title: Les Sorcières de l'Orient

Date published: 7 de September de 2021

Director(s): Julien Faraut

Genre: Documentário, Desporto, 2021, 100 min

  • Cláudio Alves - 72
72

CONCLUSÃO:

Julien Farault continua a reinventar o documentário desportivo, abandonando a convenção que inspira sentimentos fortes em prol de uma dialética mais formalista. “Les Sorcières de l’Orient” leva o cineasta aos antípodas da experiência caleidoscópica, resultando num cocktail fabuloso que entretém mais do que faz pensar. Mesmo no panorama do cinema de arte e no circuito festivaleiro, esse aspeto pode ser interpretado como uma qualidade. Certamente louvamos a imaginação do artista, a glória de seus sujeitos e a beleza do produto final. Pode ser vagamente superficial, mas o filme é assombroso também.

O MELHOR: A montagem é um precipício de energia em crescendo constante. Passando de documentos presentes a arquivos do passado, de carne e osso a animação, “Les Sorcières de l’Orient” é um filme mutante que nunca para de se transfigurar em novas formas.

O PIOR: A nebulosidade indefinida de uma tese central, quiçá sua inexistência.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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