"Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’21 | Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental, em análise

Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental”, também conhecido como “Bad Luck Banging or Loony Porn”, é o mais recente vencedor da Berlinale. Este campeão Romeno do Urso de Ouro integra agora a seleção Silvestre do IndieLisboa 2021. Este filme satírico, urgente e hilariante estreia nos cinemas portugueses em Setembro.

O realizador Radu Jude começou a sua carreira num milieu realista, bem inserido no contexto da Nova Vaga Romena, mas as suas obras mais recentes têm vindo a explorar outros caminhos cinematográficos. Em 2015, o seu “Aferim!” revelou a procura do formalismo rígido enquanto veículo para a reflexão histórica, perscrutando os antigos ódios entre uma sociedade romena e as comunidades Romani. “Inimi cicatrizate”, uma deslumbrante obra-prima, mirou a Roménia na primeira metade do século XX através da história de um jovem traído pelo próprio corpo. Lentamente, a crítica de Jude foi-se intensificando, seu comentário histórico ficando mais direto e feroz.

Documentários como “The Dead Nation”, deram-lhe oportunidade para aguçar o discurso num contexto que intersecta o academismo e o humor sardónico. Finalmente, “I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians” marcou um ponto final na evolução de Jude, devolvendo o cineasta de volta à estética realista. Só que, desta vez, a câmara encarava o naturalismo da performance artificial, usando o pretexto de encenações históricas para desnudar os vícios e ódios da Roménia contemporânea. No cinema de Radu Jude, os fardos da História, seus crimes e cicatrizes, ainda se sentem na atualidade. Só quem é ignorante ou pretende perpetuar a ignorância, nega tais verdades. Outro marco importante deste último trabalho foi seu teor paródico, argumentando o discurso sociopolítico através da comédia negra.

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Se “I Do not Care If We Go Down in History as Barbarians” representa uma apoteose, um capítulo final numa gradual evolução estilística, a nova longa-metragem do autor é quase que uma retrospetiva sumariante. Na continuação das pesquisas pelo passado Romeno, a protagonista de “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental” é uma professora de História. Contudo, quando primeiro a vislumbramos, o contexto é tudo menos académico e muito menos pedagógico. Num gesto que transborda de amor pelo choque lúrido, Jude dá início à fita através de um vídeo pornográfico amador, o registo privado de um casal que desfruta o prazer do corpo ao som de “Lili Marleen”. Nas imagens, Emilia, a dita professora, é filmada pelo marido durante as desventuras carnais dos dois. Nada é simulado e a câmara nada esconde.

Intertítulos vistosos indicam que a obra em exibição é um esboço para um filme popular dividido em três partes. Seria mais correto dizer que se estrutura em três partes, mais um prólogo home video e um epílogo tripartido. A seguir à pornografia acidental da abertura, Jude leva-nos para as ruas de Bucareste, seguindo os afazeres de Emilia, sua vida pública ao invés da privacidade sexual. Para um cineasta cujos filmes têm vindo a desenvolver um notado gosto pelo formalismo mais rígido, esta primeira parte de “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental” é tanto uma lembrança do passado realista de Jude, como uma lufada de ar fresco. Há peculiar liberdade no modo como o olhar se dispersa e difusa, tão interessado em mirar a professora como em se distrair com algum detalhe inano da capital romena.

Já o sexo mostrou um certo colidir entre o erotismo e a pura banalidade, incluindo detalhes como vozes do quarto ao lado ou os problemas em manter a ereção. Contudo, longe de servir só para trazer humor ou naturalidade ao filme, os vagueares da rua servem outra função. Acontece que este filme foi filmado e passa-se em plena pandemia, um paradigma onde o egoísmo, mesquinhez e extrema irresponsabilidade humana são postas a nu. Ao longo da plácida observação de Jude a Emilia, vamos encontrando inúmeros tableaux de queixumes rudes, pessoas frustradas que exteriorizam tensões internas através da agressão social. Além disso, numa história onde noções de obscenidade se tornam em tema central, é importante estabelecer a hipocrisia subjacente a tais distinções.

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Enquadrando anúncios publicitários e signos de passados ditatoriais, capitalismos da Disney em comunhão com fanatismos religiosos, Jude mostra-nos outro tipo de obscenidade que existe incólume e casual na vida do Romeno vulgar. A certa altura, até o olhar da câmara sugere como o ser humano está sempre predisposto a ignorar certas violências para manter o seu conforto. Ouvimos uma violenta luta entre cão e gato na banda-sonora, mas o ecrã somente nos mostra folhas secas que delicadamente balançam num ramo outonal. A serenidade não é mais que uma ilusão, pois a realidade é sempre feia e complicada. A beleza das flores que rompem o cimento só pode ser totalmente apreciada se ignorarmos o lixo e os manequins desmembrados que sujam a calçada.

Por entre estas portentosas observações, vamo-nos apercebendo de mais alguns acontecimentos narrativos. Acontece que o vídeo privado foi feito público sem o conhecimento ou aprovação da professora. Estudantes curiosos descobriram versões da filmagem, mesmo depois de estas serem retiradas do Pornhub, e seus pais agora exigem o despedimento da pedagoga. Ela tenta apelar à razão, mas confirma-se a necessidade de uma reunião de emergência, uma espécie de tribunal em que os encarregados de educação vão julgar a professora. Antes de chegarmos aí, contudo, Jude tem um segundo capítulo a apresentar, uma explosão Godardiana de ideias e imagéticas, conceitos definidos com humor e crítica subjacente.

Trata-se da passagem mais tremenda da fita e, só por si, poder-se-ia afirmar como um dos grandes filmes do ano. Graças a estas metamorfoses, uma coisa é certa – “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental” nunca dá tempo ao espetador para respirar, vacilar sua atenção ou sequer contemplar a ideia de aborrecimento. Já muitos críticos sublinharam a sublime meditação sobre o mito da Medusa e o cinema, pelo que gostaríamos de salientar outros pontos de interesse nesta montagem a meio do filme. Veja-se o quadro cómico sobre piadas de loiras que resvala para uma impiedosa crítica entre os elos da cristandade e os regimes fascistas do século XX, seu apoio passivo ao genocídio. Crianças são definidas como os prisioneiros políticos dos seus pais, mentes miúdas obrigadas a aprender hinos militaristas cujos legados ainda não compreendem.

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A eficácia, por seu lado, é ilustrada por imagens de uma tenda para serviços fúnebres que foi erguida ao lado das urgências de um hospital que batalha o COVID-19. O conceito de família acaba com a imagem de um menino com as costas pintadas em nódoas negras, estatísticas sobre violência de pais contra filhos. Uma passagem mais leve debruça-se sobre o tópico da cultura. Aí, vemos uma dupla andrógina em performance musical e, nas legendas, todo um diálogo se desenrola. É uma batalha, uma verdadeira troca de insultos, entre o cineasta e um hipotético espetador reacionário e homofóbico. Em suma, estes momentos são caracterizados pela desenfreada precipitação de ideias, uma coletânea de elementos díspares que, aqui reunidos, nos estabelecem uma visão disforme da modernidade, em geral, e da Roménia, em particular.

Não querendo cair em spoilers desnecessários, fica o apontamento que o terceiro capítulo se foca na reunião entre escola e pais. É aí que o realismo performativo dá lugar a um estilo mais exagerado, um teatro absurdo onde a indignação coletiva é a ordem do dia. Nesse aspeto, “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental” relembra o tribunal que Miguel Gomes orquestrou nas suas “Mil e Uma Noites”, se bem que o equilíbrio tonal é menos bem conseguido. Não obstante algumas reticências na aclamação, louvamos a cruel ironia, a raiva trocista de Jude contra as hipocrisias puritanas e os negacionismos históricos. Numa nação que todos os dias parece cair mais fundo nas águas turvas da extrema-direita, a desenfreada audácia de Jude ganha um teor particularmente forte, um valor que trespassa imensa bravura.

Didatismos aparte, “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental” parece-nos um justo campeão da Berlinale, assim como um texto essencial quando consideramos o cinema em tempos de pandemia. Quiçá na busca pelo entretenimento, a última parte caia no erro do maximalismo equivocado, mas isso não apaga as ideias subjacentes ao espetáculo de humilhação aqui encenado. Como o próprio filme admite, ponderar a História é um exercício na fomentação de desdém senão a queda numa visão sombria do mundo. Quem vê o mundo como é, vê seus horrores. Nesta obra, Jude consegue expor claridade de visão e fazer rir ao mesmo tempo, um feito que merece admiração. Raro é o objeto de cinema político que tanto choca como elucida, tanto ensina como entretém.

Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental, em análise
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Movie title: Babardeala cu bucluc sau porno balamuc

Date published: 26 de August de 2021

Director(s): Radu Jude

Actor(s): Katia Pascarlu, Claudia Ieremia, Olimpia Malai, Nicodim Ungureanu, Alexandru Potocean, Andi Vasluianu, Oana Maria Zaharia, Gabriel Spahiu

Genre: Comédia, Drama, 2021, 106 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Desde o home video aos créditos em Comic Sans, passando por uma Mulher-Maravilha que enfia um dildo na garganta do padre simbólico, “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental” é um dos filmes mais desavergonhados do ano. É também um trabalho denso em ideias e cheio de considerações políticas que traçam ligações sangrentas entre passado e presente. Por entre os laives de paródia, Radu Jude edifica aqui um forte argumento a favor do ensino da História, da necessidade do conhecimento e da perspetiva, do olhar para trás para se poder seguir em frente.

O MELHOR: O segundo capítulo e sua montagem Godardiana.

O PIOR: O simplismo caricaturado da terceira parte nem sempre funciona.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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