13º IndieLisboa: O Que Está Para Vir, em análise

 

A sessão de encerramento e entrega de prémios do 13º IndieLisboa realiza-se no amanhã 1 de Maio. A seguir estreia ‘O Que Está Para Vir’, da francesa Mia Hansen-Løve, com Isabelle Huppert, no papel de uma professora de filosofia que busca a felicidade depois da morte da mãe, da traição do marido e de um certo ocaso profissional.

O Que Está Para Vir

Na sua quinta longa-metragem intitulada O Que Está Para Vir a realizadora francesa Mia Hansen-Love, vencedora do prémio de Melhor Realização no último Festival de Berlim, afastou-se dos temas da juventude para explorar pela positiva as mudanças da meia-idade, através de um retrato de uma bela mulher que dá a volta à vida com uma certa ironia e maneira de pensar.

Vê trailer de O Que Está Para Vir

Depois do semi-musical Eden, a realizadora Mia Hansen-Love, desenhou agora em O Que Está Para Vir, um excelente momento da vida de uma mulher bonita e inteligente, que foge a sete pés à crise da meia-idade. Nathalie (Isabelle Huppert) é quase uma sexagenária, professora de filosofia de uma escola secundária de Paris. É uma mulher apaixonada pelo seu trabalho e gosta do prazer de pensar. Apesar de estar perto de se aposentar está mais activa do que nunca. Casada e com dois filhos já crescidos, divide seu tempo entre a família, os ex-alunos e uma velha mãe possessiva e hipocondríaca, que a chama a toda a hora. Um dia, o marido de Nathalie anuncia-lhe que a vai deixar por outra mulher e a mãe morre. Com a liberdade que lhe é imposta Nathalie acaba felizmente por reinventar a sua vida.

O Que Está Para Vir

Na verdade, não é muito frequente que um filme se torne tão interessante como O Que Está Para Vir, ​​ao procurar uma correspondência entre a ebulição de ideias na sociedade e a acção na esfera privada, através da psicologia de uma personagem que é impossível não simpatizar. Sempre que Nathalie estás prestes a chorar ou ir-se abaixo, eis que a realizadora de O Pai dos Meus Filhos, que gosta muito de jogar com os sentimentos, dá-lhe uma oportunidade de ultrapassar a sua dor, não deixando por isso de mostrar um certo sofrimento, em relação às situações porque passa. Nathalie (em mais uma interpretação portentosa de Huppert) é forte e faz da crise uma oportunidade, relacionando-se inclusive com as ideias da geração daqueles que foram seus alunos. 

O Que Está Para Vir

E neste aspecto é importante ver como para além do retrato desta notável mulher, O Que Está Para Vir, é uma espécie de debate filosófico entre a necessidade de teorizar a revolução e a urgência de a fazer. Algo que está sempre em movimento, aliás como o cabeça da activa e inteligente protagonista. O Que Está Para Vir é um filme muito interessante que gira também à volta das questões da felicidade e solidão no ocaso da vida, mas principalmente  é um filme sobre o valor relativo das coisas (e dos afectos!!), contra formas de vida mais ou menos estabelecidas e seguras: nada é definitivo, portanto é bom estarmos preparados para as mudança, que surgem a todo o momento. A personagem de Nathalie retrata muito bem também uma geração que está na casa dos 50, que por razões que lhe são totalmente alheias devido à mudanças nos paradigmas sociais (o desemprego ou as reformas compulsivas, por exemplo), procura novas alternativas para a vida, que só a madurez e sabedoria da idade, lhe pode dar. O Que Está Para Vir mostra também como a filosofia pode ser uma prática aplicada à nossa vida quotidiana.

O MELHOR: a personagem principal que graças à filosofia nunca deixa de ter um sentido para a vida.

O PIOR: as personagens dos alunos que discutem muito mas hesitam bastante em passar à acção.


O Que Está Para VirTítulo Original: L ‘avenir
Realizador: Mia Hansen-Love
Elenco: Isabelle Huppert, André Marcon 
Alambique | Drama | 2016 | 100 min

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JVM

 

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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