Playing Men

15º IndieLisboa | Playing Men, em análise

Em “Playing Men”, o cineasta esloveno Matjaž Ivanišin examina inúmeros jogos e competições tradicionais, traçando, ao mesmo tempo, um retrato absurdista das definições de masculinidade na cultura mediterrânea. Este modesto documentário está integrado na secção Silvestre do presente IndieLisboa.

O que é um homem? Não nos referimos a questões de biologia, mas sim de identidade sociocultural. Na nossa sociedade, o que é um homem? Essa parece ter sido a principal questão que o cineasta Matjaž Ivanišin, aquando da elaboração do seu mais recente documentário, “Playing Men”. Aliás, tão obcecado é o filme com questões de masculinidade e competição entre homens que nunca uma figura feminina passa em frente da câmara. As únicas referências que existem a mulheres são mesmo as letras de canções sobre conquistas românticas.

Certamente não existem mulheres na primeira cena do filme. Aí, a câmara de Ivanišin vagueia por uma paisagem de corpos masculinos oleados, rebolando-se na lama e lutando uns com os outros. Trata-se de uma tradição turca e as imagens capturadas são, de facto, impressionantes, quase que reduzindo os corpos masculinos a volumes de pele reluzente, quase abstratos. No entanto, uma consequência interessante do olhar distante, quase alienado e clínico do cineasta, é que a absurdez latente a este festim de agressão e testosterona acaba por ser exacerbada, assim como o homoerotismo de dois homens suados a enfiaram os braços nas calças um do outro.

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Esta exploração etnográfica de masculinidade mediterrânea não se fica por aqui durante muito tempo e depressa, a atenção de “Playing Men” se vira para outras competições tradicionais entre homens, outros rituais inócuos que confirmam a superioridade e valor do indivíduo, rituais que permitem a passagem social de rapaz a homem. Eles são, por exemplo, uma insana corrida de queijos rolantes em Itália e um jogo matemático jogado por adolescentes croatas numa explosão de gesticulação estilizada e gritaria estridente.

Ao longo destes capítulos, a abordagem formal do realizador vai variando ligeiramente. Se, na Turquia, tudo se desdobrava em tableaux imóveis de carne suada e pele bronzeada, em Itália a câmara prefere pintar pequenos quadros arquitetónicos por onde o queijo rebola. Na Croácia, pelo contrário, a câmara torna-se numa presença tão agressiva como os adolescentes gritantes, flutuando por entre eles como um predador, ora amedrontada ora violenta na sua aproximação curiosa. Na sequência italiana o realizador até rejeita o mecanismo observacional e conduz entrevistas a autoridades locais para explicar a bizarra tradição em volta dos queijos.

Esta variação formal e estrutural resulta numa refrescante dinâmica de constante experimentação, mas é quando o filme chega ao seu ponto médio que “Playing Men” realmente mostra quão disposto está a quebrar os cânones clássicos de um filme documental e coerente. De repente, Ivanišin aparece diante da sua câmara e admite confusão e derrota. Ele não sabe como haverá de continuar o seu filme, está perdido. Mesmo neste limbo, “Playing Men” continua incluindo até passagens onde o cineasta, repentinamente, nos mostra imagens em 16mm sem som, como se “Playing Men”, na procura por uma estrutura, se tivesse transfigurado num filme mudo contemporâneo.

Depois de toda a competição renhida que observámos, há algo quase transcendente na admissão de incapacidade do cineasta. Parece que todos os homens do filme se auto valorizam em ciclos de constate agressão performativa em que se têm de provar como os melhores. Distanciando-se do seu objeto de observação, o realizador parece autorretratar-se na figura de uma alternativa cabisbaixa a esse estereótipo, a esse papel atribuído por uma cultura em que definições de género se tornaram numa performance ossificada e cheia de códigos que só se tornam evidentes quando nos distanciamos deles.

playing men critica indielisboa
“(…)é mais um esboço que um filme finalizado(…)”

Aliás, é esse o grande triunfo de “Playing Men”. Mesmo quando ameaça tornar-se num documentário de dança e música nas ruas de uma localização incerta, numa entrevista sobre práticas sadomasoquistas ou quando se propõe a documentar a glória de um tenista croata, o filme é capaz de nos fazer olhar para o nosso mundo de uma nova perspetiva. Não há nada de muito estilizado na sua abordagem, mas quando a banalidade de tradições ancestrais é posta a nu em frente a uma câmara desafetada, o resultado é algo que parece pertencer a outro mundo. Até as conversas de homens embriagados em bares fumarentos parecem ser a realidade de outra dimensão mística com suas práticas tribais singulares.

“Playing Men” é mais um esboço que um filme finalizado, mas isso não impede a breve experiência, com somente uma hora de duração, de ser uma obra iluminante e destemida nas suas observações. Oscilando entre o etnográfico e o pessoal, Matjaž Ivanišin criou aqui um documento fascinante das dinâmicas sociais de uma série de países, delineando ao mesmo tempo os limites da máscara que faz de homens homens na cultura a que pertencem. É uma máscara artificial, que nada tem que ver com biologia ou realidade humana, mas sim com o mesmo tipo de surrealidade irracional que forma aquilo a que chamamos tradição.

 

Playing Men, em análise
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Movie title: Playing Men

Date published: 3 de May de 2018

Director(s): Matjaž Ivanišin

Genre: Documentário, 2017, 60 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO

“Playing Men” vira um espelho às culturas machistas em volta do Mediterrâneo e do Adriático, documentando as suas competições e jogos tradicionais de modo a neles desenterrar absurdas ideias de superioridade masculina. É também uma admitida experiência turbulenta de um realizador com a coragem de assumir o seu próprio fracasso diante da câmara.

O MELHOR: A fotografia, especialmente na primeira metade do filme, onde corpos oleados, queijos rolantes e frenesins adolescentes conferem uma dinâmica visual eletrizante ao simples exercício de “Playing Men”.

O PIOR: A natureza quase inacabada deste esquiço cinematográfico.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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