IndieLisboa | Thou Shalt Not Kill

16º IndieLisboa | Thou Shalt Not Kill, em análise

Thou Shalt Not Kill”, também conhecido como “Să nu ucizi”, é um drama romeno inspirado num grande escândalo sobre corrupção hospitalar que rebentou nesse país em 2017. A obra de Cătălin Rotaru e Gabi Virginia Șarga faz parte da Competição Internacional do IndieLisboa.

As mãos de um criminoso estão sempre à procura de água. Há que lavar as provas, o sangue, a pólvora, há que expurgar os pecados com sabão e vê-los ir cano abaixo. São mãos que anseiam estar limpas, mas nunca assim ficarão, jamais. Lady Macbeth assim o sabia, ela que andava, sonâmbula e enlouquecida, condenada a passar a eternidade a tentar livrar-se das marcas dos seus crimes, as manchas de sangue de um rei assassinado. No cinema, este motivo simbólico está sempre a ser usado, especialmente por realizadores interessados no mundo dos thrillers e do suspense. Não há melhor forma de dar tensão à narrativa e complexidade ao criminoso que uma consciência em crise e necessidade de expiação aquosa.

Em “Psico”, Hitchcock usou a sua obsessão com casas-de-banho para encontrar variadas permutações deste mecanismo metafórico. É na água sanitária que se tenta esconder o dinheiro, é na água que a criminosa se tenta lavar e acaba por ser vítima de um hediondo homicídio, é na água que as provas da sua presença encontram o seu túmulo final. Muito Janet Leigh se tenta lavar dos pecados que lhe atormentam a alma, mas, no fim, só seu sangue é que realmente se perde com a água. 58 anos depois desse clássico do suspense e do terror, é na água que um cirurgião pediátrico romeno tenta também encontrar algo que o absolva do mal, do crime, do assassínio por negligência e corrupção. Felizmente, ou não, neste caso o pobre homem não acaba por ser morto no duche por um hoteleiro vestido como a mãe.

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Não há maneira de lavar os pecados com água e sabão.

Os cineastas Cătălin Rotaru e Gabi Virginia Șarga abrem a sua primeira longa-metragem com este tipo de imagem e é com ela que também dão por encerrado o filme. “Thou Shalt Not Kill” é um projeto particularmente predisposto a conter variadas variações simbólicas do ato de lavar as mãos pois tanto é uma história de crime, como um conto de tentação espiritual e, acima de tudo, um thriller de investigação ao bom estilo do realismo do Novo Cinema Romeno. Como ponto de partida para tal exercício, a parelha de realizadores inspirou-se num escândalo bem mediático que assolou a Roménia em 2017. Aparentemente, vários hospitais públicos andavam a diluir os biocidas presentes no sabão usado na preparação de cirurgias, resultando na morte por infeção de vários pacientes.

Cristian, o cirurgião pediátrico acima referido, é um dos médicos que inadvertidamente matou alguém devido a este esquema para cortar despesa. Ao contrário de muitos outros, contudo, ele não fica calado e não consegue ignorar o seu papel na morte de um inocente. Os pais do menino de três anos que perdeu a vida às mãos do cirurgião certamente não o deixam esquecer-se destes pecados, sendo que ele é apanhado na rua, fora do hospital, e repetidamente pontapeado pelo patriarca em lágrimas. A violência é hedionda, uma violação chocante da calma observacional do filme, mas sua manifestação é sempre mais tolerável que a apatia que se verifica dentro do hospital, onde uma política de silêncio e conformismo tudo domina.

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Convém dizer que, longe de ser uma figura justiceira imbuída de heroísmo e glória, Cristian é um homem arrogante, mal-encarado, cruel e desdenhoso. Em filmes como “Os Homens do Presidente”, “O Caso Spotlight” e “Reação em Cadeia”, é fácil torcer pelo sucesso dos protagonistas e encará-los como figuras de valor e indisputado mérito. Pelo menos, em casos mais moralmente complicados, costuma sempre haver uma nota de carisma que facilita a ligação emocional do espectador para com aquele que procura a verdade. Num gesto simples, mas fortemente subversivo, os realizadores de “Thou Shalt Not Kill” contrariam essas dinâmicas e fazem tudo para construir uma barreira entre o coração do espectador e o seu “herói”.

Apesar de seguir uma abordagem naturalista, Alexandru Suciu muito faz para realçar a qualidade abrasiva da sua personagem. Nas suas mãos, Cristian fala quase em staccato, com os ritmos credíveis, mas irritantes de alguém que pontua o fim de cada frase com um ponto final verbal tão potente que quase o conseguimos ver. Ele é brusco, seu discurso é rude e num estado de constante confrontação, com ritmos estranhos. Além disso, a expressão está quase sempre fechada ou carrancuda. Só em muitos breves instantes, nomeadamente quando está na companhia da namorada, é que o ator permite que alguma modulação tonal se manifeste na interpretação. Estas escolhas podem indicar uma prestação medíocre, mas seria ingénuo e erróneo caracterizar as limitações do trabalho de Suciu como um acidente ou algo incoerente com o resto do filme.

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A tentação no pomar.

Tal como o seu ator principal, “Thou Shalt Not Kill” é um filme que trespassa inteligência, mas é frio e distante. O tema e o uso de mecanismos do thriller adaptados aos planos sequência e realismo estético do Novo Cinema Romeno galvanizam o espectador, mas os cineastas parecem quase estar a propor um desafio. Sem facilitismos emocionais, será que a audiência consegue dialogar e interessar-se nesta história de monstruosa corrupção? O heroísmo clássico é sustentável num modelo de realismo social? Será que Cristian vai conseguir lutar até ao fim, ou a exaustão do constante fracasso o vai levar abaixo? Será que, independentemente das suas escolhas aquando do fim do filme, este cirurgião é boa pessoa? É possível lutar por uma causa justa e, mesmo assim, ser um homem vil e irredimível?

Além destas questões e mecanismos, Rotaru e Sarga ainda trazem ao filme uma pátina de referências bíblicas que conferem à narrativa a aparência de uma odisseia pela redenção de uma alma perdida. Há gestos óbvios como o título, mas há outros mais subtis, como o uso de um pomar como cenário para a derradeira prova de tentação. Aí, a estrutura do filme que está recorrentemente a sugerir uma conclusão catártica e sempre a nega, chega à apoteose. A autoridade quase divina fala com a pequenez do homem e dá-lhe a oportunidade de descansar. O descanso, contudo, é o conformismo assassino, a catarse continua a ser negada e “Thou Shalt Not Kill” assume-se como um conto de desespero quase niilista, um retrato de um mundo podre e doente. É cinema impiedoso e lacerante.

Thou Shalt Not Kill, em análise
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Movie title: Să nu ucizi

Date published: 2019-05-10

Director(s): Cătălin Rotaru, Gabi Virginia Șarga

Actor(s): Alexandru Suciu, Cristina Flutur, Iulia Verdes

Genre: Drama, 2018, 115 min

  • Cláudio Alves - 72
72

CONCLUSÃO:

“Thou Shalt Not Kill” é um drama de investigação com um protagonista pouco ortodoxo e uma estrutura deliberadamente repetitiva. Aqui temos o realismo do Novo Cinema Romeno em máximo pessimismo e sem pitada de humor.

O MELHOR: A cena final, com a última lavagem, é um toque de génio e tanto os realizadores como ator sintetizam assim o conflito do filme num só gesto.

O PIOR: Há uma repetição de fracasso e obstáculo atrás de obstáculo na procura por verdade que caracteriza o filme. Esta estrutura é totalmente justificada pelas especificidades da história e do guião, mas, ao longo de quase duas horas, a experiência geral começa a tornar-se um tanto ou quanto cansativa e entediante.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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