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16º IndieLisboa | Verão, em análise

Verão”, também conhecido como “Leto”, é uma proposta musical russa sobre o rock’n’roll dos anos 80 em plena União Soviética. Este foi um título que competiu no Festival de Cannes do ano passado e agora integra a secção IndieMusic do 16º IndieLisboa.

O ano passado, dois dos filmes na Competição Oficial de Cannes chegaram à Croisette sem o seu realizador. Ambos os cineastas tinham sido retidos nos seus países como prisioneiros, castigados pelo comportamento subversivo face a governos autocráticos. Curiosamente, os dois filmes em questão foram selecionados para o IndieLisboa e fazem assim a sua esperada estreia em Portugal, também sem a companhia dos homens que os realizaram. O primeiro destes títulos a ser exibido foi “Verão” de Kirill Serebrennikov, assim inserido na seleção de filmes sobre o mundo da música que todos os anos chegam a Lisboa pela mão do Indie. Neste caso, o universo musical retratado no filme é um que dificilmente será conhecido pela maior parte das audiências portuguesas.

Referimo-nos à cena do rock‘n’roll na União Soviética dos anos 80, onde artistas rebeldes celebravam a cultura daqueles que eram considerados inimigos do estado e cultura da sua pátria. A pop britânica, o glam rock, David Bowie, rock americano, Iggy Pop, a new wave e o punk, os Talking Heads e muito mais são fontes de inspiração e glória rebelde. Seus discos e merchandising são vendidos, por vezes ilicitamente, e o gosto por tais músicas constrói laços sociais fortes entre jovens em revolta contra a opressão soviética. É em Leningrado que encontramos um grupo unido por esse tipo de ligação de gostos partilhados e atitude subversiva, tentam construir um panorama musical para si mesmos dentro do país que tanto amam como odeiam, que tanto são obrigados a glorificar publicamente como rejeitam em privado.

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Juventude em revolta musical.

Serebrennikov, que foi buscar inspiração à sua juventude, reconstrói o passado russo com uma impressionante atenção ao detalhe. A cenografia de Andrey Ponkratov valeu a “Verão” um European Film Award, é um milagre de imersão num passado não muito distante, cheio de texturas surpreendentes e toques de estilização que elevam o design acima de uma simples recriação arqueológica. Os figurinos e a maquilhagem seguem a mesma linha e são igualmente bem-sucedidos, enquanto a música, também ela premiada internacionalmente, mistura composições antigas com novos trabalhos de Roma Zver e German Osipov que capturam perfeitamente a sonoridade da época. “Verão” parece mesmo um filme feito por quem viveu a realidade que agora é aqui saudado no grande ecrã.

Apesar disso, convém esclarecer que esta não é uma autobiografia pela parte de Kirill Serebrennikov. O realizador baseou-se nas memórias de Natalya Naumenko, mas inventou muito do enredo dramático, contando assim a história de um triângulo amoroso entre esta mulher, Mike, seu marido e vocalista da banda Zoopark, e Victor Tsoi, uma estrela rock russa que fundou e liderou os Kino. Através da estrutura possibilitada por tal drama amoroso, o filme aborda uma série de temas derivados dos ideais e aspirações de uma geração. “Verão” fala de amor e opressão artística, mas também é um retrato de amizade e respeito entre músicos, compõe uma canção que homenageia e chora um tipo de rebeldia que floresce no seio de regimes abertamente ditatoriais, mas tende a murchar quando a injustiça é mais subtil.

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Pela sua parte, o cineasta assina aqui um exercício admiravelmente despretensioso, sendo que nem sequer sugere que o que o espectador está a ver é verdade. De facto, em vários momentos, uma figura que quase poderíamos caracterizar como um narrador omnipresente, vira-se para a câmara e ostenta um sinal grosseiramente escrito que afirma que “Isto Não Aconteceu”. As letras em vermelho rubro, vibram no meio da imagem monocromática de “Verão”, que só muito raramente permite que alguma cor entre na sua cuidada construção visual. Até quando Serebrennikov resvala em devaneios estilísticos mais ou menos extremos, há uma imensa disciplina em todas as suas escolhas, especialmente naquelas que se referem à cor.

Tais devaneios ganham sua máxima expressão nas cenas em que “Verão” se torna num musical assumido, despindo a máscara de realismo e diegese. Num comboio, depois de uma agressão por parte de um cidadão escandalizado pelo ocidentalismo da juventude, canta-se “Psycho Killer” e o ecrã explode com desenhos e gráficos à la MTV dos anos 80. Num autocarro de Leningrado, a população canta “The Passenger” e as letras aparecem escritas no ecrã. À chuva, uma mulher desgostosa e um músico carrancudo protagonizam um videoclip de “Perfect Day”, completado com chuva desenhada em cima da imagem e rabiscos vermelhos a darem cor ao vestido da cantora.

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“Isto Não Aconteceu”, um gesto quase Brechtiano.

São momentos de júbilo, cheios de energia e criatividade, explosões de entretenimento quase cómico que contrariam a melancolia da obra e oferecem ao espectador necessárias variações tonais. Infelizmente, nem todos os mecanismos estilísticos beneficiam o filme. A qualidade disciplinada, estudada e cuidada do formalismo aqui manifesto é admirável, mas tende a privilegiar o espetáculo ao estudo de personagem mais solene. Tal dinâmica não é necessariamente negativa, mas rouba alguma da ressonância emocional à história que centraliza a pesquisa nostálgica de “Verão”. O próprio título do filme remete para a efemeridade de algo que se perdeu, referindo-se tanto à cena musical como às dinâmicas humanas do argumento. Pelo menos, assim parece ser aquilo proposto pela narrativa, apesar de o realizador claramente dar mais atenção à música que àqueles que a cantam.

Não querendo ser totalmente injustos para com este admirável trabalho, há que admitir que, em certas passagens, a sinergia entre pesquisa musical, história humana e estilização cinematográfica resultam em instantes sublimes. Assim é quando dois rivais amorosos, que também são amigos e artistas que se respeitam, partilham o palco e complementam o trabalho um do outro. Assim é quando, num plano coreografado como um ballet do coração despedaçado, “Verão” nos ilustra o abandono de um amante e o retorno a uma domesticidade que, de repente, parece ter algo em falta. Assim é quando um breve olhar para uma cadeira vazia nos conta toda uma história de artistas oprimidos e amigos perdidos. “Verão” é um filme pelo qual é fácil sentir paixão, ele encanta-nos com sua forma e conquista-nos com a melancolia e com a música. Poderia ser melhor, admitimos, mas é difícil negar a sua qualidade.

Verão, em análise

Movie title: Leto

Date published: 2019-05-10

Director(s): Kirill Serebrennikov

Actor(s): Teo Yoo, Irina Starshenbaum, Roman Bilyk, Anton Adasinsky, Liya Akhedzhakova, Yuliya Aug, Filipp Avdeev, Aleksandr Bashirov, Nikita Efremov

Genre: Drama, Musical, Biografia, História, 2018, 126 min

  • Cláudio Alves - 80
  • José Vieira Mendes - 80
80

CONCLUSÃO:

“Verão” é uma calorosa e melancólica celebração do rock’n’roll soviético dos anos 80. Uma sofisticada abordagem formal eleva o filme acima de cinebiografias musicais mais convencionais, mas isso nem sempre beneficia o seu impacto sentimental.

O MELHOR: Os momentos musicais que parecem piscar o olho aos videoclips que, graças à MTV, tomaram de assalto o panorama musical dos anos 80.

O PIOR: A distância a que Serebrennikov se mantém das personagens nem sempre beneficia o filme. É certo que os elementos formais são gloriosos, mas a estilização ostentosa por vezes rouba alguma da ressonância emocional da narrativa.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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