JUDAICA ’17 | Indignação, em análise

Indignação, realizado por James Schamus e adaptado do livro de Philip Roth, é um dos filmes mais intelectualmente ricos e estimulantes da JUDAICA ’17, mas o seu valor enquanto obra cinematográfica é altamente discutível.

judaica philip roth indignação

A adaptação cinematográfica de uma obra pré-existente noutro meio de expressão é sempre uma proposta arriscada e complicada, especialmente quando se trata de literatura. Há quem defenda que o caminho a seguir é um onde se privilegia a qualidade artística da experiência cinematográfica considerada separadamente da sua origem literária. Outros, exigem que uma adaptação seja uma transladação fiel da obra literária para o cinema, mesmo que isso resulte num filme cinematograficamente pueril. Há ainda a opção mais comum e que, todos os anos, preenche a Awards Season com inúmeros exemplos de desinspirada mediocridade. Referimo-nos aos projetos que tentam capturar a essência objetiva da ação da obra original, mesmo que não a sua estrutura ou ideias subjacentes, e depois a filtram através de convenções cinematográficas. Fáceis de digerir para uma audiência geral. Isto nem sempre resulta em maus filmes mas também não costuma revelar nenhuma obra-prima.

Estas questões de abordagem adaptativa intensificam-se quando o escritor cujo trabalho está a ser adaptado é alguém com um estilo tão intrinsecamente literário como Philip Roth. É certo que Roth se tem revelado como um dos grandes documentadores da identidade americana do pós-guerra, especialmente no que diz respeito às comunidades judaico americanas. Com um grande ênfase no uso de elementos autobiográficos, as obras deste escritor tendem a posicionar a sua ação narrativa no panorama da mente humana e sua autorreflexão, onde infindáveis monólogos internos se debatem com questões que vão desde os dilemas mais prosaicos e corriqueiros até às considerações existenciais mais cósmicas. Sexo, morte, vida, identidade são conceitos dissecados com rasgos de ironia cruel e um sentido de humor muito típico da obra de Roth. Por tudo isto, o cinema tem sido muito reticente na sua abordagem a Roth e, ao contrário de muitos outros autores americanos de peso, os seus livros são raramente adaptados ao cinema. Das poucas adaptações que se fizeram, poderíamos mesmo afirmar que somente Elegia de Isabel Coixet conseguiu encontrar o equilíbrio entre a boa abordagem cinematográfica e a decente adaptação literária.

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Consideremos agora Indignação, um dos trabalhos deste modernista que foi originalmente publicada em 2008 e foi parcialmente inspirado na experiência do próprio autor aquando dos seus estudos universitários na América dos anos 50. O protagonista da narrativa é Marcus Messner, o filho de um talhante kosher de Nova Jérsia que, ao invés de ser enviado para combater na Guerra da Coreia como muitos dos jovens da sua idade, vai estudar para uma Faculdade prestigiada. Apesar de ser intelectualmente sofisticado, Marcus é imaturo e ingénuo no que diz respeito a questões sociais e sexuais o que acaba por afetar a sua vida universitária. Primeiro, temos a sua relação tempestuosa com os colegas de quarto, depois a sua relação amorosa com Olivia, uma rapariga muito mais sexualmente progressiva que a sociedade onde habita, e, finalmente, temos o seu conflito com a própria instituição educativa e o seu regime fundamentado na doutrina cristã evangélica.

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Na sua estreia como realizador de uma longa-metragem, James Schamus tenta trazer esta obra até ao grande ecrã. A sua abordagem reflete muito do seu historial passado enquanto um dos melhores produtores de cinema de prestígio americano, ao sugerir uma austeridade solene e respeitosa. Por um lado isto funciona de modo elegante, sendo que Indignação é o tipo de filme que seria descrito como literário independentemente da sua origem, mas, por outro, isto implica uma adulteração selvática das ideias de Roth não em prol de nenhum tipo de grandiosidade cinematográfica, mas sim de uma apresentação entediante na sua falta de risco. Indignação, lembramos, é uma obra que não carece de transgressão e mesmo o seu retrato principal é complicado pelo ateísmo de Marcus que tanto se revolta contra a opressão protestante como se debate com a consumptiva auto segregação judaica. Considerando ainda outros exemplos, poderíamos mesmo acusar de Schamus de ter castrado o livro de Roth, omitindo precisamente as suas ideias e mecanismos mais obstinadas, interessantes e difíceis.

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Veja-se, por exemplo, o uso da voz-off para introduzir passagens diretas do livro para o cinema. Este é o tipo de mecanismo mais convencional imaginável para uma adaptação literária e tem o efeito de sublinhar a condição inteiramente subjetiva da ação, sempre presa à perspetiva de Marcus. Só que Schamus apenas se lembra de usar a voz-off em momentos expositivos e, para além do mais, trai a própria perspetiva sugerida por ela, ao emoldurar a ação do filme com imagens de Olivia, já envelhecida, a recordar a vida do seu antigo amante, cuja história e íntima interioridade ela nunca poderia ter racionalmente percecionado. Isto é ainda mais problemático quando consideramos quão Olivia é um abstrato dentro da ação principal dos anos 50. Se a perspetiva egoisticamente míope de Marcus poderia justificar tal indefinição, o posicionamento desta apresentação dramática na construção mental da própria Olivia conjura uma profunda incoerência tonal e concetual que, voltamos a sublinhar, não existe no livro de Roth.

Pior ainda é o modo como Schamus recorre à simétrica convenção estrutural ABCBA. Em Indignação “A” é a moldura narrativa de Olivia envelhecida, “C” é a ação principal de Marcus na faculdade e “B” retrata Marcus moribundo, na Guerra da Coreia, a refletir sobre a sua vida passada. No livro, Roth começa a sugerir a meio da obra que o seu narrador, que também é o protagonista, pode estar já morto. Efetivamente, o autor usa esse mecanismo como forma de sugerir uma cruel, bizarra e irónica visão judaica da vida depois da morte cuja mera existência é uma punhalada nas crenças juvenis de Marcus. Para além do mais, Roth mostra-nos como o intelecto do seu herói se converte no seu purgatório, pelo modo como, mesmo depois de morrer, Marcus está preso a uma contínua espiral de autorreflexão crítica. Sendo assim, Schamus torna este pânico existencial, que nasce organicamente do próprio discurso argumentativo de Marcus, numa convenção de Hollywood que privilegia a lacrimosa tragédia romântica da narrativa em detrimento das suas facetas mais desafiadoras e importantes.

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Textualmente, não estamos perante nem uma tradução fiel do livro de Roth, nem de uma análise crítica do mesmo, nem de uma visão artística independente da obra literária. Em termos formais, se possível, a situação é ainda mais exasperante. Segundo Schamus, a maneira de traduzir cinematicamente a perspetiva subjetiva de um jovem a borbulhar com indignação fogosa e uma riqueza intelectual espantosa é uma abordagem formal seca, austera, praticamente embalsamada pelas suas próprias pretensões de respeitabilidade e importância. Os cenários severos e os figurinos elegantes podem sugerir um passado histórico requintado, mas a sua filtragem pela fumarenta e severa fotografia de  Christopher Blauvelt dá uma atmosfera funérea mesmo aos momentos mais descaradamente carnais do filme.

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Mesmo assim, nem tudo é medíocre em Indignação e, de qualquer forma, mesmo o cadáver mais mutilado e profanado de um livro de Roth consegue ser mais intelectualmente estimulante que a maioria dos filmes nos nossos cinemas. Em termos positivos temos a montagem das cenas de diálogo, cujos ritmos estudados são de uma eficiência de impressionante classicismo.  Para além disso, o elenco é estupendo, contando com a abstração sedutora e frágil de Sarah Gadon como Olivia, a astúcia implacável que Linda Emond exsude enquanto mãe do protagonista e, é claro, a perfeição que são Logan Lerman como Marcus e Tracy Letts como o seu antagónico reitor universitário. Na mais famosa cena do filme, testemunhamos uma conversa entre estes dois últimos atores que dura mais de quinze minutos e passa de um inócuo inquérito passivo agressivo a um autêntico duelo intelectual, capaz de deixar mesmo o mais sonolento dos espetadores num estado de fúria eletrizante. Oxalá o resto de Indignação conseguisse despertar tais reações do seu público ou evidenciar este tipo de eficiência cinematográfica e espetacularidade concetual.

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O MELHOR: O modo como esta versão diluída de Philip Roth poderá levar muitos espetadores a procurarem os prazeres da sua vasta obra literária.

O PIOR: O modo como Schamus despe Indignação da sua natureza transgressiva e intelectualmente complexa sem oferecer nada de equivalentemente valioso ao seu público.



Título Original:
Indignation
Realizador:
James Schamus
Elenco:
 Logan Lerman, Sarah Gadon, Tracy Letts, Linda Emond, Danny Burstein, Ben Rosenfield
Drama, Romance | 2016 | 110 min

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CA

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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