Jackie, em análise

Através de um retrato pouco ortodoxo, Pablo Larraín e Natalie Portman constroem em Jackie um fascinante estudo sobre a viúva de John F. Kennedy.

jackie pablo larraín natalie portman

O docudrama biográfico é um dos subgéneros cinematográficos que atualmente está mais calcificado em códigos e fórmulas. Todos os anos, chegado o píncaro da Awards Season, lá começam a ser distribuídas nos cinemas uma miríade infindável de obras de prestígio sobre episódios importantes da História, sobre pessoas icónicas, sobre grandes feitos que ainda nos inspiram nos dias de hoje. Sedentos de homenzinhos doirados, estes filmes são, na sua maioria, poços de mediocridade cinemática, ocasionalmente redimida por uma ou duas grandes prestações miméticas. Ou seja, quem viu um destes filmes, viu-os a todos. Tudo isto para dizer que, de vez em quando, aparece-nos pela frente um projeto biográfico que circum-navega todos estes buracos negros de mediocridade e faz algo realmente ousado com a História – Jackie é um bom exemplo.

Talvez seja a distância cultural entre o realizador chileno Pablo Larraín e o material histórico, mas, independentemente das razões, o resultado mantém-se – Jackie é uma obra incrivelmente idiossincrática no panorama do cinema biográfico. Em primeiro lugar, este retrato de Jackie Kennedy, rejeita a estruturação da narrativa entre o nascimento e morte da sua protagonista. Foca-se, pelo contrário, numa só semana, quando ela passou de Primeira-dama dos EUA a uma viúva a tentar furiosamente criar um legado histórico para o seu marido. Essa preocupação com a construção da imagem icónica, dessa lenda que trespassa os livros de História e se enraíza na mentalidade coletiva é o outro grande trunfo temático de Jackie. Aqui estamos perante um retrato do período mais traumático na vida de uma mulher que assistiu ao assassinato do marido, mas, em simultâneo, Larraín propõe-nos uma apreciação crítica, mais apurada para as complexidades da psicologia humana e para o processo feio e manipulador inerente à curadoria da imagem pública e à maneira como a História é construída.

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Dois impulsos díspares, o analítico, frio e distante em colisão com o visceralmente emocional, fazem de Jackie um filme quase inédito no cânone americano. É uma espécie de retrato cubista de uma figura histórica, uma desconstrução do ser humano que estilhaça qualquer convenção biográfica em prol de uma coleção de ideias sobre Jacqueline Kennedy. Vemos, por um lado, uma veterana do teatro político a considerar cada uma das suas reações e gestos, pois está ciente do seu impacto. Temos uma arquiteta da História a construir o edifício da lenda do seu marido, o “Rei Artur” de uma Camelot perdida. Temos a viúva enfurecida a gritar contra o mundo e a sofrer uma crise de fé. Temos a celebridade cuja intimidade é propriedade pública. Temos a perfeita senhora da alta sociedade americana com todas as suas manientas afetações, uma performance social cuidadosamente calibrada. E temos, pois claro, essa mulher traumatizada, em estado de choque e consumida pela dor.

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Tal tom emocional não é apresentado com nenhum tipo de sacarina respeitabilidade à la Hollywood, mas sim com uma obstinação operática que quase catapulta o filme para o patamar do cinema de terror. Até o faustoso funeral de Kennedy, cuja preparação consome muita da narrativa, é um espetáculo em monumentalidade que, ao invés de nos inspirar, nos parece sempre algo levemente ameaçador. A banda-sonora de Mica Levi contribui muito para isto, usando motivos repetidos e um reverberante excesso de cordas para sugerir uma psique em permanente desassossego. A mais inócua situação, como a saída de um avião, torna-se assim numa tormenta pessoal, com a câmara a imitar a música através de uma panóplia de ângulos desconfortáveis, ora demasiado perto ou demasiado longe das figuras humanas. A realidade histórica e sua materialidade podem estar recriadas em figurinos e cenários primorosos, mas a sua apresentação contorna a realidade objetiva para chegar ao pesadelo subjetivo.

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Estas ideias e formalidade presas no limbo entre o solene e o histérico, podem sugerir um filme esquizofrénico, uma salganhada de conceitos mal ajustadas, mas o contrário acontece. Aqui, temos de elogiar com convicção, o genial trabalho de Noah Oppenheim e Sebastián Sepúlveda, respetivamente o argumentista e editor do projeto. No guião, as contradições concetuais e tonais não são um erro, mas sim uma deliberada incoerência, uma faceta intrínseca à exploração de Jackie . Na sua própria estrutura o argumento insiste em algo fragmentado e arrítmico. Afinal, o filme vai continuamente saltando entre Jackie a ser entrevistada por um repórter da revista LIFE sete dias após o assassinato, as suas memórias do evento traumático, seu recordar dos dias seguintes à morte do marido, fragmentos lembrados da sua vida na Casa Branca, uma posterior conversa com um padre católico (o falecido John Hurt) e a célebre visita guiada à Casa Branca que foi transmitida em direto nos EUA em 1962.

Sepúlveda, por seu lado, edita o filme como um documentário, preferindo salientar relações de ideias na construção de argumentos e teses, ao invés de uma narrativa fluida. A própria entrevista, onde Oppenheim aproveita para apimentar o guião com algum do diálogo mais acídico do ano, é montada sem preocupações de continuidade cronológica. Não se equivoquem, longe de desleixado, este é um jogo estrutural de imenso risco, que posiciona o filme numa interminável corda bamba tonal. Felizmente, ninguém se desequilibra. Melhor dizendo, mesmo quem se desequilibra, vê os seus desequilíbrios tornarem-se uma parte essencial do jogo concetual.

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Admitimos que tal afirmação é um pouco confusa, mas permitam-nos propor como exemplo a prestação de Natalie Portman no papel titular. A atriz nunca foi grande adepta de estilos naturalistas, posicionando a maior parte dos seus melhores desempenhos num registo de estridência emocional. Aqui verificamos isso, sem dúvida, com a mágoa da personagem a vibrar do ecrã com uma intensidade negadora de quaisquer noções de subtileza. No entanto, tal faceta é sempre complementada por todo o jogo performativo implícito a uma recriação de Jackie Kennedy. Portman nunca abandona as afetações excessivas que a própria Jackie exibia, tornando até a sua forma de andar numa marca de caracterização, enfatizando quão estudada é a pose da Primeira-dama e sua gestualidade. Nenhuma dessa imitação mimética nos aparece sem sinais de esforço, muito pelo contrário, mas o efeito é o mesmo de um quadro pós-impressionista de Van Gogh, onde a grossura das pinceladas e sua incontornável rudeza são essenciais para o efeito geral pretendido.

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Portman, assim como todo o edifício cinematográfico de Jackie, não estão a retratar Jackie, a pessoa que viveu e sofreu sob o olhar do povo americano durante uma tragédia nacional, mas sim “Jackie”, a ideia, a lenda, a personagem trágica e o ícone nascido da imagem dessa mesma mulher. A fricção entre a atriz e o papel torna-se assim a cola que mantém unido o puzzle ideológico do filme assim como a máxima expressão desse mesmo puzzle. Não há melhor momento que ilustre isso do que o aterrador relato que Jackie faz da morte do seu marido. Em close-up apertado, Portman desmancha-se em sôfregas lágrimas e a sua instabilidade emocional é quase grotesca. Chegado ao fim do relato, ela muda de registo, adotando uma postura rígida e fria que sublinha como o repórter nunca poderá usar esse relato, efetivamente tornando o seu luto pessoal numa arma de subjugação do escritor à sua vontade. Há pouco de orgânico na reviravolta tonal da cena e do desempenho de Portman, mas é difícil negar a sua espetacularidade, o seu impacto ou clara densidade intelectual. Ao chamar atenção para a atriz por detrás da personagem, Larraín e Portman criam uma performance sobre performance, um retrato deliberadamente imperfeito que nos pede para olharmos para as suas falhas, para as suas pinceladas, e lá encontrarmos algo que transcende a simples recitação passiva de factos históricos.

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O MELHOR: A titânica performance de Natalie Portman, cujas particulares afetações estilísticas jamais foram tão bem aproveitadas por um realizador.

O PIOR: A rapidez com que os sonhos de glória no Dolby Theatre se extinguiram. Enfim, ao menos Jackie arrecadou três merecidas nomeações para os Óscares, pela sua atriz principal, figurinos e música.



Título Original:
 Jackie
Realizador: Pablo Larraín
Elenco:
 Natalie Portman, Billy Crudup, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, John Hurt

NOS | Drama, Biografia | 2016 | 100 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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