Jane Austen | As adaptações cinematográficas

 

Apesar de algumas recentes adaptações estarem a subverter as origens literárias da obra de Jane Austen, há que valorizar as mais ortodoxas versões de romances tão belos como Orgulho e Preconceito e Emma, entre outos, que agraciaram o cinema desde os anos 40.

 

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Tal como na televisão, a primeira obra de Jane Austen a ser adaptada ao cinema foi a sua célebre Orgulho e Preconceito. Essa primeira versão cinematográfica da história de amor entre a preconceituosa Elizabeth Bennett e o orgulhoso e aristocrático Mr. Darcy foi protagonizada por duas das maiores estrelas de 1940, Greer Garson e Laurence Olivier. Apesar de seguir de modo relativamente tradicional, a narrativa original, várias mudanças foram feitas para tornar o livro de Austen num romance ao estilo convencional da Hollywood da época, com algumas das escolhas estilísticas a serem de particular estranheza, como a transposição da localização histórica para a década de 30 do século XIX, resultando em exagerados figurinos bem distintos da simplicidade das silhuetas com cintura à Império contemporâneas à original publicação do livro.

Orgulho Preconceito Jane Austen
Orgulho e Preconceito (1940)

 

Como foi referido na página anterior, as obras de Jane Austen foram várias vezes adaptadas ao pequeno ecrã, sendo que, durante muitas décadas, a presença de Austen no cinema foi mais sentida na utilização de mecanismos narrativos popularizados pela autora do que em qualquer tipo de direta adaptação de um dos seus livros. Em 1995, em conjunto com algumas das mais famosas versões televisivas da literatura de Austen, o mundo do cinema teve direito a mais uma adaptação de Sensibilidade e Bom Senso.

Sensibilidade Bom Senso Jane Austen
Sensibilidade e Bom Senso (1995)

 

Esse filme, curiosamente realizado pelo mestre do cinema taiwanês Ang Lee, valeu a Emma Thompson um Óscar para Melhor Argumento Adaptado, assim como uma panóplia de outros prémios, incluindo um Globo de Ouro que Thompson aceitou com um dos mais hilariantes discursos da história da Awards Season. Na sua adaptação, Emma Thompson, que também protagonizou o filme, pouco utilizou o diálogo de Austen, criando também novas personagens e grandemente alterando a estrutura de algumas partes do romance. No entanto, apesar de todas estas mudanças, este Sensibilidade e Bom Senso continua a ser uma das melhores adaptações do trabalho da escritora inglesa, com o seu humor, complexidade satírica e atmosfera característica a serem cuidadosamente traduzidos numa linguagem cinematográfica que nunca se deixa cair em perniciosos momentos de displicência tão comum neste tipo de cinema de prestígio. Para além de Thompson, o filme contou com o elenco de luxo onde atores como Kate Winslet, Alan Rickman, Hugh Grant, Hugh Laurie e Imelda Staunton criaram algumas das melhores criações das suas filmografias.

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Depois de 1995, pareceu que a obra de Jane Austen ganhou uma nova e intensa popularidade, com outras adaptações a se seguirem como o Emma de 1996, em que o papel titular foi estranhamente interpretado pela americana Gwyneth Paltrow, e Mansfield Park de 1999.

Orgulho Preconceito Jane Austen Keira Knightley
Orgulho e Preconceito (2005)

 

Em 2005, 65 anos depois da sua primeira adaptação cinematográfica, Orgulho e Preconceito regressou aos cinemas mundiais com a versão protagonizada por Keira Knightley, que arrecadou a sua primeira nomeação aos Óscares pela sua prestação. Este filme marcou a estreia do realizador Joe Wright no cinema e foi precisamente a sua energia que marcou a diferença, tornando esta versão numa alternativa mais jovem, fogosa e notoriamente contemporânea deste romance com mais de duzentos anos. Não caindo em desnecessários anacronismos, Wright, o seu elenco e formidável equipa criativa, conceberam um Orgulho e Preconceito que primou pela sua captura da imaturidade e leveza da sua história e personagens, construindo momentos tão apaixonantes como gloriosamente dramáticos como uma dança entre Lizzie e Darcy em que o par se encontra subitamente isolado do resto do mundo ou um belíssimo passeio por entre uma galeria de esculturas neoclássicas.

A Juventude de Jane Austen Anne Hathaway
A Juventude de Jane (2007)

 

Tal como aconteceu na televisão, também a vida de Jane Austen já serviu como inspiração para o cinema com A Juventude de Jane a ser o mais célebre exemplo. Nesse filme, Anne Hathaway interpreta a autora durante um dos momentos mais essenciais da sua vida quando foi a protagonista de um romance que, ao contrário dos casais nos seus livros, não teve o privilégio de um idílico final feliz. Como documento histórico, este filme deixa muito a desejar, mas como prosaica homenagem a Austen e seu trabalho é minimamente agradável para devotos fãs dos seus livros.

Todas estas adaptações, por muito que se afastem das origens literárias do principio do século XIX, não alteram de modo muito radical, as narrativas de Austen. O mesmo não se poderá dizer das obras que são exploradas na próxima página, incluindo o recente Orgulho e Preconceito e Guerra.

 

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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