"Jeanne" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | Jeanne, em análise

O novo filme de Bruno Dumont, “Jeanne”, é uma bizarra biografia de Joana D’Arc que se afirma como um dos projetos mais estranhos na competição Silvestre do 17º IndieLisboa. Anteriormente, a obra já havia marcado passagem no Festival de Cannes e outros eventos que tais pelo mundo fora.

Ao longo da História do cinema, muitos foram os artistas que se propuseram a dramatizar o fado de Joana D’Arc. Dreyer concebeu uma das grandes obras-primas da sétima Arte com o seu mudo de 1928, enquanto Ingrid Bergman por duas vezes imortalizou a santa, primeiro para Victor Fleming e depois para Rossellini. Nos anos 50, Otto Preminger usou a história martirizada de Joana para criar uma nova estrela em Jean Seberg. Entre os seus muitos filmes sobre a fé, Bresson também abordou a história da guerreira que lutou por França. Até Luc Besson tentou a sua sorte com a figura histórica, convertendo sua vida num épico afigurado de blockbuster. O francês Bruno Dumont é o mais recente mestre do cinema a juntar a essa ilustre lista.

Ao contrário dos seus antecessores, ele não fez por menos e edificou logo um díptico sobre Joana D’Arc. Primeiro veio “Jeannette”, um estranho musical pop que dramatizou a infância da santa num quadro minimalista onde a paisagem litoral domina e todo o drama decorre na praia. Agora, com “Jeanne”, Dumont conta aquele conto que já foi muito contado, o da investida bélica da santa, seu tribunal injusto e trágico fim na fogueira. A prevalência do número musical diminuiu em relação ao primeiro capítulo da história, mas a idiossincrasia cinematográfica de Dumont e companhia continua bem forte e impossível de ignorar. Para bem e mal, esta é a vida de Joana D’Arc encenada como nunca foi antes.

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Tudo começa na mesma praia normanda de “Jeannette” e, novamente, a pequena Lise Leplat Prudhomme de dez anos dá vida à santa. Joana D’Arc vai à guerra neste filme, mas a sua figura continua sempre a ser a de uma criança em armadura reluzente. Sua presença inocente no meio do quadro medieval é amoral e vil, uma estranheza que perturba o espectador e nos faz reinterpretar a história antiga mesmo antes dos atores abrirem a boca e a dramaturgia se desenrolar. Quando o filme chega à sua hora final e ao julgamento da santa, a presença de uma atriz menina face aos velhos senhores do clero é particularmente doentia. A visão da criança Joana a ser discutida entre homens rabugentos como um animal a ser abatido remói-nos o estômago e puxa pela repugnância visceral.

Isso não significa que a presença de Prudhomme só vale pela sua juventude e pelo fenómeno estético da meninice inocente. Como a maior parte dos intérpretes que trabalham com Dumont, ela não é atriz profissional e seu amadorismo sente-se ainda mais que a tenra idade. No entanto, o modo de falar sem inflexão, a falta de subtexto no seu trabalho ou do exagero perante a câmara resulta numa qualidade honesta. Joana parece um píncaro de genuína humanidade no meio do artifício teatral que o seu realizador orquestrou. Além do mais, regressando ao seu poder enquanto objeto estético na mise-en-scène, o contraste que ela estabelece com todos os seus cenários é sublime. E, de longe, esses cenários são a maior mais-valia de “Jeanne”.

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Abençoado com um argumento mais geograficamente variado que o de “Jeannette”, Dumont e seu cenógrafo Erwan Le Gal aproveitam para desenhar um filme onde o espaço histórico comenta a narrativa de um modo que os atores nunca podem. A praia inicial é bastante simples, mas o campo de equitação onde se faz a guerra prima pelo requinte imáculo. Nesse espaço, Dumont faz da batalha um espetáculo de dressage. Os cavaleiros montados formam geometria humana e animal em planos picados contra o relvado, uma espécie de número musical tirado de um filme de Busby Berkeley aqui transposto para a guerra ancestral.

O melhor, no entanto, está reservado para os interiores que vêm mais à frente na história. Em catedrais góticas e barrocas, Dumont brinca com o anacronismo gritado da sua dramaturgia tirada de uma peça de Charles Péguy. A pompa e circunstância do clero é exposta no espaço, mas os atores em figurinos humildes de Alexandra Charles refletem a pequenez espiritual dos executores da santa. Até a prisão da pequena guerreira transpira significados poderosos, sendo feita de bunkers da Segunda Guerra Mundial, outra fase da História francesa quando a nação se teve de defender de invasão estrangeira.

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É pena que toda esta maravilha de cinema explodido em dialéticas históricas e literárias seja tão insuportavelmente seco como “Jeanne”. Há ironia na abordagem de Dumont à narrativa, mas a sua postura distante face à história de Joana D’Arc é demasiado cerebral para funcionar. Admiramos o engenho e a ambição do cineasta, mas a sua retórica teatral é um pesadelo de narrativa sensabor que é mais interessante no papel do que é no ecrã. Além do mais, apesar das suas passagens espetaculares como a guerra de equitação, “Jeanne” é demasiado comprido para suportar o peso da sua assumida estilização. Se Dumont conseguisse equilibrar os ritmos da obra, talvez houvesse salvação, mas na medida em que existe, “Jeanne” é um estupendo objeto de estudo e um secante trabalho de cinema sôfrego.

Jeanne, em análise
jeanne indielisboa critica

Movie title: Jeanne

Date published: 2020-09-05

Director(s): Bruno Dumont

Actor(s): Lise Leplat Prudhomme, Annick Lavieville, Justine Herbez, Benoît Robail, Alain Desjacques, Serge Holvoet, Julien Manier

Genre: Drama, História, Biografia, 2019, 137 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

Bruno Dumont é um autor de impor respeito, mas a sua provocação intelectual nem sempre compensa. Em “Jeanne”, o seu minimalismo irónico é um tiro que sai pela culatra. Concetualmente, trata-se de uma obra magistral, mas sua construção final descontenta e desaponta.

O MELHOR: O engenho cenográfico e o uso de espaços históricos.

O PIOR: A alquimia incerta de duração de maratona, atores deliberadamente amadores e um texto que cambaleia na corda bamba entre o drama arcaico e a desconstrução pós-moderna do filme histórico.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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