"Isabella" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | Isabella, em análise

Depois de passar pela Berlinale, onde ganhou uma Menção Honrosa, “Isabella” de Matías Piñeiro chegou ao 17º IndieLisboa. O filme integra a secção Silvestre do festival português.

“Medida por Medida” é uma das comédias menos conhecidas e celebradas de William Shakespeare. Originalmente inspirada em textos de George Whetstone, a peça delineia uma história moral sobre justiça e corrupção, misericórdia e virtude, no cenário de uma Viena em processo de reforma. Além disso, é um dos textos do Bardo que mais se interessa pelo tema da dúvida e da ambivalência, assemelhando-se, nesse sentido, ao “Hamlet” do mesmo autor.

Só que, ao invés de dilemas dinásticos e possibilidades suicidas do Príncipe da Dinamarca, esses temas manifestam-se em torno de uma figura feminina em “Medida por Medida”. Ela é Isabella, jovem decidida a tornar-se freira que é posta na posição impossível de escolher entre a virgindade e a segurança de Cláudio, seu irmão. “Isabella” é também o nome do mais recente filme do cineasta argentino Matías Piñeiro. Nos últimos anos, o realizador tem vindo a fazer carreira com obras inspiradas nas heroínas de Shakespeare.

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“Viola”, “A Princesa de França” e “Hermia & Helena” são extrapolações concetuais que puxam os fios temáticos dos textos seiscentistas e com eles concebem tapeçarias modernas. Seguindo o modelo do estudo de personagem cruzado com lirismo atemporal, a filmografia deste autor é intelectualmente complexa, quiçá intransponível para muitos cinéfilos. O puzzle de “Isabella” é uma das criações mais estranhamente bizantinas de Piñeiro. Por um lado, a simplicidade estética mantém-se e até o sentimento das performances tende a preferir a subtileza ao espetáculo.

Contudo, a estrutura do filme é tudo menos simples, primando pela fragmentação continua da ação. O mesmo gesto repete-se vezes em conta e a cronologia é revirada sobre si mesma, explodida sem furor e reconstruída com um olho atento à fluidez do texto. Ou seja, apesar de uma modéstia formal que recorda o melhor de Rohmer, “Isabella” representa uma narrativa que não obedece a quaisquer regras de tempo linear, estando sempre aos saltos. Na sua mais básica variação, “Isabella” retrata os dilemas de duas mulheres.

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Uma delas, Mariel, é uma artista plástica que se quer aventurar pelo panorama da performance com uma encenação de “Medida por Medida”. Luciana é uma atriz com mais experiência e sucesso, uma pedra no sapato de Mariel que lhe dificulta a incursão no teatro. Há relações dúbias com um irmão indiscreto, passagens da paisagem urbana de Buenos Aires para um ambiente mais bucólico e o interior abstrato de uma intervenção museológica, atuação dentro de atuação e muito mais.

No cerne de tudo isto, a questão da dúvida brilha e cega, uma explosão de roxo que reflete a incerteza que vai no coração das protagonistas. Bem cedo na história, ouvimos falar dessa cor e de um ritual a ser feito junto ao oceano. Trata-se de um jogo que ajuda a dissipar a indecisão, mas, na verdade, sublinha como o ser humano procura sempre algum acaso cósmico que lhe tire a responsabilidade da escolha. A pessoa indecisa deverá pegar numa dúzia de pedras e atirá-las, uma de cada vez, para as águas. Se algo interromper o processo, então há que se recantar a escolha. Se nada acontecer, a pessoa deve seguir em frente.

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Em certa medida, o filme representa um exercício na Arte do enquadramento e esse jogo das pedras é o código que nos traduz o resto de “Isabella”. Isto verifica-se com o leitmotiv de uma coleção de retângulos concêntricos, cada um com cores diferentes e também no modo como Piñeiro cuidadosamente rebobina a ação. O mesmo momento pode ser visto várias vezes, seu enquadramento contextual ligeiramente alterado por algo sem necessário significado. Assim se faz para que o espectador dele extraia ideias diferentes, que projete suas escolhas no filme.

“Isabella” é um jogo cerebral que triunfa mais como um ensaio teórico do que como um objeto de cinema. Dito isso, há uma qualidade humana nas emoções das protagonistas, uma gradação de sentimento que as atrizes manifestam e acalenta a cerebralidade glacial do projeto. Essa componente mais pessoal ajuda Piñeiro a transcender as limitações do seu engenho concetual, esculpindo drama no mármore do pensamento deste realizador que é mais ensaísta que dramaturgo.

Isabella, em análise
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Movie title: Isabella

Date published: 2020-09-05

Director(s): Matías Piñeiro

Actor(s): María Villar, Augustina Muñoz, Pablo Sigal, Gabriela Saidon

Genre: Drama, 2020, 80 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO:

As atrizes María Villar e Augustina Muñoz sopram a graça da vida no mais recente filme de Matías Piñeiro. “Isabella” é um puzzle desorganizado cujo caos ilumina algumas ideias fascinantes sobre o modo como uma pessoa tenta desapegar-se da responsabilidade da escolha.

O MELHOR: O conto das pedras e do mar, seus matizes de roxo depurado e a beleza das imagens repetidas de uma entrada na piscina.

O PIOR: Por um lado, apreciamos o modo como Piñeiro disseca as ideias de Shakespeare nestes ensaios fílmicos. Por outro, seria interessante ver este cineasta divorciar-se da necessidade da narrativa e render-se totalmente à abstração concetual que os seus filmes tendem a valorizar mais que o drama humano.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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