LEFFEST ’18 | John McEnroe: In the Realm of Perfection, em análise

Dois cineastas franceses separados pelo tempo tentam entender o virtuosismo de John McEnroe no documentário “John McEnroe: In the Realm of Perfection”. Este é um dos filmes em competição no Lisbon & Sintra Film Festival.

Ultimamente, a hegemonia da teoria de autor entre cinéfilos tem vindo a ser posta em causa. A ideia de que um realizador é o solo autor do objeto artístico é, por alguns, vista como um apagamento sistemático da autonomia criativa e voz autoral de todos os artistas que contribuem a para a criação colaborativa de cinema. Quando se estende este discurso a questões de diversidade identitária, a teoria de autor pode mesmo ser interpretada como uma ferramenta pela qual a cinefilia internacional tende a desacreditar os esforços daqueles que, que, ao longo da história do cinema e da Arte em geral, têm tido muito mais dificuldade em encontrar oportunidades para afirmar-se enquanto autores reconhecidos. Não pode uma atriz ser considerada autora do filme, por exemplo?

Para os efeitos desta crítica, é importante ter-se esta controvérsia teórica em mente, pois o mais recente documentário de Julien Faraut estica, deforma e desafia o conceito de autor singular do objeto fílmico. Se a teoria de autor encarada de forma dogmática já antes parecia ultrapassada, aqui ocorre como algo absolutamente transcendido. Em “In the Realm of Perfection “, Farraut usa filmagens de arquivo do Torneio de Roland Garros em 1984, para argumentar a autoria artística dos jogadores em campo. Mais especificamente, Faraut propõe a peculiar ideia de John McEnroe, célebre e muito infame lenda do ténis mundial, enquanto autor cinematográfico e artista que usa a raquete ao invés de um pincel, de um cinzel ou de uma câmara.

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O cineasta faz arte com a câmara, o tenista usa a raquete.

Com isso dito, seria erróneo caracterizar John McEnroe como o único protagonista deste filme-tese. Afinal, não estaríamos a examinar a dinâmica entre cinema e ténis, entre autor e desportista, se não tivesse havido alguém a apontar a objetiva para McEnroe e a documentar seus esforços. Esse alguém foi Gil de Kermadec, um realizador que começou a filmar ténis quando, nos anos 60, teve a responsabilidade de criar cinema instrucional para o instituto de desporto e treino de França. Não querendo invalidar o seu trabalho futuro, esses primeiros filmes, aqui explorados por Farraut com curiosidade e embasbacado fascínio, detêm em si uma sedutora aura de estranheza e sublimada tensão.

Entenda-se que nesses vídeos de instrução para ténis, o que Kermadec documentava não era a atividade desportiva de um jogo, mas sim uma coletânea de poses congeladas e gestos dramatizadas a passo de caracol. Observar tais artefactos cinematográficos é ver a fricção entre o homem atrás da câmara e a estilização de um movimento fragmentado em fases de imobilização. Kermadec adorava movimento, a fluidez do ténis viria a manifestar-se como sua obsessão e era na tecnologia avançada que ele via o futuro do cinema e não na rígida reciclagem de técnicas primitivas.

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Felizmente para o cineasta e para nós, enquanto espectadores, tais paixões viriam a concretizar-se e é por isso que temos as muitas filmagens de McEnroe em Roland Garros, seu corpo em balética agressividade desportivo, quer seja a servir ou a contorcer-se em poses de desapontamento e crispada raiva. Se o movimento e fluidez do desporto estavam em destaque nos vídeos de instrução devido à sua ausência, nas imagens de McEnroe estes conceitos estão presentes na sua apoteose máxima. Mesmo quando reduzido a vetores que Kermadec usava para ilustrar a ação do jogador, este movimento tem algo de espetacular que, por muito que tentasse, o cineasta apaixonado pelo ténis jamais conseguiu sumarizar em engenho de fórmula ou equação.

Se por um lado temos a busca pela perfeição cinematográfica, pela total tradução do movimento humano e suas muitas complexidades no documento fílmico, por outro temos a busca do desportista pela perfeição do seu jogo. Parte do discurso teórico de “John McEnroe: In the Realm of Perfection” remete para um estudo de personalidades em busca do mesmo elemento inalcançável, uma dança de parceiros relutantes que nem se apercebem que estão a tentar interpretar a mesma coreografia. Nesse sentido, o filme é uma peculiar joia de dois autores em confronto e diálogo feito por gestos artísticos e desportivos.

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Será que John McEnroe era um autor de cinema?

De facto, as permutações mais teoreticamente rebuscadas do documentário são as suas grandes mais-valias, nomeadamente a comparação entre o modo como o tenista manipula o ritmo e a passagem do tempo com as suas jogadas e o modo como um realizador faz o mesmo com o que filme e sua subsequente montagem. Noutras passagens, o filme chega a empregar humor no seu discurso formal, como quando usa o trailer de “Amadeus” para ilustrar a imagem de McEnroe enquanto mestre da sinfonia do ténis ou quando sobrepõe uma das muitas altercações entre o tenista e os juízes de linha com diálogo tirado de “O Touro Enraivecido” de Martin Scorsese.

Curiosamente, é nas suas facetas mais corriqueiras que o filme-tese se espeta contra uma parede de limitações. O uso de repetição para mostrar a metodologia de McEnroe e a condição quase teatral dos seus acessos de raiva constitui um bom argumento teórico, mas também resulta numa estrutura em constante redundância que tanto pode fascinar o espectador que ame ténis como aborrecer mortalmente um membro da audiência com menos paixão pelo tema. Por outro lado, o elogio que tanto o cineasta do passado, como o do presente prestam a McEnroe e tentam justificar a sua infame atitude com o argumento da sua genialidade artística parece-nos um gesto reacionário e francamente retrógrado.

Este é um filme que se propõe a canibalizar os estudos de cinema que mais têm influenciado a cinefilia mundial e empregar seus parâmetros a um estudo do ténis. Contudo, sua audácia teórica tem claros limites e limitações, acabando por cair no cliché da cinebiografia pronta a desculpar tudo o que seu sujeito faz devido ao mérito do seu virtuosismo. Isto é triste e acaba por retroativamente conferir uma pátina de leve hipocrisia e tendenciosidade argumentativa a toda a tese que o filme, de outra forma, tenta defender. “John McEnroe: In the Realm of Perfection” descreve a procura de perfeição de dois supostos artistas, mas enquanto filme acaba por ficar muito mais longe desse objetivo que os seus sujeitos.

John McEnroe: In the Realm of Perfection, em análise
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Movie title: L'empire de la perfection

Date published: 2018-11-22

Director(s): Julien Faraut

Actor(s): Mathieu Amalric

Genre: Documentário, Desporto, 2018, 95 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO

Apoiando-se nas filmagens de Roland Garros em 1984, quando John McEnroe perdeu na final, mas mesmo assim teve a maior percentagem de vitórias por temporada na história do ténis, “In the Realm of Perfection” tenta estudar a procura por perfeição e a semelhança ontológica entre o engenho desportivo do ténis e o gesto artístico do cinema.

O MELHOR: A qualidade das imagens de 1984, sua textura granulosa e o modo como o seu foco míope em McEnroe por vezes sugere a visão de um tenista a jogar contra si mesmo.

O PIOR: John McEnroe podia ser um génio, mas também mereceu a reputação insultuosa que tem. Não é necessário desculpabilizar o seu comportamento para defender o mérito desportivo do seu talento.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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