LEFFEST ’16 | Koca Dünya, em análise

Em Koca Dünya, um par de órfãos, fugidos da crueldade urbana, procura abrigo numa floresta e lá os dois irmãos tentam viver, renascer e encontrar alguma esperança. 

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Numa cidade turca encontramos um jovem rapaz nos primeiros suspiros da idade adulta. O seu nome é Ali e ele vive com tantas outras almas errantes nos submundos sombrios do ambiente urbano, dando prazer a alguém que se intitula como sua mãe na ausência de qualquer outra figura maternal. Este órfão tem uma irmã chamada Zuhal, sua única família de sangue, mas é impedido de falar com ela por uma abusiva família que a adotou e cujo patriarca tenciona casar-se com a jovem adolescente. Como um cavaleiro a salvar a sua princesa de horrendos ogres, ele entra de forma violenta na casa da família adotiva e salva a sua irmã. Como num conto-de-fadas contemporâneo, o par de irmãos foge da cidade na calada da noite, em direção a um futuro incerto, mas livre. Tudo isto ocorre nos primeiros 10 minutos de Koca Dünya, o novo filme do realizador turco Reha Erdem, que arrecadou o galardão da crítica para Melhor realizador da secção Orizzonti em Veneza.

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Seguindo-se a essa sequência de estonteante majestade, os protagonistas e o filme movem-se para uma floresta misteriosa. Rapidamente, os dois irmãos renascem e batizam-se com novos nomes, constroem uma casa e encontram harmonia na sua existência natural, assemelhando-se aos protagonistas de Badlands. De chiaroscuro urbano, a linguagem visual de Koca Dünya transfigura-se num sonho de natureza mística à la Malick onde a luz da lua e do sol irrompe em feixes doirados pelas abóbadas de folhas, e onde a câmara se move pelas árvores capturando tableaux de vida natural que, quando os humanos lá se inserem, quase parecem pinturas pré-rafaelitas que ganharam vida.  O som, pela sua parte, envolve os dois órfãos num espesso manto de ruídos animais que sugerem um mundo maior, primordial e magnífico que transcende mesmo a sua perceção humana.

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O lirismo desta apresentação rapidamente afeta todos os elementos do filme e de criminosos em fuga, os dois irmãos tornam-se em criaturas místicas, parte de uma alegoria cósmica sobre a condição humana, mas também figuras de contos-de-fadas infantis. Zulah, em particular, vai-se envolvendo cada vez mais no mundo da floresta, sendo que, ao contrário do irmão, ela não vai ao exterior para arranjar trabalho. Aí, ela encontra-se com figuras estranhas, como uma mulher idosa à procura do seu pai, e entra numa peculiar comunhão tanto com a Mãe Natureza como com a morte. Numa das mais belas e desconcertantes imagens do filme, ela deita-se ao lado de um cadáver que encontrou, cobre a sua cara com um lenço diáfano e fica assim, quieta, como uma Branca-de-Neve perdida e adormecida à espera de um salvador. Neste mundo de natureza e fantasia, ela vai-se perdendo, bem distante da crueldade do Homem que infeta o mundo urbano de onde acabou de fugir.

Outra comparação possível de se fazer é com o Antigo Testamento. Apesar de serem irmãos, estes dois órfãos, ao depurarem a sua humanidade até chegarem a um estado quase selvagem e sublime, eles são como Adão e Eva. O realizador até acrescenta uma boa quantidade de imagens de serpentes para martelar ainda mais essa referência, mas, estranhamente, o resultado não se torna grosseiro. Tal como nessa passagem bíblica, estes dois humanos são tentados, mas aqui não é Eva quem cede. Ali, o nosso Adão, vive uma existência dupla, entre a floresta e uma aldeia próxima. Aí, ele é seduzido pelos vícios do álcool e do sexo fácil vendido por uma cartomante dissimulada e acaba por trazer a negrura das suas transgressões até ao paraíso natural. Aí, a Mãe Natureza que os acolheu revolta-se contra a sua presença, trovões ecoam pelos céus sem relâmpagos, animais aparecem a Zulah como entes queridos ressuscitados e o caos trespassa os seus corpos e força-os a sair do seu novo lar.

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Apesar do seu final trágico, Koca Dünya é uma história de decetiva beleza e inspiração humanista. O cineasta Reha Erdem olha para estes irmãos como símbolos das crianças que crescem sem pais, abandonados por crueldade, negligência ou forças superiores. Perdidos no mundo, eles tentam criar a sua própria paz e seu próprio lar, mas as adversidades da vida estão sempre a traí-los. Por momentos, contudo, estes órfãos criam algo semelhante a um paraíso na terra, uma bolha separada do mundo cruel onde conseguem ser felizes e sorrir para o futuro que não sabem se algum dia virá. Mesmo que o seu triunfo seja momentâneo continua a ser comovente ver como eles se separam de um mundo injusto que está sempre a tentar explorá-los e nunca lhes mostra amor.

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Ao longo do filme, figuras como a idosa confusa que busca o seu pai, um grupo de homens que procura o cadáver de sua mãe ou um louco que grita por uma mãe há muito sumida, mostram como este é um mundo cheio de órfãos perdidos, abandonados e feridos pelo mundo e que buscam o reconforto e a segurança do seio maternal ou do abraço de um pai. Usando uma linguagem cinemática de um brio espantoso, Reha Erdem edificou aqui um poema sobre o lugar do ser humano neste mundo. As suas ambições são grandiosas e talvez grandes demais para a pequena miniatura desta obra, mas é impossível negar a beleza de Koca Dünya ou o seu impacto no espetador que fica tão maravilhado com as suas visões, como comovido pela sua história humana e atordoado pela dor de um final cruel, mas tragicamente inevitável.

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O MELHOR: A gloriosa fotografia de Florent Herry que pinta a cidade de escuridão e amarelos intensos, faz da floresta um templo de harmonia, horror e fantasia, da aldeia uma coleção de superfícies frias e impessoais e dos corpos humanos espíritos que transitam pelo mundo sem terem rumo ou esperança de permanecerem em paz.

O PIOR: O modo como o filme nunca supera mestria dos seus primeiros 10 minutos. Isto não é um grande problema, mas não deixa de ser uma desilusão.


 

Título Original: Koca Dünya
Realizador:  Reha Erdem
Elenco: Saygın Soysal, Hakan Çimenser, Ayta Sözeri, Murat Deniz, Melisa Akman, Ecem Uzun
LEFFEST | Drama | 2016 | 100 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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