"La femme de mon frère" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | La Femme de Mon Frère, em análise

Depois de ter passado no Festival de Cannes de 2019, “La Femme de Mon Frère”, também conhecido como “My Brother’s Love”, abriu a 17ª edição do IndieLisboa com boas gargalhadas e uma imagem pouco convencional de relações familiares em desordem.

Há muitos filmes sobre pais e filhos, sobre os conflitos que se formam entre gerações diferentes da mesma família, laços de sangue e laços afetivos emaranhados e quebrados, quiçá fundidos. Contudo, é raro encontrarmos cinema sobre as dinâmicas que se estabelecem entre irmãos. Talvez haja alguma falta de universalidade nesse assunto, mas é certo que, quando nos deparamos com obras como “Podes Contar Comigo” ou “Os Savages”, até estranhamos. À limitada lista de retratos cinematográficos de elos fraternais, podemos agora acrescentar “La Femme de Mon Frère” da atriz tornada realizadora Monia Chokri.

A obra foca-se na figura de Sophia, uma académica na casa dos 30 que, na primeira cena da comédia, conquista o doutoramento e perde o emprego dos seus sonhos. Depois desse início afogado em desgosto e humilhação, a vida de Sophia não melhora muito. Desamparada e sem rumo, ela vive com Karim, seu adorado irmão e um psicólogo de sucesso. É com ele que Sophia passa os seus dias, numa relação extremamente próxima que peca, talvez, pela dependência exagerada da mulher sobre o homem. Entendemos rapidamente que, por muito que ame a sua irmã, Karim conseguiria viver distanciado dela. Para Sophia, tal distância é algo inconcebível, quase apocalíptico.

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Tudo descamba para a paródia no dia em que Sophia vai realizar um aborto e, na clínica, Karim se depara com uma mulher com que, em tempos, tinha dormido. Eloïse é a médica de Sophia e parece a candidata perfeita para reformar as tendências mulherengas do psicólogo. Até a nossa protagonista parece concordar, elogiando profusamente a outra mulher quando ainda se encontra sob os efeitos dopantes da morfina. Quando a anestesia passa, contudo, a realidade da situação mostra a sua cara feia. Para Sophia, habituada a ser o centro da vida do irmão, a intrusão desta nova pessoa é uma ameaça, a faísca que acende uma bomba de inveja e ciúme, de frustração juvenil e a petulância de uma criança birrenta.

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Estão os dados lançados para uma comédia com cheiros de sitcom americana. “La Femme de Mon Frère”, contudo, evita o humor fácil e prefere situar-se num cruzamento instável entre humor burlesco e melancolia sentida. Por muito gritadas que as piadas possam ser, todas elas provêm de um âmago doloroso, inseguranças adultas que se fermentam na cabeça daqueles que vivem a adolescência prolongada. Os atores, cambaleando entre o melodrama e a revista, mergulham de cabeça nas contradições tonais da proposta e nunca têm medo de evidenciar as arestas vivas das suas personagens. Este não é um filme sobre pessoas afáveis com as quais é fácil simpatizar e ninguém no elenco tenta fingir o contrário. Cada observação humana tem em si tanto riso quanto tem dor, irritação e maldade.

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Apesar disso, o que mais surpreende na execução de “La Femme de Mon Frère” nem é tanto o trabalho de ator ou a astúcia textual. De facto, para alguém que chega à cadeira de realizadora depois de ter passado pelo ofício da atuação, Monia Chokri é uma cineasta surpreendentemente focada nas possibilidades formalistas da comédia. Longe de privilegiar o ator em detrimento da expressividade audiovisual, Chokri usa um estilo incomum para desconstruir e estilhaçar os preceitos humorísticos do seu filme. Aqui, mais do que do texto, a gargalhada nasce da montagem, do enquadramento desequilibrado e do contraste entre a cena e seu acompanhamento musical. Por vezes, isso até distrai, mas nunca criticaríamos um cineasta noviço pelo excesso de ambição formal.

Chokri está longe de ser uma mestra da comédia em cinema, mas as suas ideias visuais têm interesse e chocam pela positiva. Aliás, enquanto técnica de montagem, a cineasta brilha pela irreverência, quebrando os ritmos do diálogo com cortes abruptos, saltos desconfortáveis e pausas inusitadas. Na mesma medida em que Sophia vai caindo numa espiral nervosa, também a gramática visual do seu filme se desfaz em paroxismos de loucura. Chegado o fim da história, tudo se resolve, tanto as relações familiares como a demência da montagem. Dito isso, tal conclusividade deixa um pouco a desejar e o filme até fraqueja pelo sentimentalismo em demasia nos últimos minutos. Monia Chokri é uma realizadora com potencial e mal podemos esperar para ver a sua próxima façanha por detrás das câmaras.

La Femme de Mon Frère, em análise
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Movie title: La Femme de Mon Frère

Date published: 26 de August de 2020

Director(s): Monia Chokri

Actor(s): Anne-Élisabeth Bossé, Patrick Hivon, Evelyne Brochu, Sasson Gabai, Micheline Bernard, Mani Soleymanlou, Niels Schneider, Noah Parker, Magalie Lépine Blondeau

Genre: Comédia, Drama, 2019, 117 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

“La Femme de Mon Frère” deu início ao IndieLisboa de 2020 com uma nota mais leve do que o habitual. Esta comédia canadense investiga os elos fraternais entre irmãos e irmãs adultos, observando e gozando com as codependências que se calcificam com o passar dos anos. Formalmente inesperado e atuado com admirável feiura, o filme inspira respeito apesar de não ser um feito particularmente triunfal de comédia contemporânea. Recomenda-se, mas com reservas.

O MELHOR: A montagem arrítmica feita por Chokri e Justine Gauthier.

O PIOR:
Além de Sophia, todas as personagens sofrem de alguma anemia textual. Mesmo Karim, é mais caricatura que pessoa, e Eloïse jamais tem oportunidade de se evidenciar enquanto a força desestabilizadora que o argumento insiste que ela é. Além disso, é demasiado comprido e há algumas piadas preconceituosas que deixam um mau sabor na boca do espetador.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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