"Lamento de Uma América em Ruínas" | © Netflix

Lamento de Uma América em Ruínas, em análise

Glenn Close foi nomeada para o Óscar de Melhor Atriz Secundária pelo seu trabalho em “Lamento de Uma América em Ruínas”, também conhecido como “Hillbilly Elegy”, da Netflix. O filme realizado por Ron Howard foi também indicado na categoria para Melhor Maquilhagem e Cabelos.

Em 2016, J.D. Vance publicou o livro “Hillbilly Elegy: A Memoir of a Family anf a Culture in Crisis”. Trata-se de uma autobiografia desse investidor profissional, uma reflexão sobre a cultura de uma comunidade empobrecida e todo um clã que lá nasceu, cresceu, prosperou. É uma história que se pressupõe inspiradora, o conto de alguém que conseguiu sair da miséria e alcançar riqueza em Wall Street. Qual sonho Americano com travo Republicano, o livro de Vance veio a ser “cause célébre” para os apoiantes de Trump durante as eleições Presidenciais de 2016.

Há quem diga que o cinema devia almejar ser apolítico, mas isso vai contra a realidade do nosso mundo. Tudo é político e a história de J.D. Vance é intensamente assim, especialmente quando consideramos que o autor está agora a candidatar-se a cargos no seu governo estatal. Tudo isto para dizer que, não obstante o que os criadores deste filme possam dizer, “Lamento de Uma América em Ruínas” exige ser apreciado através de um prisma política. Nesse contexto, trata-se de uma obra intragável, cheia de desdém pelas personagens que dramatiza, um nojo sensacional pela miséria alheia aqui tornada em fonte de entretenimento barato.

lamento de uma america em ruinas hillbilly elegy
© Netflix

No filme, a história de Vance divide-se em duas vertentes, a adolescência turbulenta do futuro escritor em contraste com um momento-chave da sua vida adulta. Na secção mais passada, testemunhamos os cismas familiares desse clã de Ohio. Aí, um conflito central se revela, entre Mamaw, a avó extremosa do menino, e Bev, sua mãe toxicodependente. A parte mais presente é que dá estrutura aos flashbacks, fazendo da obra uma espécie de canção da lembrança, um lamento, um hino fúnebre. Aqui, a relação tempestuosa entre J.D. e Bev toma posição central.

O maior problema, pelo menos a nível concetual, deste “Lamento de Uma América em Ruínas” é o forte julgamento que sentimos da parte dos cineastas para com seus sujeitos. Estes artistas endinheirados de Hollywood, exploram as vidas das classes trabalhadoras com um certo laivo de caricatura indevida, um melodrama mais próximo da telenovela que o filme prestigiado. Além disso, o facto de que é uma oportunidade profissional e a chance de ganhar capital urbano aquilo que atormenta o J.D. adulto dá um travo amargo a todo o conto. O sucesso, aqui apresentado, é fugir da vida em Ohio, da vida nessa América arruinada. É um filme que simultaneamente desrespeita as personagens e lhes lambe as botas sem qualquer sombra de pensamento crítico.

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Com isso tudo dito, o fracasso intelectual, moral e político de um filme não aponta necessariamente para sua falta de valor audiovisual. Até há filmes Nazis e propaganda ditatorial que brilham em termos estéticos, em aspetos mecânicos da arte de fazer cinema. “Lamento de Uma América em Ruínas”, infelizmente, não oferece tais benesses ao espetador infeliz. Fotografado com uma imagem digital demasiado polida, demasiado plástica, este trabalho de Ron Howard tem ar de esforço televisual e uma displicência formal que só é superada pelas suas falhas textuais.

Em linguagem muito básica, “Lamento de Uma América em Ruínas” é aborrecido. Se formos mais específicos, temos que mencionar a amorfia da sua estrutura e a completa falta de ímpeto narrativo. Há também o clássico problema de todos os filmes que segmentam a sua história tão deliberadamente em duas metades distintas: uma parte é sempre mais interessante que a outra. Neste caso, o passado é bem mais interessante que o momento presente, nem que seja pelo facto que é somente no passado que aparece o melhor elemento de toda a fita. Referimo-nos, pois claro, à inigualável Glenn Close.

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© Netflix

Mamaw está longe de ser uma das grandes criações da atriz. Contudo, trata-se de uma caracterização sólida com alguns momentos de genuína emoção e complexidade interpretativa. Ver esta veterana do grande ecrã implodir durante um funeral choroso ou engolir o sentimento de orgulho quando o neto tem boas notas é sublime. Os restantes atores em cena nem lhe chegam aos calcanhares e é com grande tristeza que temos de juntar Amy Adams a esse grupo. Como Bev, a atriz concebe um dos seus piores desempenhos, escolhendo o caminho da caricatura em sacrifício da humanidade da figura. Outras mais-valias a apontar são a banda-sonora empolgante e o trabalho de transformação cosmética. A nomeação de “Lamento de Uma América em Ruínas” para o Óscar de Melhor Maquilhagem foi bem merecida.

Lamento de Uma América em Ruínas, em análise
Hillbilly Elegy

Movie title: Hillbilly Elegy

Date published: 24 de April de 2021

Director(s): Ron Howard

Actor(s): Gabriel Basso, Owen Asztalos, Amy Adams, Glenn Close, Haley Bennett, Freida Pinto

Genre: Drama, 2020, 116 min

  • Cláudio Alves - 40
40

CONCLUSÃO:

“Lamento de Uma América em Ruínas” é um filme ruinoso, cheio de problemas estruturais e uma coleção de performances indisciplinadas. Glenn Close eleva-se acima da mediocridade da Netflix, mas nem ela consegue apagar o mau gosto da caricatura lamechas que Ron Howard aqui compôs. A atriz e sua performance mereciam um filme bem melhor que este. Apesar de tudo, recomendamos aos fãs de Glenn Close. Ela sai do desastre com a dignidade intacta, como era de esperar.

O MELHOR: Os elementos que foram indicados para os Óscares. Nomeadamente, Glenn Close e o trabalho de caracterização cosmética.

O PIOR: A falta de estrutura, a podridão moral do projeto, o modo como Howard e companhia parecem só ter desdém pelas figuras que aqui imortalizaram.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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