© Photograph by Courtesy of HBO Max
google news

Todos conhecem o Lanterna Verde da DC Comics, mas também todos sabem que o seu percurso nos ecrãs tem sido tudo menos fácil. É certo que já foi há mais de 10 anos, mas ainda hoje, para os fãs de banda desenhada e de cinema, há uma ferida: o filme de 2011 que colocou a personagem em grande destaque. Com Ryan Reynolds como protagonista, “The Green Lantern” é considerado um dos maiores flops dos estúdios da Warner Bros, e até da carreira de Reynolds. O próprio ator já o admitiu em várias entrevistas desde então – sendo que aparentemente o que saiu vencedor do projeto foi mesmo conhecer a atual mulher, Blake Lively e co-protagonista.

Mas, como a DC Comics e a Warner Bros nos habituaram nos últimos anos, novas direções artísticas permitiram relançar personagens adoradas, e claro, com novas ideias, formatos e até protagonistas. Neste novo universo DC (DCU), James Gunn e Peter Safran não só apostaram em novos filmes, como “Super-Homem” ou “Supergirl”, mas também em séries. E é aí que entra a nova história do Lanterna Verde! “Lanterns”, uma série original da HBO, afirmou-se desde o primeiro teaser como uma clara ruptura em relação aos projetos anteriores do estúdio. Houve espaço para apostar em novas caras, ignorar até o tom extravagante de James Gunn, e assumir uma identidade mais próxima de uma série policial de investigação.

Pub

Lanterns aposta, e bem, num novo género de série

Lanterns
© HBO Max

A narrativa, de forma exímia, afasta-se da fórmula gasta da história de origem do super-herói para nos atirar diretamente para o centro da ação. Em vez de assistirmos novamente à entrega do anel e ao treino inicial, acompanhamos uma fase de reestruturação e transição no setor 2814 (o setor espacial onde se inclui a nossa Terra). A série desenvolve-se em redor de uma misteriosa investigação numa cidade do interior dos EUA, envolvendo jogos de poder, manipulação e conflitos políticos intergalácticos. Ao longo dos episódios é inegável que estejamos sempre à procura de confirmação de quem são os verdadeiros antagonistas, quais os seus motivos e que impacto devastador as suas ações podem ter no nosso planeta.

O grande trunfo da série reside na dinâmica de buddy cop entre os seus dois protagonistas. Como também acontece em séries policiais, são nos apresentadas duas personagens colocadas numa situação de parceria forçada. Forçados a trabalhar juntos, não nutrem simpatia imediata um pelo outro, mas claramente partilham uma aptidão fora do comum e, acima de tudo, bússolas morais vincadas (ainda que muitas vezes divergentes sobre o que é eticamente correto). 

Pub

Aaron Pierre surge como uma das melhores surpresas do ecossistema dos super-heróis. Após ter emprestado a sua voz marcante a “Mufasa: O Rei Leão“, e de ter demonstrado a sua postura estoica e rigor militar em “Rebel Ridge”, o actor prova em “Lanterns” por que razão é o casting perfeito para John Stewart — uma personagem moldada por expectativas alheias, sonhos incutidos e um sentido de missão inabalável.

Lanterns
© Photograph by John Johnson/HBO Max

Por outro lado, Kyle Chandler entrega um Hal Jordan desgastado pelo tempo. Na fase final da sua carreira como Lanterna Verde, e prestes a entrar numa reforma simbólica (ainda que forçada), o ator constrói uma figura que equilibra de forma magistral a arrogância e a autoconfiança, características da personagem, com uma vulnerabilidade profundamente humana. A química entre Pierre e Chandler é o verdadeiro coração da temporada: afinal de contas, o Lanterna Verde não é um ser com superpoderes biológicos, mas sim um humano escolhido pela sua força de vontade e valores. Essa dimensão humana é indispensável.

Pub
Lê Também:
Supergirl - a Crítica

Um elenco secundário de luxo e a coesão com o universo de James Gunn

Lanterns HBO Max
© John Johnson/HBO Max

A par dos protagonistas, a produção da HBO beneficia imenso de presenças femininas de relevo. Kelly Macdonald e Poorna Jagannathan trazem densidade e autoridade ao ecrã com personagens opostas em termos de percurso e objetivos, criando um contraste fascinante com a dupla principal. Já Garret Dillahunt é uma agradável surpresa ao enredo, mostrando uma vez mais o seu versátil talento, e mostrando como é igualmente bom actor em séries de comédia ou num drama mais pesado.

Além disso, a série não deixa ninguém esquecer que já faz parte de um universo maior, e que está inserida no novo mundo criado e desenhado por James Gunn ao comando da DCU. Nathan Fillion faz uma breve aparição no papel de Guy Gardner, dando continuidade à personagem que já tínhamos visto em “Super-Homem”, sob a alçada de James Gunn. Quanto a Laura Dern, que faz uma aparição em forma humana, mas também de outro mundo, ficamos curiosos com o seu rumo dentro do universo e da própria série.

Pub

A narrativa mantém o espetador agarrado porque o mistério é palpável e culmina num final pontuado por dois ‘plot twists’ impressionantes. Diríamos que uma delas pode ser algo que surja como teoria ao longo dos episódios, para os fãs mais atentos. Mas a outra, não, nada leva a crer o desfecho. Mas acalmem-se! Sim, há ‘plot twists’, mas nós não os revelamos para não estragar o final a ninguém.

Lanterns
© Photograph by John Johnson/HBO Max

“Lanterns” resulta precisamente porque encontra o ponto de equilíbrio ideal: não é uma comédia ligeira nem um drama excessivamente pesado e sombrio. É um estudo sobre a natureza humana e a capacidade de sobrevivência perante o desconhecido.

Pub
Lê Também:
Superman - Análise

As incertezas do futuro e o desafio de James Gunn

Apesar do sucesso criativo desta primeira temporada, o futuro da propriedade permanece ainda envolto em dúvida. Com a reestruturação constante na Warner Bros., surgem já rumores sobre a possibilidade de se converter o projeto num filme para o cinema, não havendo ainda uma confirmação oficial para uma segunda temporada na HBO.

Aliás, o caminho para James Gunn não tem sido simples: embora tenha demonstrado mestria ao criar sucessos, incluindo de super-heróis, o percurso recente da marca continua irregular. Se “Super-Homem” conquistou uma fatia do público (ainda que a sombra da era Henry Cavill permaneça na memória de muitos), produções como “Supergirl” não atingiram em pleno o seu potencial, nem mesmo com a chegada ao streaming.

Pub

“Lanterns” posiciona-se, sem margem para dúvidas, como um dos projetos mais sólidos e promissores desta nova era da DC. Resta saber se o herói do anel verde conseguirá finalmente manter-se no topo da esfera pública de forma duradoura ou se voltará a ficar retido nas oscilações de estratégia do estúdio.

Lanterns

Conclusão

Pub
  • “Lanterns” é uma lufada de ar fresco no catálogo da HBO e um dos pontos mais altos do novo universo DC. Ao abdicar da fórmula tradicional de super-heróis em prol de um mistério denso, maduro e centrado nas fragilidades das suas personagens, a série prova que é possível reinventar ícones da banda desenhada com inteligência e classe. Um ponto de partida imperdível que deixa os fãs a torcer para que esta visão não se perca nos bastidores do estúdio.
Overall
8.5/10
8.5/10
Sending
User Review
0 (0 votes)

Pros

Prós:

Pub
  • A excelente química e o contraste moral entre Aaron Pierre (John Stewart) e Kyle Chandler (Hal Jordan).
  • A abordagem em formato de policial de investigação, focando-se na natureza humana em vez de origens clichés.
  • O elenco secundário de peso, com destaque para Kelly Macdonald, Poorna Jagannathan e Garret Dillahunt.

Cons

Contras:

  • O ritmo em determinados episódios intermédios pode parecer algo lento para quem procura ação ininterrupta.
  • A incerteza quanto à continuidade do formato no streaming perante as mudanças estratégicas da Warner Bros.

google news

Sobre o Autor


Leave a Reply