"Last and First Men" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | Last and First Men, em análise

Last and First Men”, o último projeto do compositor islandês Jóhann Jóhannsson, é uma canção final da Humanidade face ao apocalipse. O filme foi exibido em sessão especial no 17º IndieLisboa.

A 9 de Fevereiro de 2018, o compositor islandês Jóhann Jóhannsson morreu no seu apartamento em Berlim. Para trás, ele deixou um legado cinematográfico sublime, que incluiu as bandas-sonoras de filmes como “A Teoria de Tudo”, “Sicario” e “O Primeiro Encontro”, composições que fundiam a beleza de uma orquestra com o ominoso som de efeitos eletrónicos. Antes da sua morte prematura e inesperada, Jóhannsson concebeu uma experiência multimédia chamada “Last and First Men”, baseada nos escritos do filósofo e autor de ficção-científica Olaf Stapledon.

O processo de adaptação desse evento entre o cinema e a instalação, entre a poesia e o concerto, foi feito postumamente. A partir do que Jóhannsson tinha preparado, a sua equipa completou o filme que, assim sendo, se torna na única longa-metragem alguma vez realizada pelo falecido compositor. Na boa tradição de outros mestres do cinema como Charles Laughton e Barbara Loden, Jóhannsson pode só ter um título na sua filmografia enquanto realizador, mas trata-se de um verdadeiro milagre artístico, uma obra-prima que, com sorte, viverá muito além do seu criador.

last and first men critica indielisboa
© IndieLisboa

Ao som da música etérea de Jóhann Jóhannsson, uma série de imagens de arquitetura brutalista da antiga Jugoslávia desfila perante os olhos do espectador. Filmados em película de 16mm por Sturla Brandth Grøvlen, esses tableaux monocromáticos vibram com uma ameaça silenciosa, suas formas a cortar o horizonte com violência estática. Mesmo antes de qualquer palavra ser proferida, a qualidade estética do projeto já perturba. Trata-se de uma atmosfera apocalíptica que infeta a sala de cinema através do portal proscénio do ecrã, uma doença existencial que vem de outro tempo e nos possui a mente, metastizando ansiedades em cancros do pensamento.

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Por muito que a dança entre fotografia e música nos inquiete, seu pesadelo é uma abstração sensorial. É quando a palavra se manifesta que “Last and First Men” transcende a pequenez do seu engenho e se torna num monumento do fim do mundo. Tilda Swinton narra passagens da prosa de Stapledon, contando-nos detalhes de um futuro negro que aguarda a Humanidade. As palavras amedrontam, mas a cadência da atriz conforta, seu som doce como um bálsamo para a alma de uma civilização a cambalear no precipício do fim. Ela embala ao mesmo tempo que seu discurso nos desliza calafrios pela espinha.

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Enquanto seres vivos, estamos todos destinados a morrer. A finalidade é uma condição da vida ou então seria mera existência, como a perpetuidade da paisagem. O facto do autor deste tratado sobre o apocalipse já não estar entre nós, intensifica sua conotação trágica. Swinton fala-nos de extinção, de um Sol que está a morrer e uma raça humana que evoluiu até se tornar numa monstruosidade ancestral que nada tem que ver com a nossa presente condição. Telepatia que transcende o tempo canta-nos um hino sobre uma Humanidade que se vê presa e renascida em ciclos viciosos até que já não há tempo para mais.

“Last and First Men”, o último e primeiro filme de Jóhann Jóhannsson, é como uma onda que se abate sobre as audiências. Qual escultura de tempo e Morte, de vida e de cinema, ele ergue-se tão alto que todos somos condenados a estar na sua sombra. Frios e tapados pela penumbra profunda, estamos resguardados pela sabedoria que, mesmo se este futuro se manifestar, já não cá estaremos para o sofrer. É uma benesse no cúmulo da desgraça, um toque de açúcar na paleta de sabores de um veneno mortal. Apreciem este épico do fim que nos chega em tempos de pandemia, este poema austero da extinção, pois o seu aviso é tão portentoso quanto é belo.

Last and First Men, em análise
last and first men critica indielisboa

Movie title: Last and First Men

Date published: 4 de September de 2020

Director(s): Jóhann Jóhannsson

Actor(s): Tilda Swinton

Genre: Ficção-Científica, Experimental, 2017, 70 min

  • Cláudio Alves - 92
92

CONCLUSÃO:

Como uma aparição de um futuro agridoce, “Last and First Men” pinta um quadro audiovisual do fim do mundo. Perturbador e sublime, este filme lírico é um valente testamento sobre os talentos de Jóhann Jóhannsson.

O MELHOR: A harmonia apocalíptica que floresce da junção da imagética monumental e a música assombrosa. Impõe medo e provoca êxtase.

O PIOR: Nada se afigura como merecedor de crítica dura. Contudo, este tipo de proposta estética não é para todos os públicos. Tanto pelo conteúdo deprimente como pela forma ríspida, este tipo de cinema à la Chris Marker está destinado a frustrar aqueles que procuram uma experiência mais convencional.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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