"Greener Grass" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | Greener Grass, em análise

Depois de “Vivarium”, a secção Boca do Inferno do 17º IndieLisboa continua a escoriar a fachada da vida suburbana, desta vez com o humor absurdista de “Greener Grass”.

A malevolência opressora dos subúrbios onde mora a classe média alta têm sido alvos de satiristas há décadas. No mundo do cinema, a história não muda, com vários cineastas a fazerem carreira através da dissecação dessa gente e desses mundos. Desde os pastéis consumidos pelo preto gótico de Tim Burton até aos devaneios enlouquecidos de David Lynch, o cinema raramente teve paciência para os códigos sociais dos subúrbios a não ser quando os podiam gozar. Isso é especialmente verdade quando o país em questão são os EUA com as suas comunidades WASP (Protestantes Anglo-Saxões Brancos).

Nesse sentido, “Greener Grass” é mais um numa longa linha de filmes satíricos que se atrevem a minar os horrores inerentes a essas ruas de vivendas geminadas e quintais esterilmente impecáveis. As realizadoras Jocelyn DeBoer e Dawn Luebbe, que também escrevem e protagonizam a obra, extrapolaram o filme de uma sua antiga curta-metragem. Apesar das marcas dessa adaptação serem claras, cicatrizes levantadas da carne em tons rubros, a duração prolongada da longa-metragem permite que certas cenas respirem melhor. Através dessa folga, dessa respiração, o absurdo afia-se até estar cortante o suficiente para derramar sangue. Basta ver a primeira grande cena do filme para nos apercebermos disso.

greener grass critica indielisboa
© IndieLisboa

Aí encontramos a nossa protagonista, Jill, dona-de-casa profissional e mãe de dois que sofre de uma necessidade patológica para agradar aos outros. Quando assiste a um jogo de futebol em que o filho mais velho participa, ela conversa com uma amiga. Ela é Lisa e o seu olho é conquistado pela bebé no colo da outra mulher. Um elogio ali, um comentário acolá e, em três tempos, Jill está casualmente a oferecer a filha recém-nascida como presente a Lisa. É perverso e inquietante, tão mais perturbador pelo modo como as realizadoras deixam que o momento se estique na forma de uma conversa que aparenta ser mundana apesar das suas consequências monstruosas. Na curta original, esta interação dura pouco mais que um minuto apressado.

O tribalismo de donas-de-casa desesperadas é aqui mostrado através do filtro do surrealismo, sua loucura proferida com a secura de uma previsão meteorológica. Noutra ocasião, as mesmas mulheres falam dos maridos como se de objetos se tratassem e a metamorfose de um menino num cão é visto como algo normalíssimo. Parece que estamos a ver um pesadelo em que tudo se desenrola segundo alguma lógica onírica que não conseguimos perceber. No entanto, não estamos sozinhos. Ao longo da história, Jill vai saindo do seu estupor, qual sonâmbula a acordar ou uma vítima de hipnose a sair do transe.

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É através do pânico espelhado na performance de Jocelyn DeBoer que “Greener Grass” transcende a comédia e começa a entrar no reino do terror. A angústia de uma mente lúcida num mundo virado de pernas para o ar é horripilante e choca, sua dor multiplicada pelo conhecimento que o seu fado foi autocriado. O contraste entre DeBoer e os outros atores, todos eles comediantes virtuosos, também traz a sua própria tensão. Nunca sabemos como é que a alquimia das personagens se vai precipitar, se teremos uma explosão ou uma implosão, comédia ou tragédia. Nunca sabemos quando é que alguém se vai aperceber que uma bola de futebol não é um bebé. Da incerteza floresce a ansiedade do espectador.

Essa atmosfera de crescente perturbação é ainda mais intensificada pela estética do projeto. “Greener Grass” está algures no ponto médio entre um anúncio para detergente e um filme de John Waters. Cores pastéis, o fedor de materialismo com espuma na boca e iluminação reluzente dominam a imagem enquanto todo o design é como kitsch sobre o efeito de esteróides. Até os detalhes em que a câmara se prende nos dão calafrios, quer sejam os aparelhos dos dentes banhados em cuspo brilhante ou os acessórios desconfortáveis da indumentária. Todo o engenho de “Greener Grass” perturba a um nível visceral.

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Contudo, há um senão no meio de todo este elogio. Apesar das suas qualidades, “Greener Grass” é o tipo de filme que é mais fácil admirar ou até odiar, do que amar. As mais-valias da obra dependem da repugna do espectador, pelo que a conquista do mesmo se torna difícil. As falhas estruturais do guião não ajudam, sendo que o filme perde o gás à medida que avança. O espaço para a respiração é uma melhoria relativa à curta-metragem original, mas, no fim, há espaço a mais. O ritmo afrouxa em demasia e a repetição de ideias leva à monotonia. A fundação, o centro do edifício fílmico está impecável, mas a execução podia ser mais apurada. É como um pesadelo cujo terror se prolonga mais do que a credulidade do sonhador consegue sustentar, até que a lucidez se manifesta e o medo perde poder.

Greener Grass, em análise
greener grass critica indielisboa

Movie title: Greener Grass

Date published: 2020-09-04

Director(s): Jocelyn DeBoer, Dawn Luebbe

Actor(s): Jocelyn DeBoer, Dawn Luebbe, Beck Bennett, Neil Casey, Mary Holland, D'Arcy Carden, Julian Hilliard, Dot-Marie Jones

Genre: Comédia, Terror, 2019, 95 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO:

Um devaneio surreal com sabor a fel, “Greener Grass” leva as narrativas satíricas suburbanas a extremos de grotesco e estranheza. O filme impressiona, mas deixa um pouco a desejar na sua globalidade, sendo que a estrutura do argumento está no âmago dos seus problemas.

O MELHOR: A cena inicial. A transação humana com o bebé é tão ridícula que faz rir, mas também nos dá calafrios.

O PIOR: O filme é catastroficamente excessivo em termos de duração. Infelizmente, esta equipa de cineastas não conseguiu justificar a expansão da curta original para o formato de longa-metragem.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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