"Disponível para Amar" | © LEFFEST

LEFFEST ’20 | Disponível para Amar, em análise

O primeiro filme a ser exibido na 14ª edição do Lisbon & Sintra Film Festival foi “Disponível para Amar” de Wong Kar-Wai. Trata-se de um clássico moderno sobre paixões adúlteras e a beleza do amor que fica por consumar.

Na última década do século XX, o realizador Wong Kar-wai assumiu-se como uma das mais inovadoras vozes do cinema contemporâneo. Seu cinema oriundo de Hong Kong vibrava com inescapável vitalidade, uma explosão de sentimento que parecia desfigurar a própria matéria do celuloide. Histórias simples, nas mãos do autor, convertiam-se em alucinações de desejo, furacões audiovisuais que imergem o espetador em devaneio sensorial e o embriagam de amor.

A verdade emocional da paixão é a força motriz por detrás de “Disponível para Amar”, a sétima longa-metragem do cineasta. Seu candor impressionista devém desses sentimentos abstratos, dessas ideias que habitam o coração humano, mas raramente são materializadas. Através dos mecanismos singulares do cinema, Wong Kar-wai e sua formidável equipa criativa dão forma àquilo que é tão efémero e mutável como um sopro de fumo.

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Tal como os melhores trabalhos do realizador, este é um conto tão simples como poderoso. Em Hong Kong, em meados dos anos 60, no seio de uma comunidade de exilados de Xangai, vivem dois casais infelizes. Ambos sofrem o fado da traição e do amor que se esquentou e morreu. Acontece que eles chegam a um novo apartamento no mesmo dia, sendo que os indivíduos fiéis de cada par cruzam caminho. Ela é Shu Li-zhen, uma secretária esposa de um homem de negócios. Ele é Chow Mo-wan, um jornalista com ambições literárias.

Ambos suspeitam que seus esposos estão envolvidos e passam as suas horas solitárias na companhia um do outro. Da infelicidade partilhada, floresce a atração, o desejo da proximidade e o amor que arde e queima. É um romance que nasce da solidão e se desenvolve através do pretexto da amizade e da colaboração profissional. Nunca os amantes se envolvem além do panorama platónico. Eles não dormem um com o outro, jamais se beijam sequer. No entanto, “Disponível para Amar” vibra com sensualidade e desejo. O impulso não consumado é tão mais intenso que aquele levado ao rubro.

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Maggie Cheung e Tony Leung dão vida à parelha com sublime subtileza, ilustrando a atração mútua tingida pelo medo da impropriedade social. O sítio onde vivemos, a era em que a nossa vida se desenrola, até os hábitos que nos definem o dia-a-dia, tudo isso molda o modo como amamos, como nos apaixonamos e ultrapassamos (ou não) esse amor. Shu Li-zhen e Cow Mo-wan são prova disso mesmo, sua relação acorrentada pelos preceitos da classe média respeitosa da China do século passado. Neste contexto, até o toque mais inocente vibra como um terramoto de luxúria.

Com isso dito, a sublime sensualidade do filme não devém somente do texto e das performances. Mais ainda que o elenco primoroso e argumento astuto, é o formalismo apaixonante de “Disponível para Amar”, desde a montagem fragmentada que faz com que o drama saiba a memória nostálgica até à fotografia que pinta Hong Kong em vermelho sanguíneo. O simples ato de comprar massa a um vendedor de rua torna-se num ballet operático vestido a rigor com infinitas variações de cheongsam. O mais pequeno pormenor explode em supernovas de significado sentido.

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Veja-se a magia dos cenários e seus detalhes preciosos. As janelas estão quase sempre fechadas e resguardadas por cortinados coloridos. Quando algum desses pórticos vítreos se abre, a câmara recusa mirar o que está lá fora. Isto causa uma claustrofobia sedutora, como se os apartamentos e quartos de hotel em que a história desses amantes se desenrola estivessem perdidos numa ilha temporal, algo removido da realidade mundana. O mundo das paixões ilícitas é um coração rubro, um ventre em que a semente da carnalidade sonhadora fecunda e cresce.

Esta obra de Wong Kar-wai deve muito a clássicos do cinema como o “Breve Encontro” de David Lean- Contudo, na sua genialidade, o mais famoso mestre cinematográfico de Hong Kong supera esses mesmos clássicos e concebe um novo marco da sétima arte. Quem não viu “Disponível para Amar” ainda não viu o píncaro do cinema. Quem não amou este sonho escarlate, não sabe o que é viver com a devoção cinéfila amanhada nos recantos da alma. É simplesmente sublime!

Disponível para Amar, em análise
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Movie title: Fa yeung nin wah

Date published: 14 de November de 2020

Director(s): Wong Kar-Wai

Actor(s): Maggie Cheung, Tony Leung, Ping Lam Siu, Rebecca Pan, Kelly Lai Chen, Man-Lei Chan, Paulyn Sun, Roy Cheung

Genre: Drama, Romance, 2000, 98 min

  • Cláudio Alves - 100
  • José Vieira Mendes - 85
93

CONCLUSÃO:

O filme é como o gentil beijo de um amante querido. Suave como seda perfumada, inebriado de paixão, “Disponível para Amar” embala o espetador no seu feitiço e condu-lo ao êxtase do sentimento e do amor cinematográfico. Esta é a máxima obra-prima de Wong Kar-wai.

O MELHOR: Tudo nesta joia merece aplausos. Desde a banda-sonora ribombante aos desempenhos subtis dos atores, esta é uma construção cinematográfica sem mácula.

O PIOR: Nada a apontar.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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