"Undine" | © LEFFEST

LEFFEST ’20 | Undine, em análise

“Undine” de Christian Petzold estreou na Berlinale, onde ganhou o Prémio de Melhor Atriz para Paula Beer. Na sua passagem pelo 14º LEFFEST, foi o outro protagonista da fantasia alemã, Franz Rogowski, que conquistou um troféu pelo seu trabalho.

Ondinas são ninfas das águas. Figuras femininas que emergem de lagos e rios, elas procuram o amor de homens da terra. Acontece que essas criaturas dos poemas de Camões e Teófilo Braga não têm almas humanas e só as ganham se encontrarem amor e se casarem. Contudo, para o apaixonado da ondina, nem tudo é um conto-de-fadas com final feliz. Se a traírem, os homens estão condenados a morrer às mãos da esposa. Sua humanidade depende da união de duas metades, seu fado tão caracterizado pela paixão como pela violência.

Berlim nasceu das águas. Seu nome indica a parte seca de um pântano, ela é terra que emerge das profundezas lamacentas e floresce em forma de metrópole. Ao longo dos séculos cresceu e fraturou-se, destruída pela guerra, separada em dois pelas marés da História. Por meio da revolução, as duas metades juntaram-se novamente e uma nova Berlim surgiu, as cicatrizes do trauma patentes na planta da cidade. Violência e unificação, líderes caídos e vilões afundados, é um mito de betão e tijolo, de pessoas e arquitetura.

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Poderíamos considerar que estas duas vertentes, a História berlinense e a lenda da ondina, não têm muito em comum. Contudo, o realizador alemão Christian Petzold desenha uma linha conetiva entre a parelha. Ou melhor, ele sobrepõe Berlim e ondina, desvendando um estranho palimpsesto concetual que serve de esqueleto para o seu mais recente filme, “Undine”. Como não podia deixar de ser, tudo começa num café berlinense, onde um homem confessa adultério à amada e esta diz que o vai matar.

Ela é a Undine do título, uma misteriosa figura que passa os dias a trabalhar num museu urbano onde explica o desenvolvimento da cidade ao longo dos séculos. É num intervalo entre visitas guiadas que ela se encontra com o namorado traidor e é uma dessas visitas que a afasta da confissão antes de a violência despontar. Quando, depois do trabalho, ela regressa ao café em busca do adúltero condenado à morte, ele desapareceu.

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Promessas de homicídio aparte, Petzold cimenta, nestes momentos iniciais, o seu devaneio mitológico num realismo instável. O elemento mais sobrenatural do filme parece mesmo ser Undine que é interpretada por Paula Beer, musa do realizador, como um buraco negro de perguntas sem resposta. Só quando a nossa heroína se achega a um aquário é que algo mágico acontece, tanto no sentido mundano como fantástico. Ouve-se um chamamento profundo pelo seu nome e, ao mesmo tempo, aparece-lhe à frente um homem charmoso embevecido de afeto por si.

Junta-se a magia do mito, a magia do cinema romântico e a magia do acaso quotidiano. Um tanque explode, uma onda resvala e a mulher traída encontra num mergulhador sua nova paixão. De aí em diante, “Undine” transfigura-se numa inebriante história de amor, delineando o ideal amoroso da heroína e Christoph que é interpretado por Franz Rogowski com tanto carinho como delicadeza, tanto fulgor erótico como vulnerabilidade. Em suma, Petzold faz com que a sua audiência se apaixone por Christoph ao mesmo passo que Undine.

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A intromissão deste sonho de amor quebra o ritmo do filme e como que interrompe o desenrolar da história necessária da ondina vingativa. Por isso mesmo, forças da Natureza parecem conspirar contra a união, forçando a ninfa a agir como seu sangue a condenou. Há peixes gatos gigantes e ressurreição, o abandono como mercê e a memória da felicidade passada enquanto cicatriz do coração. Undine é Berlim, vinda das águas e dividida, mortificada pela violência e forçada a fazer escolhas penosas para preservar a sua humanidade.

Estas relações concetuais podem parecer inusitadas, mas Petzold faz com que sentido e lógica germine da confusão. Mais que tudo isso, o cineasta embala-nos de tal forma num feitiço romântico que é difícil não nos rendermos ao sentimento de “Undine”. Mesmo que estejamos à nora no que se refere à decifragem simbólica, somos imergidos pela torrente de paixão, corações partidos e devoção imortal. É daqueles filmes que, qual assombração, nos segue para fora do cinema, nos infeta o passamento e consome os sonhos com imagens de amantes perdidos num lago de perdição.

Undine, em análise
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Movie title: Undine

Date published: 25 de November de 2020

Director(s): Christian Petzold

Actor(s): Paula Beer, Franz Rogowski, Jacob Matschenz, Maryam Zaree, Anne Ratte-Polle, Enno Trebs

Genre: Drama, Fantasia, Romance, 2020, 91 min

  • Cláudio Alves - 78
  • José Vieira Mendes - 70
  • - 29
59

CONCLUSÃO:

Entre a alienação e a canção namoradora, “Undine” afirma-se como um filme que fascina, que seduz, que frustra, mas também apaixona.

O MELHOR: O cruzamento de arquitetura e mitologia, de amor e ressurreição. Isso e a charmosa prestação de Frank Rogowski.

O PIOR: A vagueza misteriosa de Beer é necessária para que a alquimia tonal funcione, mas, chegado o último ato da fita, sua abordagem prejudica a totalidade do drama.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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