"Decisão de Partir" | © Alambique Filmes

LEFFEST ’22 | Decisão de Partir, em análise

“Decisão de Partir” de Park Chan-wook é um apaixonante mistério, onde amor e morte dançam entrelaçados. Park Hae-il e Tang Wei protagonizam este filme, estreado mundialmente no Festival de Cannes onde valeu um prémio para Melhor Realizador. No 16º Lisbon & Sintra Film Festival, a obra marca antestreia portuguesa, integrando a seleção oficial Fora de Competição. Além do circuito comercial e dos festivais, “Decisão de Partir” também está bem alinhado para a temporada dos grandes galardões, sendo o representante da Coreia do Sul para os Óscares, na categoria de Melhor Filme Internacional.

Nas mãos de um mestre cineasta, não há detalhe supérfluo- até o papel de parede tem uma história para contar. Veja-se a imagem de uma misteriosa mulher, sozinha e misteriosa, no meio de uma sala coberta em motivos abstratos. Crispações de azul envolvem o espaço e a figura, formas repetidas até à infinidade. Mas que formas são elas? Serão ondas ou montanhas, o mar estilizado ou a montanha desenhada de Hokusai? Talvez sejam ambas, quiçá nenhuma dela. Porventura, poderão ser tudo isso e muito mais. Em “Decisão de Partir,” o papel de parede e a mulher são uma só ideia, justaposição de ambiguidades em tons celestes confundidos com verde-água.

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De acordo com um provérbio Confuciano ao qual o filme faz referência, o homem que admira o mar é sábio, enquanto o homem gentil admira a montanha. Outras traduções através das galáxias idiomáticas falam de benevolência e virtude, mas o cerne da questão mantém-se o mesmo. Serão estas partes complementares da mesma pessoa, um binário da natureza humana que, neste contexto cinematográfico, transcendem a especificidade do seu significado académico. A ideia de dualidade é transversal a toda a história contada por entre papéis de parede simbólicos, assim como a angústia de jamais compreender, na totalidade, o outrem.

A realidade da pessoa que não “eu” é impossível de discernir na plenitude e tentar conhecer a verdade absoluta sobre ela é missão sisífia. Como seres humanos, temos um impulso interno para encontrar ordem no caos, impondo lógica onde ela não existe. É por isso que tantas audiências consideram filmes como puzzles a resolver, procurando aquele entendimento profundo que, muito provavelmente, estará sempre fora do alcance. Cada pessoa é um mistério, mas isso não há que ser encarado como tragédia da condição humana. De certa perspetiva, ao invés de desespero, essa verdade universal é a maior beleza do mundo, é o rubro da paixão.

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Deste modo, Park Chan-wook faz da investigação sobre a morte uma das maiores histórias de amor do ano em cinema. A dualidade é a chave para o romance repensando pela visão do autor, unindo os géneros que, em teoria, seriam imperativamente separados. Numa narrativa recheada de cadáveres infestados por formigas necrófagas, encontramos os amantes eternos saídos diretamente da tradição do noir e do legado Hitchcockiano. São eles uma misteriosa viúva cujo marido morreu em situação suspeita e o detetive caricato que não dorme e passa a vida entre cidades, separando a esfera profissional da intimidade familiar.

O enredo é bizantino naquele estilo predileto do realizador. Passa-se mais de duas horas na companhia das personagens, mas não há nem um segundo desperdiçado. Por instantes aflitivos, até parece que não há tempo para respirar. Quando não são reviravoltas que nos roubam o fôlego, são visões de formalismo febril, alucinações de cor e música a arrebatar o espírito, o coração, a realidade da audiência. Há Mahler no ar e o ecrã enche-se de azul a cair no verde, luvas de latex laranja e cadernos pintados como obras-primas dignas de museu. Ver o filme é cair num poço sem fundo de estímulos sensoriais, é ser injetado com a glória do cinema em estado de graça.

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Há quase uma nota de histeria na loucura do grande ecrã e seu romance enlouquecido. Mas, afinal, não é essa a loucura de nos apaixonarmos? Na turbulência e confusão, “Decisão de Partir” mantém-se sempre fiel à ideia de que, acima do mistério sanguinário, seu âmago é o romance. A obsessão do investigador e da principal suspeita é um jogo de olhares e favores, refeições partilhadas e homicídio enquanto linguagem do amor. Trata-se de uma experiência vertiginosa e sentimos que, a qualquer momento, a loucura do mestre Park pode resvalar na catástrofe. Uma nora falseada e toda a sinfonia desaba em ruinosa cacofonia.

Dito isso, “Decisão de Partir” jamais se desintegra em tais maus lençóis. Pelo contrário, o tenor de sublime desejo e criatividade audiovisual mantém-se alto e estável até ao último minuto, quando mar e montanha se encontram numa tragédia romântica de trazer lágrima ao olho. De facto, tanto falamos de loucura que quiçá induzimos o leitor a pensar no filme como algo desprovido de disciplina ou rigor. O oposto acontece, sendo que, desde a performance ao cenário, tudo neste engenho trabalha com a perfeição mecânica de um relógio Suíço. Ora em conversas fragmentadas pela fantasia tecnológica ou na visceral companhia de pessoas apaixonadas cujas mãos se tocam em comunhão preciosa, “Decisão de Partir” é obra-prima, tão precisa quanto inebriante, tão cheia de violência como de prazer.

Decisão de Partir, em análise
decisao de partir critica leffest

Movie title: Heojil kyolshim

Date published: 20 de November de 2022

Director(s): Park Chan-wook

Actor(s): Park Hae-il, Tang Wei, Lee Jung-hyun, Go Kyung-pyo, Park Yong-woo, Kim Shin-young, Jung Young Sook, Teo Yoo, Jeong Min Park, Seo Hyun-woo, Hak-joo Lee, Jung Yi-seo,

Genre: Drama, Romance, Mistério, Crime, 2022, 139 min

  • Cláudio Alves - 90
  • Maggie Silva - 82
86

CONCLUSÃO:

Qual quimera de géneros suturados em jeito de união, “Decisão de Partir” usa o mistério homicida como veículo para explorar temas de obsessão, paixão, amor puro e duro. Trata-se de mais uma obra-prima de um dos maiores realizadores do cinema Sul-Coreano. Outrora conhecido pelos seus contos de vingança, diríamos que Park Chan-wook mais se afirma agora como um perito em romances do grande ecrã. Entre “Thirst,” “A Criada” e “Decisão de Partir,” o amor e morte são companheiros constantes.

O MELHOR: O engenho formalista de Park Chan-wook, as prestações sublimes de Tang Wei e Park Hae-il, o papel de parede também.

O PIOR: Nada a apontar, a não ser que, para algumas pessoas, o ritmo febril da fita e seu enredo bizantino podem induzir frustração. Quando parece que te perdeste nas vicissitudes da história, aconselhamos ao desligar da razão. Rende-te à emoção pura e experiencia a magia desta “Decisão de Partir.”

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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  1. Johanne Lacroix 21 de Novembro de 2022

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