foto de José Vieira Mendes

72º Festival de Cannes: Ruben Östlund ganha a Palma de Ouro 2022

O realizador sueco Ruben Östlund com ‘Triangle of Sadness’, contra todos os prognósticos é o vencedor-surpresa da Palma de Ouro 2022, com a sua corrosiva sátira anti-capitalista, sobre o mundo da moda e das aparências. O palmarès é surpreendente, sobretudo pelo número de prémios ex aequo. 

Já conhecemos, o vencedor da Palma de Ouro 2022: o sueco Ruben Östlund com ‘Triangle of Sadness’, mais uma sátira social, louca e inebriante do realizador de ‘O Quadrado’, que arranca pela segunda vez o prémio máximo do Festival de Cannes. E tal como acontece, quase sempre em anos anteriores, os barómetros da imprensa saíram todos ao lado, já que os prémios são estabelecidos por um júri de artistas, cuja química é tão misteriosa quanto imprevisível. O improvável, porém conciliador presidente do júri, Vincent Lindon, sentiu-se certamente quase como em casa, quando chegou à Croisette. Porém apesar de uns ‘jeitinhos’, os seus colegas acabaram por convencê-lo a fazer escolhas mais políticas e arriscadas, pese embora, um número exagerado de escolhas duplas, nos dois Prémios de Júri. O resultado é um palmarès um tanto inexplicável e incoerente, mas que pelo menos parece responder à diversidade deste grupo de jurados, com perfis e percursos bastante diferentes no cinema. Por nós afinal tanto faz, pois certo é que vimos muitos filmes, do francamente brilhante ao muito decepcionante, numa Competição, ao mesmo tempo equilibrada e gratificante, em termos de qualidade, para quem a acompanhou durante 12 longos dias. Esperemos que os filmes estreiem em breve e aqui ficam os vencedores: 

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VÊ TRAILER DE TRIANGLE OF SADNESS’

Palma de Ouro: Ruben Östlund por ‘Triangle of Sadness’

Palma de Ouro em 2017 com ‘O Quadrado’, o cineasta sueco Ruben Östlund nunca será um vencedor surpresa de um prémio, nos grandes festivais internacionais de cinema. Porém é surpreendente um realizador relativamente jovem, receber a segunda Palma de Ouro da sua carreira, num espaço tão curto de tempo. Efectivamente, esta sua visão das falhas da sociedade contemporânea é tão justa e corrosiva como as anteriores, incluindo Força Maior’, Prémio Un Certain Regard (2014). ‘Triangle of Sadness’ leva-nos num ‘cruzeiro alcoolizado’ para os super ricos, para onde uma influenciadora e o seu ciumento e bem parecido namorado foram convidados por um patrocinador, para passaram pelo melhor e pelo pior ao longo de umas horas ou dias. Não sabemos muito bem…Cada situação é bem pensada, cada linha de diálogo atinge uma marca,  sentimos o júbilo de quem está por detrás do teclado do computador — e o prazer e diversão, sobretudo de quem está por detrás da câmera e dos tantos excessos. Com todos os outros impensáveis prémios atribuídos em outras edições, não se pode dizer que seja uma injustiça atribuir a Palma de Ouro 2022, ao notável cineasta sueco. Ri-me bastante!

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Grande Prémio do Júri (ex aequo): 

VÊ TRAILER DE ‘CLOSE’

‘Close’ de Lukas Dhont

Este é apenas o segundo filme deste jovem realizador belga. Mas antes de começar o festival já se falava que esta obra de Lukas Dhont (31 anos) teria uma marca de maior, embora talvez tivesse sido excessivo dizê-lo e daí um certo favoritismo antecipado, que apontava aliás para a Palma de Ouro. Quatro anos depois de se ter revelado em Cannes com Girl, a história de uma bailarina clássica, nascida no corpo de um menino, o jovem realizador belga conta-nos agora um terrível drama que unirá Léo e Rémi para sempre. Cada silêncio, cada olhar, cada gesto estremece com uma emoção que prende o espectador, desde o primeiro segundo e continua por muito tempo depois da exibição. Pode ser um filme menor, infinitamente delicado, cruel e poético ao mesmo tempo, mas Close faz-nos lembrar o adolescente que todos nós já fomos, os primeiros toques e o despertar da sexualidade que por vezes se mistura com a amizade infantil. É um filme que, nos convida também a amar e a aceitar os nossos filhos, seja meninos, meninas (ou binários), tal como eles são. E não estou a ser politicamente correcto, mas apenas a pôr-me no meu papel de pai, que às vezes tem dificuldade em aceira isso.

VÊ TRAILER DE ‘STARS AT NOON’

‘Stars at Noon’, de Claire Denis

A eletricidade do desejo combinada com a experiência da perda, as divagações emocionais, os solavancos da paixão amorosa, são sulcos cavados pelo cinema de Claire Denis. Um cinema ligado aos corpos, atento aos seus contactos e às transferências de energia, muitas vezes inclinado a desenraizá-la, a projectá-la num horizonte distante. É o caso deste ‘Stars at Noon’,  feito a partir do romance homónimo de Denis Johnson (1949-2017), publicado em 1986, que tem como pano de fundo uma intriga geopolítica, misturando co espionagem industrial e interferências dos serviços secretos norte-americanos, num país da América Latina; e sobretudo a história de uma paixão avassaladora ou antes uma relação de conveniência, entre um casal lindíssimo, que se conhece num bar de hotel: a bela e explosiva Margaret Qualley e o tranquilo Joe Alwyn. Apesar de tudo ‘Stars at Noon’, é um filme que passaria decerto, ao lado de qualquer premiação, e nisso houve unanimidade de opiniões, excepto no júri decerto, não fosse os ‘compromissos’ entre os vários jurados e o presidente Vincent Lindon, que tem trabalhado com frequência com Claire Denis. Talvez por isso foi um dos prémios mais apupados da noite. 

VÊ TRAILER DE ‘DECISION TO LEAVE’

Prémio de Melhor Realizador: Park Chan-wook, por ‘Decision to Leave’

Como de costume, o realizador coreano Park Chan-wook investiu num jogo de manipulação hitchcockiano altamente ambivalente, propício a todas as inversões que lhe vêm à cabeça, sempre com aquela ideia: vejam com eu filmo muit’a bem e conheço os truque todos! Porém, o cineasta sul-coreano tem envelhecido em idade e tem crescido em força desde a sua Trilogia da Vingança (Sympathy for Mister Vengeance’, ‘Old Boy’, ‘Lady Vengeance), e o seu cinema está cada vez mais estiloso e sofisticado, continuando a piscar o olho à indústria de Hollywood ou às plataformas de streaming. Já em 2016, com A Criada canalizava o seu estilo frenético, numa espécie de quebra-cabeças narrativo elegantemente espelhado. ‘Decision to Leave’ vem confirmar esta sua tendência para prestidigitação, aventurando-se na terra dos thrillers pós-hitchcockianos, oferecendo-nos uma variação sobre o tema de ‘A Mulher Que Viveu Duas Vezes’ (‘Vertigo’,1958), onde a investigação policial carrega os motivos de um romance macabro e obsessão masculina. Sem ser um apreciador por aí além do filme, até compreendo este Prémio de Realização. 

VÊ TRAILER DE ‘TORI E LOKITA’

Prémio Especial do 75º Aniversário: Jean-Pierre e Luc Dardenne, por ‘Tori et Lokita’

Esta comovente exposição dos Irmãos Dardenne sobre o tema dos imigrantes que chegam à Europa, era apesar do material humano e do historial da dupla em Cannes, um dos filmes a quem nunca atribuiria um prémio. Porém, alguns de seus filmes mais recentes ficaram muito aquém da força dos seus trabalhos anteriores, que lhe  valeram as duas Palmas de Ouro e os vários prémios em Cannes. Pode-se dizer até que com ‘Tori et Lokita’, o seu cinema sai relativamente revigorado. E como em todos os filmes dos Dardenne, também neste nunca há uma pitada de retórica emocional fácil. Movendo-se, como sempre no politicamente comprometido e com um toque absoluto de realidade, este filme é sem dúvida um dos seus melhorzinhos dos últimos tempos, tendo em conta a sua fragilidade e as condições em que foi filmado, no meio da pandemia. A narrativa tensa e as comoventes interpretações dos dois jovens protagonistas não-profissionais, tornará esta história de ‘irmãos migrantes’ africanos, um dos seus sucessos mais visíveis para marcar estes tempo de crise e sobretudo da redonda 75º edição do Festival de Cannes. O júri com a conivência da direcção do festival, decidiu atribuir-lhes este prémio que homenageia, esta dupla belga, já septuagenária ou quase: Jean-Pierre (71 anos) e Luc (68 anos). Bem feito!

VER TRAILER ‘LES BONNE ÉTOILES’

Melhor Ator: Song Kang-ho por ‘Les bonne étoiles’, de Hirokasu Kore-eda

Les bonne étoiles’ (’Broker’), ou a história de dois homens e um bebé, do japonês Hirokasu Kore-eda (‘Shoplifters-Uma Família de Pequenos Ladrões’) é um filme sobre o tema do abandono de crianças, bem sobre a polémica da lei da adopção, na Coreia do Sul. Passa-se em Busan, por isso falado em coreano, onde se destaca de facto a interpretação do conhecido Song Kang-ho, — membro do júri do ano passado — a estrela de ‘Parasitas’ (Palma de Ouro, 2019) e agora Prémio de Melhor Actor Masculino 2022, estar bem acima da média, no seu papel do dono da lavandaria, que quer ganhar dinheiro com o imoral negócio de um bebé. Este prémio é justo, mas não deixa de ser surpreendente, o júri esquecer-se por exemplo do italiano Pierfrancesco Favino, e da sua irresistível e notável interpretação em ‘Nostalgia’, onde bastam algumas palavras dos diálogos, para que o actor, nos transmita de uma forma incrível, o estado emocional do seu misterioso e trágico personagem. São na verdade duas interpretações do outro mundo e dois filmes a não perder!

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75º Festival de Cannes | ‘Holy Spider’

VÊ TRAILER DE ‘HOLY SPIDER’

Melhor Atriz: Zahra Amir Ebrahimi em ‘Holy Spider’ ou ‘As Noites de Mashhad’

Inicialmente, o seu compatriota Ali Abbasi contratou-a como diretora do elenco ou casting, quase para lhe dar uma oportunidade de trabalho. E por um bom motivo: depois de ela ter fugido do seu país há 14 anos, por causa de um escândalo sexual terrível, que quase dava um filme — um vídeo pornográfico que circulou na internet e DVD — e que lhe interrompeu uma carreira promissora de actriz, Zahra Amir Ebrahimi quase desistiu de interpretar papéis principais, como os que tinha feito antes, em ‘Nargess’ (2006), por exemplo. Porém, o destino quis que fosse ela agora a interpretar a teimosa e corajosa jornalista de ‘Holy Spider’ que persegue um assassino em série de prostitutas, em fúria, nas ruas da cidade sagrada de Mashhad. É uma interpretação intensa e notável, que denuncia também, de passagem, a misoginia que permeia todas as camadas e instituições da sociedade iraniana, da imprensa à polícia, da religião aos tribunais.

VÊ TRAILER DE ‘BOY FROM HEAVEN’

Prémio de Argumento: ‘Boy From Heaven’ de Tarik Saleh

Em ‘Le Caire Confidential’, o realizador sueco de origem egípcia Tarik Saleh usou os códigos do film noir para contar determinados casos de corrupção de um sistema, que levou à revolta popular de 2010. Meio thriller, meio narrativa iniciática, ‘Boy From Heaven’ segue a história do filho de um pescador que é sincero e um pouco ingénuo, ao revelar-nos por seu intermédio, os bastidores da prestigiada Universidade Al-Azhar no Cairo, que forma a elite religiosa do seu país. Assistimos a tremendas lutas pelo poder, assassinatos e manipulações…entre a Segurança de Estado e os Imans da Universidade. É efectivamente um filme de entretenimento brilhante e inteligente, onde o suspense nos envolve constantemente e nos obriga a reflectir; é também um retrato pouco edificante do Egito contemporâneo, dividido entre o passado e o presente, em fundo com uma camisola do Liverpool, assinada por Mohamed Salah, pregada numa parede. E hoje por sinal realizou-se a noite da final da Liga dos Campeões em que Salah não foi o herói!

Prémio do Júri (ex aequo): 

75º Festival de Cannes
via Festival de Cannes

Jerzy Skolimowski por ‘EO’

Saindo do filme, provavelmente pensamos um pouco estupidamente como é incrível fazer-se um filme tão inventivo e tão curioso, quando se tem mais de 80 anos. E, no entanto, Jerzy Skolimowski realizou um verdadeiro truque de magia (e um ovo de Colombo) ao fazer de um burro um herói e uma personagem absolutamente cativante, neste conto cruel que denuncia o abuso de animais e a maldade humana que o acompanha, como já o fizera Robert Bresson em ‘Peregrinação Exemplar’ (1966). Enquadramento, música, edição —interpretação dos vários burros, ‘obrigado aos meus burros’, cerca de 6 e de várias nacionalidades, que mereciam um prémio de interpretação animal, além do que já existe para os cães — e portanto, também uma extraordinária e notável direção de um(s) extraordinários ator(es) de quatro patas: o grande cineasta polaco merece que se lhe tire o chapéu e se lhe faça uma vénia, já que forçado a desistir de vir à Croisette, apresentar o seu filme ‘EO’ após um acidente doméstico, mas já estava em grande forma e com um humor irresistível e sarcástico, na cerimónia de encerramento e para levar o seu prémio para casa.

VÊ TRAILER DE ‘THE EIGHT MONTAINS’

Charlotte Vadermeersch e Felix van Groeningen por ‘The Eight Montains’

A nossa vida, mudou bastante depois dos lockdowns e da pandemia: as amizades reduziriam-se à nossa bolha familiar, o nosso relacionamento ou o nosso crescimento ficou limitado. Até os elementos da natureza se alteraram profundamente, como as montanhas e o planeta. Resta-nos ainda saber se para melhor ou pior. Vivemos agora uma espécie de ‘novo normal’. Estas são algumas das questões abordadas, de uma forma muito serena e sincera, em ‘The Eight Mountains’ (‘Le Otto Montagne’), um filme também sobre a relação homem-natureza, do casal de belgas Felix van Groeningen (‘Ciclo Interrompido’) e Charlotte Vandermeersch, que arrancam aqui um importante Prémio do Júri a par com o mestre polaco Jerzy Skolimowski. E a emoção foi tanta que deu direito a um apaixonado beijo em palco, dela nele, que ficou visivelmente constrangido, na entrega do prémio. ‘The Eight Mountains’, é um ensaio sobre a amizade e sobre o sentido da vida, que se aproxima também de um conto de amadurecimento — pode ser comparável a ‘Close’, de Lucas Dhont —, que se passa ao longo de três décadas, também sobre dois rapazes italianos da mesma idade, de meios sociais muito diferentes — Pietro (Luca Marinelli de ‘Martin Eden’) e (Alessandro Borghi  da série ‘Devils’  — que ficam marcados para sempre, para a vida e a morte, a partir da reconstrução de uma velha casa de montanha. Muito bonito!

JVM, em Cannes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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