"A Comédia e a Vida" | © LEFFEST

LEFFEST ’20 | A Comédia e a Vida, em análise

Como parte da sua programação, o 14º Lisbon & Sintra Film Festival exibiu “A Comédia e a Vida” de Jean Renoir, também conhecido como “A Carroça de Ouro”. Este clássico de 1952 é um dos melhores filmes alguma vez feitos sobre o teatro e sobre a vida do ator.

Adaptado muito livremente a partir da peça “La Carrosse du Saint-Sacrement”, o primeiro filme na trilogia do espetáculo de Jean Renoir é uma embevecida homenagem à magia do teatro. “A Comédia e a Vida” passa-se no Peru do início do século XVIII, quando o vice-rei da colónia espanhola encomenda uma luxuosa carroça vinda da Europa. No dia em que a monstruosidade de talha doirada e refinamento barroco chega à povoação, também aparece uma trupe de atores italianos. Os dois viajaram desde o Velho Continente no mesmo navio rumo às Américas.

Maltratados e menosprezados, mal pagos e mal-amados, os atores da commedia dell’arte encantam os colonos e os locais com sua pantomima italiana, figurinos coloridos e estilo espampanante. De entre os artistas, a Columbina Camila afirma-se como a maior estrela. Numa noite em que a companhia é convidada a atuar para a corte do vice-rei, é ela quem mais encanta o governante, conquistando-lhe a paixão e o humor. Tanto assim é que, ao invés de presentear a carroça à sua amante aristocrata, ele decide oferecer o monumento doirado à atriz, causando escândalo e crispação política.

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Filmada pela primeira vez em reluzente cor, Anna Magnani dá vida a Camila e domina o ecrã com um magnetismo animal que não tem comparação na História do cinema. Ela era o tipo de estrela à volta da qual obras-primas podiam ser feitas, esculpindo sua imagem à semelhança da atriz. Há também que referir que este foi o primeiro grande projeto de Magnani em inglês, um idioma que ela sentia alguma dificuldade em falar, daí ter recusado a oferta para protagonizar a produção teatral da “Rosa Tatuada” de Tennessee Williams. Felizmente, em 1955, ela entraria no filme dessa peça e ganhou o Óscar pelo seu trabalho.

Vendo “A Comédia e a Vida” é fácil entender como é que os homens do filme se rendem apaixonados à fogosidade de Camila. Magnani seduz a câmara com deliciosa confiança, tornando até a sua ira incandescente num espetáculo de pirotecnia dramática. Sua trama é inspirada nas melodias de Vivaldi, na tradição do teatro italiano e no amor que Renoir tinha aos palcos, mas é Magnani quem define a Humanidade da personagem. De palhaça da rua a nobre pecadora, a diva romana transfigura-se diante dos nossos olhos, ornamentada em trajes desenhados por Maria De Matteis ela e seus colegas revelam a nobreza da sua vocação.

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Revelam também quanto o divertimento simples pode ser superior ao subtexto cerebral. Apesar de “A Comédia e a Vida” ter sempre alcançado mais sucesso entre intelectuais cinéfilos do que entre consumidores casuais, sua narrativa é um apelo à generosidade do espetador e do artista, à modesta virtude do entretenimento. Não há psicologias complicadas na história do filme e sua execução. O que há é a luxúria das cores, a emoção dos atores que se deixam arrebatar pela emoção, a pintura de luz e movimento que Renoir projeta no ecrã de cinema.

O ofício de entreter audiências, de fazer espetáculo e fingir ser-se quem não é tem a sua glória, mas também padece de amargura e melancolia. É a solidão daquele que vive sua máxima felicidade no lavoro do artifício. Ao longo da sua filmografia, Renoir sempre refletiu sobre a o que separa e une o falso e o real, a natureza humana e a natureza do faz de conta. Aqui, essa reflexão atinge o seu rubro numa conclusão agridoce, tão bela quanto comovente. A realidade do filme fecha-se no proscénio do palco e a cortina rubra desce, isolando a estrela para um derradeiro apelo ao coração do espetador.

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Camila e Magnani assim encerram o filme como santas padroeiras do teatro, um extraordinário gesto que comove ao mesmo tempo que canoniza. Renoir era um cineasta generoso e essa qualidade jorra por todo este clímax defronte da cortina vermelha. Camila regressa ao palco e vira costas à vida mundana, Magnani reconhece as limitações do seu espírito. Quem é ator, neste paradigma narrativo, só vive quando a audiência lhes está à frente e as palmas já se insinuam no ruído da multidão. Por isso mesmo, devemos aplaudir. Aplaudi-mos Camila e Magnani. Aplaudimos Renoir e este casamento glorioso entre a magia do teatro e a arte do cinema.

A Comédia e a Vida, em análise
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Movie title: Le Carrosse d'Or

Date published: 17 de November de 2020

Director(s): Jean Renoir

Actor(s): Anna Magnani, Odoardo Spadaro, Nada Fiorelli, Dante, Duncan Lamont, Elena Altieri, Jean Debucourt, William Tubbs

Genre: Comédia, Drama, História, 1952, 103 min

  • Cláudio Alves - 98
  • José Vieira Mendes - 90
94

CONCLUSÃO:

O teatro da vida torna-se na comédia do cinema e o palco transforma-se em ecrã. Antes de se aventurar pelos amores de “Elena e os Homens” ou a obsolescência poética do “Can-Can Francês”, Jean Renoir assinou em “A Comédia e a Vida” um dos seus mais belos trabalhos. Trata-se de uma obra maestra de um dos maiores mestres que a sétima arte já teve.

O MELHOR: A divina Magnani.

O PIOR: As tristes políticas raciais ilustradas pelos servos pretos e os plebeus indígenas. Isso pode ser fiel à realidade do século XVIII, mas não deixa de ser um travo amargo que estraga a doçura desta delícia cinematográfica.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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