LEFFEST ’22 | Corsage – Espírito Inquieto, em análise

“Corsage – Espírito Inquieto” de Marie Kreutzer causou sensação no Festival de Cannes, onde estreou na edição deste ano. Por essas terras gálicas, a ficcionalização sobre a Imperatriz Sissi competiu na secção Um Certain Regard e ganhou prémio de atuação para a sua atriz principal, Vicky Krieps. Em jeito de antestreia nacional, o filme chega a Portugal pela mão do 16º Lisbon & Sintra Film Festival, fazendo parte da programação não-competitiva. Ainda no que se refere a esses assuntos complicados da competição artística, “Corsage” irá representar a Áustria enquanto seleção oficial para o Óscar de Melhor Filme Internacional. Logo se vê se consegue garantir a tal nomeação para os maiores galardões de Hollywood.

Na banda-sonora, Camille canta triste melodia sobre uma mulher de fado trágico. A canção é “She Was” e a mensagem é clara, apelando à partida da figura fatídica, uma súplica pela fuga em jeito de salvação. Tantas vezes se repete a cantoria que a palavra “vai,” ou “go” no original anglófono, começa a esbater-se, perdendo significado até parecer algo mais próximo do som abstrato que da linguagem. Na mesma lógica, deixa de ser discurso para passar a um patamar acima disso, algo primordial como uma força da natureza que atua sobre a protagonista de “Corsage – Espírito Inquieto.” Ela é a célebre Elisabeth da Áustria, Imperatriz mais conhecida como Sissi.

Imortalizada por Romy Schneider em três clássicos dos anos 50 e mais uma desventura no “Luís da Baviera” assinado por Visconti, a figura histórica há muito se tornou mito. A realidade de comportamentos problemáticos e obsessões nocivas perde-se nas ponderações sobre uma princesa, mais fantasia que pessoa. As crispações políticas no cerne de um império dividido, a tragédia sobre sua prole e um triste fim às mãos de um radical são detalhes rasurados da imaginação pública de Sua Majestade. Em certa medida, Marie Kreutzer nada faz para contrariar essa desconexão entre a História e a persona recordada na mente coletiva. Por outro lado, faz tudo para desmantelar o mito, para fazer do ecrã janela para a interioridade de uma mulher em crise.

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© PRIS Audiovisuais

Para cumprir tal objetivo, a realizadora sustenta o filme sobre uma estratégia onde ficção se sobrepõe ao facto e a forma tudo faz para erguer um palácio de irrealidades que são mais verdadeiras que a verdade. Trata-se de uma fita estranha, um repúdio da tradição biográfica e da hagiografia típica de tais projetos. Nada melhor ilustra isso que os jogos visuais da cineasta, sua concretização de um mundo antigo e moderno, impossível simultaneidade tornada possível pelo cinema. Tal condição não é mais que a imposição da personagem sobre a história, seu âmago fraturado tornado regra estética. Repare-se como, a certa altura uma fiel dama de companhia compara a imperatriz a um museu desordenado, caótico até.

Assim ela define o espírito de Elisabeth e o engenho cinematográfico muito faz para orientar sua encenação em torno de tais ideias. Através de uma cornucópia de contradições patentes em cenários, cabelos, maquilhagem e figurinos, a equipa criativa evoca um mundo de texturas degradas onde o fausto imperial se tornou em ruína. O conceito da mulher coroada enquanto museu assim se prefigura numa série de espaços que realmente parecem galerias deixadas na pobreza pela falta de fundos, ou quiçá um palácio tornado monumento aberto ao povo e à devastação do tempo. Os atores assim se tornam em fantasmas, espectros perdidos numa era que não a sua.

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Desbravado esplendor real até que pouco ou nada dele resta, “Corsage” deixa-se definir por paredes rachadas e papel de parede descolado, manchas de bolor pintando murais palimpsésticos enquanto as sombras de quadros ausentes descoloram sedas adamascadas. O espetador atento irá também reparar nos muitos erros deliberados, esses objetos desadequados para uma história passada muito especificamente no inverno de 1878. Em primeiro lugar, há luz elétrica por todo o lado, inclusive monitores e sinais de emergência, portas modernas e esfregonas de plástico deixadas ao canto. Nos exteriores, linhas telefónicas e elétricas cortam a paisagem natural, um mundo tocado pela modernidade a servir de palco para história passada.

Estamos num edifício fílmico tão disfuncional como a sua heroína de eleição, um lugar que parece caminhar uma linha sinuosa entre o corriqueiro e o surreal. Nem se fala da imagem das personalidades históricas, trucidados pelo artifício admitido até que nem a pilosidade facial se assume verdadeira. O mecanismo é quase brechtiano, fazendo referência a iconografias bem conhecidas para depois as desconstruir e subverter. Talvez até as queira aniquilar, partindo o crânio da história feita lenda, para expor miolos sangrentos e eles contemplar num êxtase destrutivo. Só que, esse impulso também é ele um paradoxo, querendo estilhaçar Sissi no mesmo gesto em que a vai salvar.

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© PRIS Audiovisuais

Não podia a trama se resolver de outra forma que não na fuga, na final resposta àquele apelo da música repetida ad nauseam. A aniquilação própria transforma-se de exercício formalista em missão da pessoa, dando repentina estrutura a um filme que, até então, parecia desprovido de enredo propriamente dito. A Imperatriz tem de fugir de si mesma, do papel simbólico e matrimonial, da responsabilidade de mãe e amante, de ícone belo e reclusa mal-encarada. Ela que quer ser vista para sentir o amor alheio também se sente dorida pelo olhar alheio, ela que é uma coisa e seu oposto. De alguma forma, tudo faz sentido, mesmo que seja aquele tipo de razão irracional que se diz absurda.

O mundo está de pernas para o ar chegados os últimos momentos de “Corsage,” a tragédia vestida de final feliz. Vicky Krieps esta confusão segura com uma prestação incrível, sempre em perfeita sintonia com a excentricidade calculada de Kreutzer atrás das câmaras. O filme é da autoria das duas mulheres, comungadas pela vontade de partir a loiça toda e cuspir nos preceitos da História mal contada no grande ecrã. A atriz dá o corpo ao manifesto e deixa-se contorcer nos epítetos da expressão desafogada, um desassossego interior que o artifício externaliza. Nas mãos dela, a ficção é a rebeldia derradeira, descontextualizando a loucura até esta ser indissociável da sanidade. Rendendo-se ao grande vazio, ao fim de tudo, “Corsage” e sua Sissi encontram a paz de espírito.

Corsage - Espírito Inquieto, em análise
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Movie title: Corsage

Date published: 18 de November de 2022

Director(s): Jerzy Skolimowski

Actor(s): Vicky Krieps, Florian Teichtmeister, Aaron Friesz, Colin Morgan, Alma Hasun, Katharina Lorenz, Jeanne Werner, Manuel Rubey, Ivana Urban, Finnegan Oldfield, Regina Fritsch

Genre: Drama, Biografia, História, 2022, 113 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

Falar verdade a mentir é o lema de “Corsage – Espírito Inquieto,” obra representante da Áustria nos Óscares e resoluta rejeição do biopic tradicional. Depois da “Linha Fantasma,” Vicky Krieps junta mais uma joia à sua coroa de performance, enquanto a realizadora Marie Kreutzer se afirma enquanto voz criativa de impor respeito e inspirar admiração. Adoramos ver o mito desfeito, espezinhado e reconfigurado com um salto para o escuro e o desapertar do espartilho.

O MELHOR: A cenografia deliberadamente anacrónica é um deleite. Também louvamos a prestação de Krieps e a visão de Kreutzer, sua obstinada convicção e o modo como tomam riscos com temas, texto e abordagem audiovisual.

O PIOR: Uma estrutura concebida para não ter ritmo até ao seu último ato peca pela frustração, sendo difícil para o espetador se agarrar ao filme numa primeira visualização. Acreditamos que, em retrospetiva, o aparato é mais discernível, seu objetivo mais claro desde as primeiras notas de Camille na banda-sonora.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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