LEFFEST ’17 | A Hora Mais Negra, em análise

Em “A Hora Mais Negra”, Gary Oldman transforma-se em Winston Churchill e o realizador Joe Wright traz eletrizante doses de criatividade formal a um filme de prestígio meio corriqueiro. Este foi um dos filmes a serem exibidos, fora de competição, no mais recente Lisbon & Sintra Film Festival.

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Há poucos subgéneros cinematográficos tão odiosamente ossificados por convenções e fórmulas do que o filme biográfico. Quando o Inverno se começa a aproximar e com ele o auge da temporada dos prémios, os cinemas são inundados pelo pior tipo de filme biográfico, aquele que parece ter sido produzido com o singular intuito de ganhar Óscares. A parte mais infeliz de tudo isto é que, normalmente, tais intenções acabam por efetivamente resultar em nomeações e troféus concedidos a poços sem fundo de mediocridade fílmica, que, com o passar do tempo, só vão tornando mais risível a ideia de que os prémios da Academia são o produto final de um sistema meritocrático. Com efeito, já todos os especialistas apontaram para “A Hora Mais Negra”, um filme biográfico sobre Winston Churchill durante o seu primeiro mês enquanto primeiro-ministro da Grã-Bretanha em plena 2ª Guerra Mundial, como o imparável futuro vencedor do Óscar de Melhor Ator para a sua estrela, Gary Oldman.

De facto, a transformação do ator que outrora imortalizou Sid Vicious, Drácula e George Smiley no grande ecrã é notável. No entanto, é justo dizer que grande parte dessa transformação não se deverá tanto ao trabalho mimético do ator, mas sim aos esforços hercúleos de Kazuhiro Tsuji, cuja maquilhagem prostética é tão mais miraculosa pela sua orgânica falta de conspicuidade. Quem não conhecer o ator poderá mesmo pensar que Oldman exibe, na vida real, o tipo de possante corpulência associada à icónica imagem de Winston Churchill e nesse aspeto sim, convém louvar a fisicalidade do seu trabalho por baixo das camadas de maquilhagem. Nas mãos de Oldman, o antigo primeiro-ministro da Grã-Bretanha é uma figura de vocífera teatralidade e ainda mais esmagadora presença física, o que certamente não é algo inapropriado para um homem que, estando ou não apaixonado pela sua própria voz, era um espetacular declamador de monólogos no palco político.

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Para bem dizer a verdade, os grandes problemas na caracterização de Churchill são mais produtos do argumento de Anthony McCarten do que das escolhas interpretativas de Oldman. Como seria de esperar num filme biográfico deste prestígio e rarefeitos níveis de autoimportância, “A Hora Mais Negra” propõe uma visão diabolicamente simplista da sua figura central, posicionando o retrato de Winston Churchill no contexto de uma crise política em que, graças ao nosso conhecimento de factos históricos que transcendem a realidade das personagens, o primeiro-ministro está sempre heroicamente certo. De facto, por muito que o texto tente, perto do final da narrativa, sublinhar como um bom líder é aquele que duvida, tudo o que aconteceu previamente torna tal ideia insustentável. Na verdade, encarando toda a tese histórico-política do filme sem qualquer tipo de reflexão crítica, pode levar à conclusão que o melhor que poderia ter acontecido ao Reino Unido seria que Churchill se pudesse ter mantido no poder como um déspota imortal.

Tais conclusões podem trespassar uma falta de generosidade extremamente cínica, mas, no clima político atual em que a sociedade inglesa se encontra, a celebração unidimensional de Churchill enquanto um líder heroico, cujos grandes erros foram precisamente a vacilação face às pressões de outras forças políticas, é, no mínimo, a manifestação de uma ingenuidade perigosa. No pior dos casos, este filme pode surgir como uma cristalização do tipo de nostalgia histórica envolta em meloso patriotismo que tanto os apoiantes do Brexit têm vindo a celebrar como parte da sua causa. Filmes biográficos em busca de Óscares são, segundo a norma, obras deliberadamente apolíticas, mas, como bem sabemos, tal conceito não existe. Afinal, até a deliberada tentativa de criar algo apolítico é a manifestação de uma intenção política, pelo que considerar “A Hora Mais Negra” nesse tipo de retórica não é somente justificável, como amplamente necessário.

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Anteriormente em 2017, outros dois filmes estrearam com temas e focos narrativos muito próximos de “A Hora Mais Negra”. Um deles foi “Churchill”, outro docudrama sobre o antigo primeiro-ministro britânico no meio de uma crise política. Esse filme protagonizado por Charlie Cox, ao contrário da obra em análise neste texto, focava-se nas preparações para o Dia D e realmente demonstrava uma exploração crítica da figura de Churchill enquanto líder de uma nação em guerra. Aí, a dúvida não é tanto um percalço na história de Churchill, como um objeto de estudo e ponderação. O outro filme em questão foi “Dunkirk” de Christopher Nolan, outra mostra de cinema histórico supostamente despido de um discurso político ao mesmo tempo que explode em inspirador patriotismo britânico. “A Hora Mais Negra”, como se pode entender nestas descrições, é muito mais próximo do filme de Nolan, que é outro forte candidato aos Óscares, que à outra biografia filmada de Churchill. Tal comparação, no entanto, não se restringe somente à sua conceção ideológica, abrangido também a construção formal dos filmes.

Tal como “Dunkirk”, “A Hora Mais Negra” é um espetáculo cinematográfico de grande polidez e vistosa precisão. É certo que este filme não segue o mesmo tipo de imersão sensorial promovida por Nolan e companhia, mas há algo de deliciosamente floreado no modo como o realizador Joe Wright filma aquilo que, nas mãos de outro cineasta, poderia ter sido o equivalente estético de uma respeitosa minissérie da BBC. Longe de televisual, “A Hora Mais Negra” é uma experiência quase delirante com o potencial imagético do cinema, exibindo níveis de criatividade formal normalmente ausentes do cinema biográfico. Vejam-se, por exemplo, os exageros teatrais da fotografia de Bruno Delbonnel, que tão depressa ilumina o Parlamento com um ostentoso feixe de luz a rasgar a atmosfera enfumarada, como deixa a câmara voar pelos cenários em elaboradas coreografias ou torna uma viagem de elevador numa espécie de mistura entre o chiaroscuro do film noir e o dramatismo gráfico de uma ilustração de banda-desenhada.

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Para além disso, na sua direção de atores e uso de música, Wright consegue evitar a solenidade sufocante de projetos como “The Crown”, encontrando ocasionais rasgos de comédia nas insólitas cerimónias e costumes que dão tanta pompa e circunstância às hierarquias do poder britânico. Os atores são também uma parte fulcral de tal maleabilidade tonal, sendo capazes de injetar humor na narrativa sem sacrificar a crescente tensão exigida pela estrutura reminiscente de um thriller que o guião exibe. O retrato do Rei George IV por Ben Mendelsohn merece especial destaque e louvor, conseguindo o ator australiano criar uma versão sua de uma personagem que já viu uma insólita quantidade de interpretações premiadas nos passados anos. Aqui, o monarca é alguém cuja experiência e relutante posição no centro do teatro político deram origem a uma presença de grande quietude e reticente cautela.

No final, “A Hora Mais Negra” não consegue totalmente superar as fragilidades concetuais do seu argumento, mas a concretização cinematográfica desse texto quase que ofusca quão problemático ele efetivamente é. Veja-se, por exemplo, aquela que é simultaneamente a melhor e pior cena do filme. Aí, virando as costas a qualquer verissimilitude histórica, o filme leva Churchill a fazer uma viagem de metro, onde o político tem uma conversa inspiradora com os passageiros, incluindo crianças e um homem preto, que parece ter uma relação potencialmente íntima com uma mulher caucasiana. Aí, Churchill parece um homem cansado, um humilde homem a tentar salvar o país que tanto ama e seria difícil afirmar que não é prazeroso admirar este minidrama confinado ao interior de uma carruagem de metro dos anos 40 perfeitamente recriada, belissimamente iluminada, cheia de bons atores com figurinos tão históricos como elegantes. Tudo isto é agradável e deleitoso, mas é também uma preocupante mostra de como o filme torna perigosamente sacarina a figura histórica de Winston Churchill, cuja realidade está bem distante deste avô heroico e chorosamente sentimental.

 

A Hora Mais Negra, em análise
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Movie title: Darkest Hour

Date published: 2017-11-27

Director(s): Joe Wright

Actor(s): Gary Oldman, Lily James, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Stephen Dillane, Ronald Pickup

Genre: Biografia, Drama, História , Guerra, 2017, 125 min

  • Claudio Alves - 67
  • Daniel Rodrigues - 55
  • José Vieira Mendes - 60
  • Filipa Machado - 65
62

CONCLUSÃO

Como acontece com muitos filmes biográficos que estreiam durante a temporada dos prémios de cinema, “A Hora Mais Negra” é vítima de um argumento demasiado simplista. Com isso dito, a atitude formalmente inventiva do seu realizador e o virtuosismo latente a toda a equipa do filme quase que compensam todas as fragilidades textuais em evidência.

O MELHOR: A opulência formal que Joe Wright traz ao filme, mantendo-se fiel a uma estética pessoal que sempre primou pela sua inebriante rendição aos mais vistosos excessos estilísticos imagináveis para este tipo de projeto.

O PIOR: O revisionismo histórico latente a muita da narrativa que se torna particularmente óbvio na cena no metro.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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