LEFFEST ’17 | Lucky, em análise

Lucky”, a estreia de John Carroll Lynch na cadeira de realizador, é o último projeto do falecido Harry Dean Stanton e, depois de ter sido premidado em Locarno, está agora em competição no 11º Lisbon & Sintra Film Festival.

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Lucky é um veterano da 2ª Guerra Mundial, com 89 anos, que vive sozinho numa comunidade situada algures no deserto do Arizona. Lucky tem uma rotina. Todos os dias ele acorda, faz a barba, lava os dentes e faz exercícios de ioga em roupa interior. Depois vai beber café cheio de natas e açúcar a um restaurante local, onde o cozinheiro e uma empregada o tratam quase como família. Mais tarde, passa pela mercearia de uma senhora mexicana simpática, que tem um filho chamado Juan a quem Lucky chama “Juan Wayne”, e aí compra o tabaco que sustenta um hábito de um maço por dia. De volta a casa, ele vê televisão, programas antigos e concursos e, por vezes, pesquisa palavras que não conhece num dicionário que mantém num púlpito iluminado. O fim do dia é passado no bar favorito, onde se discutem banalidades e perguntas existenciais, o destino de uma tartaruga fugitiva e mortalidade.

Como todos nós e a maioria das personagens do cinema narrativo mundial, Lucky está a envelhecer e um dia vai morrer. Ao contrário do resto mundo, Lucky é encarnado por Harry Dean Stanton.

Em muitos outros filmes e com outros atores, tal detalhe poderia ser somente um pormenor de casting negligenciável e sem grande impacto na estrutura do projeto em geral. Em “Lucky”, a presença de Stanton é a raison d’être para a existência de tudo o que vemos no ecrã, podendo o filme ser justamente descrito como uma meditação sobre a persona cinematográfica do ator e seu legado no panorama do cinema americano. O facto de este ser o último filme do ator, que morreu antes da estreia de “Lucky”, é incrivelmente apto e apenas sublinha quão a estreia do ator John Carroll Lynch na realização está embriagado com a presença moribunda desta estrela do cinema independente dos EUA. Todo o casting, cenários, localização e referências do diálogo parecem nascer de uma referência a um antigo projeto do seu ator principal. O cúmulo de tal jogo manifesta-se quando este antigo rei do cinema realista americano pesquisa no dicionário a definição do conceito “realismo” e mais tarde o discute com os companheiros de bar.

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A centralidade de Stanton, que quase nunca sai da vista do espetador, poderá revelar-se um pouco mórbida para alguns. Afinal, esta é uma narrativa sobre um homem a confrontar a sua mortalidade ao mesmo tempo que é um filme assombrado pela morte do seu lendário protagonista. Para quem consiga ultrapassar tal estranheza, o triste fim de Stanton acaba por se transformar numa mais valia para “Lucky”, sombreando todos os seus momentos com a iminente negrura da morte de uma forma imediata que seria muito mais abstrata noutras circunstâncias. A cada movimento custoso do corpo de Stanton, cada maravilhoso monólogo, deliciosa mostra de timing cómico e olhar cansado, o espetador é lembrado da efemeridade da vida que vê em cena, mas o milagre de “Lucky” está na qualidade celebrativa que isso proporciona. “Lucky” é um filme definido pela sombra da morte, mas o seu sujeito é a vida celebrada e imortalizada no cinema, esse grande mausoléu de fantasmas de celuloide.

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Lucky teme a morte e isso é algo que lhe custa admitir. Ele sente-se traído por um corpo que, por nenhuma outra razão que não a sua idade, se está a deteriorar de forma progressiva e imparável. Ele pondera sobre escolhas feitas no passado longínquo, sobre oportunidades perdidas e faz luto a vidas que poderia ter vivido, mas não viveu. No entanto, nada disso faz de “Lucky” um filme pesado ou trágico. Como dissemos previamente, esta é uma celebração da vida, uma celebração de Harry Dean Stanton, cuja presença insufla a história modesta de Lucky e seu definhar com o humanismo eletrizante que há décadas ele traz a projetos tão díspares como “Alien”, “Paris, Texas” e “Um Coração Selvagem”. O diretor de fotografia Tim Suhrstedt, por exemplo, parece ter encarado o projeto como uma oportunidade para tratar a face de Stanton como uma das grandes paisagens do cinema americano, encontrando nas rugas cavadas a beleza natural dos épicos aventurosos de John Ford.

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Tirando essa intoxicante variedade de grandes planos de Stanton, ora banhado em luz rubra, ora pintado de perfil por uma linha sinuosa de claridade lunar, o filme de John Carroll Lynch é de uma modéstia formal extrema, preferindo ser submisso à presença transformativa do seu centro humano. Mesmo no panorama sónico, a banda-sonora de Elvis Kuehn e as várias escolhas musicais vibram com uma simplicidade intencional, que assim melhor realça e emoldura a maravilha de Lucky a cantar em castelhano ao som de uma banda mariachi.

O elenco secundário de “Lucky” é menos modesto que a sua construção formal, não por qualquer questão de registo, mas sim pela conspicuidade das faces em cena. David Lynch, por exemplo, é um dos companheiros de bar da personagem titular e muitas das ponderações sobre mortalidade florescem do seu dilema – a tartaruga de estimação centenária chamada Presidente Roosevelt fugiu de casa e não há maneira de a encontrar. Tom Skerritt e Beth Grant dão energia vocífera às cenas noturnas. Barry Shabaka Henley traz a sua habitual e muito amistosa solenidade aos interlúdios passados no café. Estes e outros são pessoas que ou trabalharam no passado com Stanton ou assíduas figuras do cinema independente americano, outrora personificado no corpo e face do próprio Stanton.

Nenhuma das conclusões ou reflexões de “Lucky”, nem mesmo aquelas nascidas do drama da tartaruga fugitiva, é de algum modo original ou surpreendente. Isso não as torna menos genuínas ou verdadeiras, no entanto. Este é um pequeno retrato de personagem humanista e há algo de belo na sua falta de ambição e necessidade de ser vistoso. O espetador sai do cinema com a impressão que viu a figura de Stanton transmutar-se num filme de 88 minutos, tão realista, modesto e tão desprovido de sinais de esforço como as suas melhores prestações, um título facilmente atribuído também a este seu último triunfo em “Lucky”.

Lucky , em análise
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Movie title: Lucky

Date published: 18 de November de 2017

Director(s): John Carroll Lynch

Actor(s): Harry dean Stanton, David Lynch, Ed Begley Jr., Ron Livingston, Tom Skerrit, Beth Grant, Barry Shabaka Henley, Yvonne Huff, Ana Mercedes

Genre: Drama, 2017, 88 min

  • Claudio Alves - 80
  • Daniel Rodrigues - 75
78

CONCLUSÃO

Como uma elegia cinematográfica a Harry Dean Stanton, “Lucky” seria dificilmente melhorado. Como modesta celebração da sua presença em cinema e do seu carisma inconfundível, este é um triunfo insuperável. John Carroll Lynch tem razões amplas para se orgulhar do seu primeiro trabalho como realizador.

O MELHOR: Harry Dean Stanton, sua presença, seu legado, sua prestação, sua essência cristalizada pela câmara.

O PIOR: O modo como o filme explora o ateísmo de Lucky e o modo como isso afeta a sua desconsolada confrontação com a própria mortalidade é feito de modo elegante. No entanto, as questões despertadas por tal exploração parecem pedir ainda mais, talvez um filme separado e não tão consumido pela gigantesca presença do seu protagonista.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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