LEFFEST ’17 | O Quadrado, em análise

O Quadrado” do sueco Ruben Östlund é uma ambiciosa sátira ao mundo da arte contemporânea e elites liberais, que, após ganhar a Palme d’Or em Cannes chega ao Lisbon & Sintra Film Festival, na secção fora de competição.

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“O Quadrado é um santuário de confiança e solidariedade. Dentro dele, todos partilhamos todos os direitos e obrigações.” Esta á mensagem utópica que acompanha a instalação de um quadrado definido por linhas luminosas em frente à entrada principal daquele que outrora foi O Museu Real de Estocolmo, mas que, no filme que valeu a Palma de Ouro a Ruben Östlund, foi convertido no X-Royal, um museu dedicado às últimas vanguardas no panorama da arte contemporânea. Esta é também a mensagem moral e social à volta da qual a vida do curador do museu se desmorona, numa precipitação de ironias e hipocrisias que oscilam entre o absurdo e o trágico com desconcertante velocidade, por vezes dentro da mesma cena.

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Quando o conhecemos, Christian está longe de apresentar a imagem respeitável de um erudito curador de museu. Na verdade, descobrimo-lo de ressaca, com as roupas amarrotadas, a postura cansada e os olhos nublosos com a desatenção típica de uma noite passada nos copos e a dormir num sofá desconfortável. A festa em si nunca é vista, somente ouvida como prelúdio sónico à primeira imagem do filme, mas os seus efeitos são sentidos no corpo e atitude do protagonista, que é acordado pela sua secretária para uma entrevista com uma jornalista americana. Ele lá se prepara e tenta transmitir a imagem de um profissional, mas as suas respostas durante a (incrivelmente breve) entrevista revelam cansaço e confusão. Face à leitura de uma mistura quase ininteligível de ponderações sobre o que é exibível num museu, que a jornalista retirou do site oficial do museu, ele praticamente não consegue responder. Afinal o que é arte? Se ele pegasse na mala da sua interrogadora e a deixasse no chão do museu, isso faria dela arte?

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Em poucos minutos Östlunf estabelece assim os dois principais alvos da sua crítica, análise e dissecação absurdista: o potencial tragicómico da masculinidade entre as elites liberais e intelectuais urbanas, assim como o ridículo pretensioso, contraditório e ocasionalmente vácuo do mundo da arte contemporânea. Independentemente da inteligência e coerência com que o cineasta sueco explora ambos os temas, uma coisa é certa: Östlund é um genial construtor de cenas memoráveis, sequências que gradualmente caem nas profundezas da irracionalidade humana e imagens inebriadas de significado chocantemente explícito e entendido com um mero vislumbre do espetador.

Já descrevemos o modo como o realizador apresenta a audiência ao seu protagonista, mas essa está longe de ser a única sequência de génio em todo o filme. Existe, por exemplo, a construção do quadrado titular que é antecedido pela desastrosa remoção de uma estátua equestre do átrio do museu, que resulta na decapitação da sua figura humana. Temos também uma cena de sexo cujos níveis de desconforto e anti erotismo parecem transcender os limites da compreensão humana, mesmo descontando uma discussão em volta do direito de deitar fora um preservativo usado ou a inesperada (e nunca explicada) presença de um chimpanzé.

Infelizmente, este talento nem sempre é benéfico para o seu filme, que, há que destacar, tem quase duas horas e meia. Essa duração nunca é justificada pelo argumento, pelas ideias do filme ou pela construção cénica, que acaba por dar ao projeto a aparência de uma colagem de estupendas sequências organizados de modo meio aleatório e sem terem qualquer tipo de diálogo umas com as outras. O melhor exemplo de tal fenómeno é a cena de onde vem a imagem principal da campanha promocional do filme.

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Aquando de um jantar de angariação de fundos, que está a ser feito no seguimento de um escândalo sem precedentes na história da instituição, uma performance violenta, em que o artista se comporta como um animal selvagem e interage com os convidados, transcende a tolerância de até o mais devoto fã de teatro imersivo e acaba com o homem-animal a ser espancado pelos espetadores assediados. Nunca há nenhum seguimento lógico desta cena, é como se nunca tivesse ocorrido e tudo o que precedeu o momento na narrativa não parece ter influência no comportamento de nenhuma das personagens. Em suma, é como se esta fosse uma curta-metragem desconexa no meio de um filme cheio de outras tantas passagens igualmente incongruentes.

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Outro problema na construção cénica e concetual desta obra acontece quando a hipocrisia a ser criticada pelo texto, acaba por se manifestar na própria construção fílmica. Para promover a sua mais recente exposição, o museu contrata especialistas em marketing que concebem um vídeo obsceno em que uma criança sem abrigo, loira e amorosa, entra no quadrado a suplicar por auxílio e acaba por ser aniquilada por uma explosão dentro dessa área de idealizada paz e justiça social. Isto, e todas as críticas que se seguem dentro do mundo da narrativa, ocorrem num filme a rebentar pelas costuras em tableaux que usam os sem-abrigos como símbolos desumanos, como máxima indicação da hipocrisia das elites liberais e até dos ativistas privilegiados que, à porta do metro, pedem assinaturas nas suas petições enquanto se mantêm cegos aos seres humanos a morrer à fome na sua periferia.

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Também infeliz é o modo como Östlund recorrentemente filma a degradação moral de Christian através de iconografia associada com sem-abrigos, como um homem a remexer no lixo, a dormir no espaço público ou a solicitar a ajuda nunca dada das outras pessoas à sua volta. Felizmente o cineasta tem Claes Bang no papel do curador e o ator traz exasperantes doses de humanidade imperfeita à sua personagem, complicando o próprio texto e dando vida eletrizante aos seus epítetos mais dramáticos e insanos. Se não fosse o ator, o esqueleto dramático de “O Quadrado”, que envolve o roubo de um telemóvel, sua recuperação e as consequências das ações justiceiras de Christian, nunca teria a surpreendente mistura de acidez e empatia que revela na sua forma final.

Pela sua parte, o cenógrafo Josefin Åsberg concebe cortantes paródias reminiscentes de uma serie de artistas como Ai Wei Wei, roubando o seu trabalho de significado e valor, mas a sua conceção da exposição em que o Quadrado se insere é quase boa demais para o filme. Um pedido feito ao visitante e escrito no chão da exposição, após uma questão difícil na porta de entrada, é algo que realmente parece ter o potencial de enervar a sua audiência, por muito cliché que seja. O filme “O Quadrado”, pelo contrário, é ideologicamente hermético, recusando-se a criar diálogo com quem quer que possa ter uma opinião já não desenvolvida dentro da sátira tragicómica levada a cena.

O Quadrado , em análise
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Movie title: The Square

Date published: 2017-11-18

Director(s): Ruben Östlund

Actor(s): Claes Bang, Elisabeth Moss, Domininc West, Terry Notary, Christopher Læssø, Marina Schiptjenko

Genre: Comédia, Drama, 2017, 142 min

  • Claudio Alves - 68
  • José Vieira Mendes - 80
  • Daniel Rodrigues - 65
71

CONCLUSÃO

“O Quadrado” é um filme que parece mais intelectualmente estimulante do que acaba por ser, exibindo claros limites concetuais inerentes à própria fricção entre texto satírico e sua materialização. Mesmo assim, a sua crítica à hipocrisia liberal de muitas elites, especialmente no panorama do privilégio masculino, é gratificantemente aguçada.

O MELHOR: O desempenho de Claes Bang.

O PIOR: No que diz respeito à crítica ao mundo da arte, Östlund não é mais consistente ou coerente que na sua crítica social. Por muito que “O Quadrado” seja genuinamente hilariante na sua exploração do absurdo inerente a certas facetas da arte contemporânea, seus admiradores e criadores, as obras expostas como ridículas dentro do próprio filme conseguem ser mais coerentes, concetualmente desafiantes e interessantes que a obra cinematográfica que as contem e tenta ridicularizar.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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