"Um Herói" | © LEFFEST

LEFFEST ’21 | Um Herói, em análise

“Um Herói” estreou no Festival de Cannes onde ganhou o Grande Prémio do Júri e foi comprado pela Amazon. Mais tarde, o filme de Asghar Farhadi viria a tornar-se no candidato aos Óscares do Irão. Se ganhar, este será o terceiro vencedor para Melhor Filme Internacional com realização de Farhadi, vindo no seguimento de “Uma Separação” e “O Vendedor”. Na sua chegada aos cinemas portugueses, o drama teve antestreia no Lisbon & Sintra Film Festival.

Mentiras triviais, pequenos detalhes omitidos ou ilusões piedosas, acumulam-se como flocos de neve no sopé de uma montanha. Pouco a pouco, cresce a massa gelada, intensifica-se o seu peso esmagador. Antes de darmos por isso, já se desencadeou uma avalanche e não temos escapatória. Vamos ser esmagados, sufocados. Vamos morrer, sem ar e sem salvação. Em certa medida, assim são todos os filmes de Asghar Farhadi, mestre do cinema enquanto máquina de tensão acumulada, estudos sociais que transcendem o Kafkiano para chegarem a profundezas sisífias. “Um Herói” não foge à regra, exemplificando o estilo do autor na sua plenitude.

A trama centra-se em Rahim, homem condenado à prisão pela dívida. Em tempos, um empréstimo não pago, um projeto que caiu por terra, um apelo traiçoeiro aos agiotas, traçou o fado desafortunado deste protagonista atrás das grades. Dito isso, quando o conhecemos, Rahim mal consegue esconder o sorriso. Livre por dois dias, ele sai da prisão cheio de genica, de esperança e a alegria de quem julga ter encontrado solução para todos os problemas da vida. Farhadi não nos dá toda a informação de bandeja, deixando que a ação se desenrole naturalmente e assim revele seus detalhes. Acontece que, em jeito de milagre, a namorado do presidiário encontrou uma mala caída na paragem de autocarro.

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A mala está cheia de ouro capaz de saldar metade da dívida. Contudo, uma caneta sem tinta e a estimativa sovina do ourives, atrasam a venda do tesouro. A confrontação com o credor só complica a situação, pois o homem de negócios recusa-se a aceitar uma quantia parcial. Ressentido e furioso pela perda monetária que lhe custou o dote da filha, o Sr. Bahram não concede o que quer que seja, nem face ao desespero desnudo de Rahim. Num acesso de moralidade, o protagonista decide que não vale a pena vender as moedas. De facto, ele e a amada deveriam tentar devolvê-lo ao proprietário. Infelizmente, por muito bem-intencionada que seja a vontade, Rahim depressa vai aprender uma lição cruel.

No cosmos deste filme, “achado não é roubado” é um mantra a seguir para quem não quer ver a vida destruída. O criminoso benfeitor lá ouve da dona da mala e, através do telefone da cadeia, lá organiza a sua devolução. Só que a decência é rara e pode ser tornada numa comodidade económica, algo que os dirigentes prisionais sabem bem. Quando tomam conhecimento do sucedido, eles decidem publicitar as ações de Rahim e uma tempestade mediática depressa o torna num herói local. São feitas angariações de fundos e promessas de emprego na câmara, placas comemorativas e muito mais. De repente, parece que o caminho para a liberdade se abriu, qual recompensa divina pela abnegação terrena.

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É evidente que “Um Herói” não é a história inspiradora de quem se consegue salvar. Pelo contrário, é um filme sobre aquele desgraçado que morre na avalanche. Qualquer raio de luminosa esperança está condenado a esmorecer, engolido pelas sombras de um sistema corrupto e uma sociedade doente. Não que Rahim esteja isento de culpa. Parte dos seus problemas deve-se à sua decisão individual, ao modo como ele tenta embelezar a sua figura face às câmaras, querendo promover-se, manter a honra familiar e recuperar a dignidade perdida. Mas o orgulho é traiçoeiro, especialmente quando se interceta com os vícios de outros, com as boas intenções alheias e suas consequências imprevisíveis.

Não há forma de sobrevalorizar os talentos de Farhadi enquanto contador de histórias e seu autor. Como é que este homem consegue imaginar estas espirais desenfreadas que ganham poder por quão lógicas parecem ser. A psicologia humana e suas complexidades marcam presença em “Um Herói”, propulsionando algumas das reviravoltas mais tristes. Ao mesmo tempo, essa mesma psicologia delineia os fins do enredo como uma inevitabilidade certa, intensificando as leituras trágicas que o filme muito suscita. Nesta narrativa de auto canonização acidental, não há maneira de fugir ao que aí vem. Desde o instante em que a dona do saco sai de cena, os dados estão lançados e a sorte traçada.

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Haverá quem elogie “Um Herói” pelo universalismo das suas mensagens e sentimentos. No entanto, atrevemo-nos a discordar com tais conclusões. Tal como todos os filmes deste realizador, a nova obra vive da minúcia com que Farhadi captura as especificidades da vida no Irão contemporâneo, seus sistemas económicos, morais, mediáticos, culturais e até românticos. De facto, tanto o cineasta investe nesse verismo, nessa autenticidade, que o discurso mais incisivo se tem de vergar sob a demanda de ambivalência. Até ao momento final, o realizador coloca o espetador na mesma posição do seu herói, incerto sobre o que há-de fazer, mas igualmente capaz de reconhecer os erros cometidos.

Amir Jadidi é a cola que une todas as partes desta experiência, ancorando os mecanismos narrativos de Farhadi na visceralidade de um homem perdendo-se a si mesmo. Essa perdição é perfeitamente dramatizada pelo restante elenco, mas o protagonista é insuperável, especialmente no instante em que a civilidade quebra e a fúria toma posse de Rahim. A união de ator, texto e direção é exímia e notável, levantando dilemas dolorosos, especialmente quando tanto do filme afunila o conflito na figura do filho gago que Rahim encara com oscilante pena, vergonha, compaixão, e fúria também. Estoico e agonizante, “Um Herói” é assim um cocktail de stress sublimado, um ataque de pânico que não deixará ninguém é indiferente. Vale a pena ver, mas é daqueles filmes que nos faz querer puxar os cabelos e gritar.

Um Herói, em análise
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Movie title: Ghahreman

Date published: 22 de November de 2021

Director(s): Asghar Farhadi

Actor(s): Amir Jadidi, Mohsen Tanabandeh, Fereshteh Sadre Orafaiy, Sarina Farhadi, Sahar Goldust, Ehsan Goodarzi, Alireza Jahandideh, Maryam Shahdaei

Genre: Drama, Thriller, 2021, 127 min

  • Cláudio Alves - 85
  • Maggie Silva - 90
88

CONCLUSÃO:

Asghar Farhadi acrescenta mais um acutilante conto moral à sua coleção. “Um Herói” prova, mais uma vez, que o cineasta iraniano é um dos melhores contadores de histórias do cinema moderno, atingindo um paradigma de perfeição quase mecânica. Além disso, a sua direção de atores é insuperável e também há um apurado manejamento de tom e ritmo que contribui para a magistralidade do filme. É um exercício angustiante onde nada corre bem e a consequência de uma boa ação é o apocalipse pessoal.

O MELHOR: O texto retorcido de Farhadi, sua exímia montagem e a performance principal de Amir Jadidi. A cena em que a violência explode, merece particular aplauso, tanto para esse ator como para Mohsen Tanabandeh no papel do credor e Sarina Farhadi, filha do realizador, interpretando a jovem cujo dote foi perdido devido aos erros ruinosos de Rahim.

O PIOR: Por muito que amemos o estilo de Farhadi, uma vertente mais tendenciosa na apresentação de eventos poder-lhe-ia acrescentar alguma volatilidade, uma energia orgânica. A ambivalência moral é construída com precisão, só que atenua a ferocidade política do cineasta. Os seus comentários para a imprensa nos últimos tempos têm demonstrado uma crítica social muito mais fortemente articulada que qualquer mensagem patente em “Um Herói”.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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