"Mães Paralelas" | © Pris Audiovisuais

LEFFEST ’21 | Mães Paralelas, em análise

No Festival de Veneza, “Mães Paralelas” valeu a Penélope Cruz o prémio para Melhor Atriz. O mais recente melodrama de Pedro Almodóvar está agora de chegada aos cinemas portugueses, tendo celebrado a sua antestreia no Lisbon & Sintra Film Festival, onde integrou a secção não competitiva.

Como acontece com muitos cineastas conhecidos pela provocação e pelo espetáculo burlesco, Pedro Almodóvar tem vindo a delinear um arco evolutivo ao longo da sua carreira que adivinha um certo aclamar dos ânimos. Filmes como “Pepi, Luci, Bom e Outras Tipas do Grupo”, “Negros Hábitos”, “Matador” e “A Lei do Desejo” tentavam ativamente chocar o espetador, cravando o dedo na ferida da sociedade espanhola, rasgando tabus e cuspindo na cara dos bons costumes. Num período pós-ditatorial, a irreverência cinematográfica tinha uma forte vertente política. Em anos mais recentes, tais qualidades têm-se perdido no cinema de Almodóvar. Ou melhor, têm-se esvanecido em prol de outros elementos.

Olhando para “Julieta”, “Dor e Glória” e “A Voz Humana”, facilmente sentimos o pesar elegíaco de um artista melancólico, preocupado com reflexões retrospetivas e um olhar para trás que pondera as escolhas feitas ao longo de uma vida. Tratam-se de obras majestosas em direito próprio, mas sentimos falta do aspeto político de Almodóvar. Fazemos o luto à provocação abandonada e ansiamos por um filme maturo que ainda encontre espaço para a subversão. Como que em resposta a tais críticas, “Mães Paralelas” afigura-se como um ponto de encontro entre a sensibilidade polémica do jovem Almodóvar e a autorreflexão elegante do autor envelhecido.

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© Pris Audiovisuais

Em parte, o projeto alcança tais píncaros através de um paralelismo narrativo e temático que reflete a maternidade paralela do título. Um melodrama anda de mãos dadas com reflexão sobre o passado de Espanha, paixão do momento coexistindo com as cicatrizes antigas, transmitidas de geração em geração. Regressando à figura predileta da mãe, Almodóvar orquestrou um enredo convoluto que podia ter sido roubado à mais lúrida telenovela do momento. Tudo começa com o sexo, com a paixão temporária entre uma fotógrafa e seu modelo arqueológo. Ela é Janis, assim batizada em homenagem a Janis Joplin, e, quando a voltamos a encontrar, está grávida, prestes a dar à luz.

No hospital, trava-se uma cumplicidade entre colegas de quarto, ambas mães solteiras se bem que em diferentes fases da vida. Para Janis, já na meia-idade, o acaso da fecundidade foi uma bênção. Para a jovem Ana, adolescente acabada de sair do secundário, a situação é um tormento feito pior pela disfunção familiar. A mãe da moça é uma diva negligente, mais interessada com os sonhos de estrelato nos palcos do que com a rapariga em aflição. Seu pai, por outro lado, nunca é visto, tendo abandonado a filha quando se descobriu a gravidez. A amizade entre Janis e Ana é súbita e forte, um laço fortificado pelas ansiedades partilhadas quando as suas filhas são levadas para observação no pós-parto.

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Daí em diante, a história separa-se em dois fios que primeiro se movem separados antes da destinada interseção. Sem revelar demasiadas reviravoltas, “Mães Paralelas” é um encadeamento de insólitos eventos, azares e fados que põem à prova as protagonistas e as levam ao limite. Em certa medida, Janis é uma mulher que tudo faz para se livrar do melodrama da vida, mantendo o silêncio e a inação em nome da paz de espírito, do conforto sem confrontações. Como é evidente, o tiro sai-lhe pela culatra, com cada palavra não dita a percolar e infetar, ganhando poder gangrenoso no plano mais distante de cada cena, até que se torna impossível de ignorar. Há muito choro, mas muito amor também, a lacerante dor da perda e a herança do trauma.

Assim se distingue o patamar melodramático de “Mães Paralelas”, somente uma parte da equação fílmica que Almodóvar concebeu. Usando a história humana para levantar temas multifacetados, o cineasta concebe um jogo de reflexão entre o indivíduo e o coletivo. A história de Janis, Ana, suas filhas e entes queridos, é também a História de Espanha e seus silêncios penosos. Aqui, isso toma a forma de um projeto com quase um século de existência, pelo qual as mulheres de um povoado antigo querem recuperar os corpos dos homens mortos no princípio da guerra civil. São as vítimas do franquismo, aqueles que seriam anónimos não fosse a lembrança familiar e o empenho em conceder a dignidade àqueles a quem a vida foi roubada.

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© Pris Audiovisuais

No país e também no drama de Janis, a verdade é enterrada em nome de uma paz artificial e a angústia irresolvida é passada de mãe para filha. Assim acontece, sucessivamente, num ciclo sem fim. Custa a aprender a lição, mas só há futuro depois de o passado ser desenterrado. Por seu lado, a linhagem existe enquanto memória e partilha, transcendendo o elo sanguíneo. A família é feita de amor, não de genes, e, por baixo do choro, existe sempre um grito de fúria. De facto, “Mães Paralelas” é o filme mais irado que Almodóvar assinou desde os anos 80. Para quem ache que as duas facetas do filme não fazem sentido juntas, um epílogo mata o pensamento, concluindo a fita com uma imagem assombrosa.

Não que “Mães Paralelas” sofra de alguma falta de imagética forte até aos momentos finais. Como sempre, este mestre do cinema espanhol revela um amor ferrenho pela beleza pictórica, as cores fortes e a luxuriante qualidade do objeto estético, da comida feita com carinho, dos corpos inflamados de desejo. Tanto os visuais como os sons são sensacionalmente sensuais, mas é o trabalho de ator que mais arrebata. Penélope Cruz tem aqui uma das melhores prestações da carreira, exteriorizando os terrores internos de Janis com igual medida de estilização e realismo emocional. O prémio em Veneza foi bem merecido e, se houvesse justiça no mundo, a atriz estaria a caminho de maiores glórias internacionais, quiçá mais uma indicação para o Óscar. Só que o mundo é injusto, como bem nos recorda a história de “Mães Paralelas”.

Mães Paralelas, em análise
78º Festival de Veneza

Movie title: Madres Paralelas

Date published: 22 de November de 2021

Director(s): Pedro Almodóvar

Actor(s): Penélope Cruz, Milena Smit, Rossy de Palma, Aitana Sánchez-Gijón, Israel Elejalde, Julieta Serrano, Adelfa Calvo, Ainhoa Santamaría, Daniela Santiago

Genre: Drama, 2021, 123 min

  • Cláudio Alves - 90
  • Manuel São Bento - 70
  • Maggie Silva - 85
82

CONCLUSÃO:

Por muito extraordinários que os trabalhos mais recentes de Almodóvar possam ser, há mais de uma década que o realizador não assinava uma obra tão primorosa como “Mães Paralelas”. Rica em drama e reflexão, balançando a ira e a dor, a melancolia e o sexo, esta trama impressiona pela emoção e pelos conceitos.

O MELHOR: A última imagem é um assombro. A prestação de Penélope Cruz.

O PIOR: Rossy de Palma e Aitana Sánchez-Gijón mereciam mais destaque.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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One Response

  1. nila costa 23 de Fevereiro de 2022

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