"World War III" | © Iranian Independents

LEFFEST ’22 | World War III, em análise

Estreado na secção Orizzonti em Veneza, “World War III” foi um dos grandes vencedores do festival. O filme de Houman Seyyedi não só ganhou o prémio máximo dessa competição paralela, como também valeu um galardão de Melhor Ator para Mohsen Tanabandeh. Entretanto, o Irão escolheu a obra como seu representante na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional. As audiências portuguesas desfrutaram da primeira oportunidade para ver o filme no 16º Lisbon & Sintra Film Festival, onde integrou a seleção oficial Fora de Competição.

Na conjetura do cinema internacional, filmes sobre o Holocausto e sobre a Segunda Guerra Mundial são quase uma indústria paralela. Tantos sãos os trabalhos sobre a temática que estamos perante próximo do género por si só, normalmente focado nas grandes produções com ambições prestigiadas, sede de reconhecimento e prémios. Trata-se de um tipo de cinema que, devido à quantidade desmesurada, acaba por fazer de um capítulo negro da História Humana mais uma comodidade comercial, mais um produto com seus códigos e expetativas associadas. Ainda há uns anos se fazia a piada que, para ganhar honra da Academia, o melhor era fazer filme sobre o Holocausto.

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Não queremos com isto dizer que tais obras são desnecessárias. O esquecimento deve ser evitado, mas também há que lembrar a realidade além da dramatização cinematográfica, além das banalidades de um “Rapaz do Pijama às Riscas” ou o humor forçado de “A Vida é Bela.” Por tudo isto e muito mais, a premissa de “World War III” brilha pelo comentário mordaz, aliciando-nos o paladar e aguçando a fome pelo festim satírico. Acontece que o drama de Houman Seyyedi se centra em torno de um homem desamparado que encontra emprego temporário nas filmagens de um desses filmes sobre a Segunda Grande Guerra.

Quando o conhecemos, Shakib vive na loja de um amigo seu, recuperando do transtorno da perda. Mulher e filho morreram num desastroso terramoto e, desde então, ele vive como pária. A única salvaguarda da miséria encontra-se na relação com Ladan, uma prostituta surda que Shakib visita com frequência e, presumimos, com quem ele gasta as parcas somas que ganha em ofícios efémeros. Maioritariamente, há trabalho na construção para fazer e a nova oferta não difere. Só que não são edifícios reais aqueles que vemos erguidos, mas sim cenários para as rodagens de um filme. Desde o casarão vermelho até à câmara de gás, é tudo falso.

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O mundano faz-se surreal quando assistimos à emergência de um campo de concentração Nazi na paisagem iraniana, o detalhe ruinoso dando mais autenticidade ao aparato. A câmara de Seyyedi muito gosta de perscrutar o caos do plateau, a desorganização que leva a produção a ser algo perdido entre a farsa e o pesadelo. Enfim, não havendo dinheiro para mais, Shakib passa a fazer dever duplo como homem das obras e guarda noturno, antes de ser também escolhido para figurante. Mas a escalada nas hierarquias do cinema não acaba aí. Quando o ator que faz de Hitler desfalece a meio de um take, lá se torna o nosso protagonista no novo Führer.

A história de Ladan acaba por se cruzar com o lavoro cinematográfico, desencadeando uma série de acontecimentos que resvalam em tragédia. No meio de tudo isto, Shakib é nossa âncora e nosso guia na desventura, cada escolha errónea, cada mentira mais um floco de neve que se acumula no cume da montanha. Quando a avalanche finalmente se precipita e a vida de todos explode em escombros fumegantes, ninguém se pode dizer surpreendida. O aflitivo é ver como cada ação traz nova desgraça, como o próprio universo parece conspirar contra as personagens aqui envoltas numa insidiosa narrativa de poder abusivo e abusado.

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O argumento que Seyyedi escreveu com Arian Vazirdaftari e Azad Jafarian afirma-se enquanto majestosa máquina de fazer sofrer, tecendo a tapeçaria narrativa de tal modo que conclusões extremadas nos aparecem sempre com forte sustentação. Só o engenho do filme dentro do filme nos parece mal aproveitado, especialmente no que se refere à imagética e legado iconográfico do Holocausto. Verdade seja dita, “World War III” poder-se-ia passar nas rodagens de uma fita sobre qualquer ditador – tanto que, quando se fala em passar a um próximo capítulo sobre Sadan, nos perguntamos por que razão não foi esse o ponto de partida do projeto.

Por outras palavras, a matéria-prima é tão forte, seu potencial tão grande que a absurdeza evocada pelos cineastas nos parece sempre superficial. Talvez esse seja o propósito, equiparando a falta de profundidade de uma produção fictícia ao filme que temos perante nós. É uma abordagem arriscada que não parece ter vingado na plenitude. Mesmo assim, há muito a aplaudir, desde os cenários deliberadamente rascas ao trabalho de ator. Todo o elenco é excelente, mas Mohsen Tanabandeh é superlativo no papel principal. O ator já tinha impressionado em “O Herói” de Farjadi, mas aqui torna-se numa força da natureza autêntica, conseguindo carregar nas costas as reviravoltas mais inusitadas e mortíferas da trama.

World War III, em análise
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Movie title: Jang-e jahani sevom

Date published: 19 de November de 2022

Director(s): Houman Seyyedi

Actor(s): Mohsen Tanabandeh, Mahsa Hejazi, Neda Jebraeili, Navid Nosrati, Hossein Norouzi

Genre: Aventura, Crime, Drama, 2022, 117 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO:

“World War III” começa bem e termina com lúgubre choque. Pelo meio, propõem uma série de ideias, poucas das quais está disposto a aprofundar com o devido ímpeto que lhes merecido. Jogos tonais entre o realismo da filmagem com o artifício explícito do cenário dão valor à obra, tal como faz o trabalho de ator. Mas, em relação a esse último ponto, já é expectável que o cinema iraniano tenha elencos sublimes e prestações mais complexas ainda que as personagens patentes no guião.

O MELHOR: Tanabandeh, sem sombra de dúvida. Que extraordinário ator!

O PIOR: O modo como o superficialismo do filme dentro do filme acaba por infetar o próprio “World War III.” Falta especificidade no modo como a temática é abordada, como sua imagética traumática é desconstruída ou dissecada em jeito de farsa satírica. Também a figura de Ladan peca pela falta de tridimensionalidade, exibindo grande potencial dramático que nenhum argumentista sabe aproveitar.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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