Zoe Kazan regressa ao romance de John Steinbeck que o avô Elia Kazan levou ao cinema em 1955 e transforma-o numa série ambiciosa, sombria, elegante e quase demasiado cinematográfica para caber apenas na televisão. Florence Pugh é o centro de gravidade de uma história sobre culpa, herança, desejo e a velha pergunta que nunca envelhece: podemos deixar de ser aquilo que recebemos?
A Leste do Paraíso a série de televisão estreada na Netflix a 1 de outubro, não se limita a contar uma história: instala-nos dentro dela. Tem peso, duração, densidade, personagens, paisagens e silêncio. Qualidades que a televisão contemporânea, sempre preocupada em impedir o espectador de abandonar o episódio antes do minuto seguinte, por vezes sacrifica em nome do ritmo.
Zoe Kazan resolveu fazer o contrário. Pegou no romance gigantesco de John Steinbeck, não fugiu da comparação com o filme de 1955 realizado pelo avô Elia Kazan e construiu uma série que precisa de tempo. Tempo para as famílias se destruírem, para os ressentimentos crescerem, para os filhos se parecerem demasiado com os pais e para as personagens descobrirem, muitas vezes tarde demais, que a herança não se resume a dinheiro e propriedades. Também se transmitem silêncios, medos, violências e culpas.
Florence Pugh e uma mulher impossível de domesticar
No centro do drama está Cathy Ames. E, no centro de Cathy, Florence Pugh. A actriz britânica interpreta-a numa tensão permanente entre fragilidade e ameaça. Zoe Kazan não transforma Cathy numa vítima inocente nem numa heroína contemporânea transplantada para o início do século XX. Faz algo bastante mais desafiante: dá-lhe contexto sem lhe retirar responsabilidade. Cathy continua cruel, imprevisível, manipuladora e, por vezes, assustadora. Mas deixa de ser apenas a mulher demoníaca que durante décadas serviu para confirmar que o mal também podia usar vestido. Pugh percebe a personagem fisicamente. Existe nela qualquer coisa de animal acuado e predador ao mesmo tempo. Entra numa divisão pequena e parece ocupar metade do espaço. Não precisa de levantar a voz para ameaçar. Basta-lhe aquele olhar glaciar.
À volta dela, Christopher Abbott constrói um Adam Trask dividido entre bondade e cegueira; Mike Faist faz de Charles um homem incapaz de escapar à ferida de nunca ter sido o preferido; Tracy Letts transforma Cyrus num pai cuja autoridade contamina tudo. Ciarán Hinds, Martha Plimpton e sobretudo Hoon Lee completam um conjunto que raramente baixa de nível de representação.
A Bíblia mudou-se para a Califórnia

A grande astúcia de Steinbeck continua intacta: A Leste do Paraíso transforma Caim e Abel num drama familiar americano. Irmãos rivais, pais que preferem um filho, ressentimento, culpa, competição, amor confundido com reconhecimento. Não é necessário ter lido o Génesis para perceber a arquitectura. Mas ajuda muito.
Zoe Kazan não força a comparação. Está nos nomes, nas repetições entre gerações e sobretudo na ideia de que os filhos parecem destinados a representar outra vez os pecados dos pais. É aí que surge timshel, a palavra que atravessa o romance e que Steinbeck lê como «tu podes». Não significa absolvição. Significa responsabilidade.
Se podemos escolher, já não podemos culpar eternamente o destino, a família, Deus ou os nossos antepassados.
Elia Kazan fez outra coisa e fez-a muito bem

A sombra do filme de 1955 é impossível de ignorar. Elia Kazan não tentou adaptar o romance inteiro. Fez uma escolha radical: concentrou-se apenas na parte final da história e transformou o livro gigantesco num drama muito mais apertado, centrado em Cal, Aron e no pai. E encontrou James Dean. Só isso bastaria para garantir ao filme um lugar permanente na história do cinema. Dean aparece nervoso, instável, excessivo, vulnerável, quase incapaz de permanecer quieto dentro do CinemaScope. A sua interpretação pode parecer hoje mais teatral do que naturalista, mas foi precisamente essa energia que transformou Cal numa figura geracional. O filme também é inseparável do momento político e pessoal de Elia Kazan. Poucos anos antes, o realizador colaborara com a Comissão de Actividades Antiamericanas, denunciando antigos companheiros. É difícil ver uma obra tão obcecada com culpa, traição, rejeição e perdão sem sentir que Kazan filmava também alguns fantasmas pessoais. A neta regressa agora à mesma história, mas executa praticamente o movimento inverso. Onde Elia reduziu, Zoe expande. Onde ele escolheu um fragmento, ela recupera a dimensão multigeracional. Não é uma competição. É uma conversa de família com sete décadas de atraso.
Steinbeck antes de todos

Antes do filme ou da série está, evidentemente, o livro. Publicado em 1952, A Leste do Paraíso foi para várias gerações muito mais do que um bestseller. Foi um daqueles romances que se emprestavam, passavam de mão em mão, ficavam com páginas dobradas e frases sublinhadas. Steinbeck considerava-o a sua grande obra, aquela para a qual os livros anteriores o tinham preparado. O Vale de Salinas transforma-se ali num território quase mítico sem deixar de ser concreto: terra, dinheiro, trabalho, sexo, racismo, religião, violência e famílias. O romance pergunta constantemente se somos aquilo que herdámos ou aquilo que decidimos fazer com o que herdámos. É por isso que sobrevive. Não porque ofereça respostas tranquilizadoras. Pelo contrário.
Uma série que merecia uma sala

Visualmente, a série A Leste do Paraíso aproxima-se muitas vezes mais do cinema do que da televisão convencional. A concepção de produção de Grant Major, a fotografia de Stuart Dryburgh e Sam Chiplin e a realização de Garth Davis e Laure de Clermont-Tonnerre tratam paisagens, interiores e rostos com uma escala que faz pensar que estas imagens nasceram para um ecrã muito maior. Vê-las reduzidas ao televisor doméstico parece quase um desperdício. É fácil imaginar os sete episódios projectados numa sala, com intervalos e tudo. A Leste do Paraíso não é perfeita. Algumas transições entre gerações enfraquecem momentaneamente a ligação emocional e, em certos momentos, a beleza visual aproxima perigosamente a tragédia de uma montra excessivamente elegante. Mas prefiro uma série que arrisque o excesso a outra fabricada para passar sem deixar vestígios. Zoe Kazan pegou numa obra literária monumental, enfrentou um filme clássico, convocou os fantasmas familiares e encontrou em Florence Pugh uma actriz capaz de suportar o peso de tudo isso. Chamar-lhe apenas série de televisão parece pouco. É televisão com ambição de obra cinematográfica.
JVM 8/10
A Leste do Paraíso
Conclusão
A Leste do Paraíso prova que adaptar um clássico não exige veneração nem vontade de o “modernizar” à força. Exige perceber aquilo que ainda permanece vivo. Zoe Kazan faz isso: regressa a Steinbeck, enfrenta inevitavelmente o filme do avô e encontra uma forma própria de contar a mesma história sem a tornar uma peça de museu. Florence Pugh dá-lhe o centro emocional e moral, mas é a combinação entre escrita, actores, escala visual e tempo narrativo que transforma a série num dos grandes acontecimentos televisivos da temporada. Talvez seja essa a maior ironia: uma história sobre a impossibilidade de fugir completamente daquilo que herdámos acaba por demonstrar que uma herança também pode ser usada para criar outra coisa. Elia Kazan fez o seu filme. John Steinbeck escreveu o seu romance. Zoe Kazan não tenta substituir nenhum deles. Acrescenta-lhes uma nova camada. E isso, para uma adaptação, já é quase tudo.
Overall
8/10User Review
( votes)Pros
O melhor: Florence Pugh, naturalmente, mas também Hoon Lee, a escala visual e a coragem de adaptar Steinbeck sem o reduzir a um simples melodrama familiar.
Cons
O pior: algumas transições entre gerações perdem força emocional e, por vezes, a beleza formal da série aproxima demasiado a tragédia de uma produção excessivamente polida.


