"Liberdade" | © Cinema BOLD

Liberdade, em análise

O primeiro filme de Kirill Mikhanovsky, “Liberdade”, é uma comédia americana que se move como um relâmpago. O filme é também uma das novidades da Cinema BOLD, assim como uma das melhores obras dessa distribuidora nacional.

O que entretém tem também que deleitar? Pode o desconforto ser parte de uma experiência de entretenimento? Talvez até, a sua componente central? Ultimamente, parece que vários cineastas têm vindo a testar os limites do cinema, experimentando até que ponto uma obra que suscita só sensações negativas pode ser algo que dá prazer ver. “Diamante Bruto” dos irmãos Safdie, por exemplo, criou o equivalente a um ataque de pânico sob a forma de filme. Trata-se de uma fita que angustia e enerva, mas que, pela sua exaltação dos humores, também entretém quem a vê de uma forma meio perversa.

Em “Liberdade”, o realizador Kirill Mikhanovsky usou o mesmo modelo de cinema de ansiedade dos Safdie, mas, se possível, levou-o a extremos ainda mais delirantes. Parte do triunfo deste cineasta em início de carreira devém das suas mirabolantes misturas de tons. Ao contrário de “Diamante Bruto” que é um drama, “Liberdade” apresenta-se como um estranho híbrido entre a comédia de enganos e ironias, o realismo urbano mais cru, e uma leve vertente trágica. O resultado é uma quimera narrativa que se sustenta pelo foco nas tribulações de uma personagem cujas muitas desventuras estruturam o filme.

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© Cinema BOLD

Ele é Vic, um jovem americano de origens eslavas que faz a vida enquanto motorista num serviço de assistência social. A sua rotina envolve o transporte de idosos e pessoas com problemas de mobilidade, muitos deles marginalizados tanto pelas suas enfermidades como pela etnia e a pobreza. Toda a história de “Liberdade” se passa num dia, quando Vic comete o erro de cruzar as demandas profissionais com as exigências familiares. Assim ele acaba a transportar ilicitamente um grupo de velhotes a um funeral, ao mesmo tempo que tenta obedecer ao rígido horário do serviço. Escusado será dizer que nada lhe corre como planeado.

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No dia da história, Vic chega atrasado a todos os seus compromissos, está constantemente sujeito a gritos de clientes hostis e repetidas ameaças de despedimento. Ele atura queixume omnidirecional e, pelo caminho, não tem nem um minuto de sossego. Contudo, apesar de sombras tragicómicas, “Liberdade” não tem a intenção de partir o coração do espectador. Apesar da miséria testemunhada e dos nervos à flor da pele, Vic e a audiência vão encontrando pequenos raios de esperança, de graça e humanidade por entre o tenebroso enredo.

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No seu primeiro filme, Mikhanovsky demonstra ser portador de uma voz autoral que prima pelo humanismo e pela confiança formal. Há algo de maravilhoso no modo como o realizador deixa que momentos se estiquem em prolongado tempo real, enquanto faz de outras passagens pequenas explosões de montagem frenética. Sempre que Vic para o veículo, o filme desdobra-se numa produção de desengonçados mecanismos, onde nada funciona e todo o gesto se parece estender indefinidamente. Quando ele voa pelas ruas a alta velocidade, aí a câmara parece ter um ataque e não sabe para onde olhar. Tudo isto produz uma experiência que nos deixa quase ofegantes, tamanho é o stress que o filme telegrafa ao espectador.

Apesar de tudo isso, hão de reparar que iniciámos este texto com uma ponderação sobre entretenimento e não sobre cinema sôfrego. Não obstante os extremos de nervosismo audiovisual a que “Liberdade” chega, no seu âmago trata-se de uma celebração da comunidade em que todas as personagens vivem. Seguindo essa lógica, há uma grande importância dada ao trabalho de ator, com o vasto elenco a ter oportunidade de construir e exibir caracterizações complicadas e cheias de idiossincrasias preciosas. Chris Galust, no papel de Vic, e Lolo Spencer como Tracy, uma das clientes do serviço de transporte, são de particular primor, trazendo ao filme grande química e um sentimento caloroso que nos aconchega o espírito, até mesmo quando a respiração nos falta e a adrenalina está em alta.

Liberdade, em análise
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Movie title: Give Me Liberty

Date published: 29 de June de 2020

Director(s): Kirill Mikhanovsky

Actor(s): Chris Galust, Lauren 'Lolo' Spencer, Maxim Stoyanov, Steve Wolski, Michelle Caspar, Ben Derfel, Arkady Basin, Zoya Makhlina, Darya Ekamasova, Jehonathan Guzman, Keoki

Genre: Comédia, Drama, 2019, 110 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

“Liberdade” é uma aventura tragicómica com traços sisífios e um grande amor pelas suas personagens coloridas. Trata-se de um filme que se recomenda e celebra, que se ama muito e se vê uma e outra vez, mesmo que possamos ter um ataque de nervos cada vez que o fizermos.

O MELHOR: A montagem é um milagre cinematográfico do mais alto calibre.

O PIOR: O modo como o filme é montado e seu som, o candor dos atores e o humanismo do argumento são tão bons que quase nos esquecemos da relativa falta de originalidade da estética. Tudo no filme se consegue ligar a Cassavetes e a toda uma tradição de cinema americano independente que começa a ganhar mofo à medida que as décadas passam.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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