"Salve, Satanás?" | © Cinema BOLD

Salve Satanás?, em análise

Salve, Satanás?” é um divertido documentário político que olha de frente as questões da liberdade religiosa e do estado laico nos EUA. Este elucidante filme da realizadora Penny Lane é uma das grandes novidades da Cinema BOLD.

O melhor que se pode dizer de “Salve, Satanás?” é que propõe um argumento bem convincente a favor do satanismo. Não que o filme, de forma geral, seja algum exemplo de mediocridade cinematográfica. Contudo, é a claridade e o poder da sua persuasão política que mais espanta. Sim, dizemos política, pois, algo que o filme rapidamente nos clarifica, é que o satanismo é essencialmente um movimento político. Nos EUA, a religião satânica funciona mais como uma anti religião que outra coisa, um protesto organizado contra uma nação que se diz laica, mas centraliza a cristandade em toda a sua governação.

Na sua procura por provocação e persuasão, a realizadora Penny Lane não perde nem um minuto. O filme começa com uma cena de 2013, quando Lucien Greaves do Templo Satânico liderou uma manifestação contra uma nova lei do Estado da Flórida que permitiria que preces cristãs pudessem ser incluídas no plano escolar. A retórica dos satanistas é simples e direta. Se tais formas de culto podem ser desse modo impostas à população, então a igualdade religiosa compreendida pela Constituição significa que todo o tipo de fé tem lugar no panorama educativo. Basicamente, se há espaço para Jesus, também tem que haver espaço para Satã.

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© Cinema BOLD

Quer dizer, as intenções da manifestação são claramente antagónicas para com a lei. No entanto, o que os satanistas fazem é uma espécie de comédia pós-moderna de ironia religiosa. Por outras palavras menos floreadas, eles dizem-se a favor de tais legislações pois isso abre as portas para o satanismo também. Quando eles reivindicam a representação da sua fé nas instituições a reação que eles querem é uma de nojo, de revulsa e ódio. Provocando a ira das pessoas comuns, eles pretendem fazer com que elas abdiquem das suas próprias infrações constitucionais. Trata-se de uma promoção de liberdade religiosa por meio de ironia diabólica. É tão inspirador quanto é hilariante.

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O génio de Penny Lane enquanto realizadora de “Salve, Satanás?” é quanto ela consegue misturar o fulgor político das suas personagens reais com grandes doses de humor à custa dos conservadores ofendidos. A cineasta concebeu aqui uma potente crítica à ideia de igrejas organizadas. O foco dela incide principalmente na infiltração política dessas igrejas, mas abrange muitas outras facetas da religião na sociedade moderna. Lane é particularmente astuta no modo como evidencia hipocrisias estruturais dessas fés que estão dispostas a sacrificar qualquer ideal que tenham quando têm hipótese de impingirem a sua doutrina sobre outras pessoas e oprimir aqueles que não têm as mesmas crenças. Tolerância cristã é uma das maiores mentiras da América contemporânea aos olhos de Lane e seus sujeitos documentais.

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© Cinema BOLD

O melhor de tudo é que “Salve, Satanás?” não é mera promoção desmiolada do Templo Satânico. Lane e suas câmaras perscrutam a organização para além da fachada manifestante e investigam os cismas ativistas dentro da igreja anti igrejas. Nem tudo é um mar de rosas entre os devotos a Belzebu. Como em todos os movimentos políticos, há fações separatistas e conflitos sobre os extremos a que a organização está desposta a ir. Os mais radicais são empurrados para fora da direção, enquanto os mais comedidos acabam por arriscar cair na obsolescência. Por muito rebeldes que sejam, parece que até os satânicos estão sujeitos ao mesmo tipo de discórdia interna que afeta os partidos políticos mais mainstream. No entanto, mesmo com esses problemas, os devotos a Satanás não são a fonte do Mal nos EUA. Para encontrarmos tal malevolência temos de olhar para os homens poderosos que disfarçam a sua amoralidade com a cruz e a bandeira.

Com isso dito, temos de apontar para alguns problemas do filme. Penny Lane pode ser uma excelente realizadora de obras informativas com um certo humor irónico e fervor jornalístico, mas a sua inspiração formal não é muita. Em termos estéticos, “Salve, Satanás?” é tristemente desengonçado e sem graça, demasiado convencional para a ousadia que os seus protagonistas tão bem personificam. A única mais-valia dessa displicência formal é que a iconografia satânica se destaca como o maior interesse visual de toda a produção. Faz sentido que uma escultura imperiosa de Baphomet seja a grande imagem que nos fica na cabeça depois de ver esta desventura cinematográfica.

Salve, Satanás?, em análise
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Movie title: Hail, Satan?

Date published: 2020-06-29

Director(s): Penny Lane

Genre: Documentário, 2019, 95 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

Com muito humor, boa disposição e uma admirável coragem, “Salve, Satanás?” manifesta-se contra os bons costumes e as hipocrisias religiosas da América contemporânea. Para quem quer que questione a laicidade do Estado, este filme é uma boa lição de cidadania.

O MELHOR: Os toques de humor que Lane e companhia conseguem injetar na retórica política do documentário.

O PIOR: A relativa displicência formal do engenho cinematográfico.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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