"Louca-Mente", um retrato social, de uma geração, entre os 40 e os 50 anos. ©Risi Film/Divulgação

“Louca-Mente” — Crítica

Em “Louca-Mente”, o realizador italiano Paolo Genovese filmou quando o coração acelera, mas o cérebro trava, num romance sobre a ‘geração ansiosa’. Ou quando simplesmente amar está a precisar de um manual de instruções. Estreia a 5 de fevereiro.

“Louca-Mente”, num primeiro encontro, há sempre mil pensamentos e depois há também um momento — entre o primeiro copo de vinho, o primeiro silêncio constrangedor e a primeira frase dita com cálculo excessivo — em que percebemos que este filme de Paolo Genovese (FolleMente, no original; Madly, no título internacional) não é apenas mais uma comédia romântica italiana para consumo ligeiro. Trata-se de um retrato social, quase clínico de uma geração, entre os 40 e os 50 anos, emocionalmente cansada, hiperconsciente e permanentemente em “modo avião”, com medo de se desligar do mundo para se ligar seriamente a alguém. Realizado por Paolo Genovese, o cineasta que transformou um jantar de amigos num fenómeno global com “Amigos Amigos, Telemóveis à Parte”, este filme troca os telemóveis pelas neuroses, as mensagens privadas pelas vozes interiores e as traições visíveis pelos sabotadores invisíveis que todos transportamos dentro da cabeça. A premissa é simples e brilhante: acompanhar o primeiro encontro entre Piero (Edoardo Leo) e Lara (Pilar Fogliati) e mostrar, em simultâneo, a guerra civil que se trava dentro das suas mentes, com os seus “grilos-falantes”. Cada frase é discutida, cada gesto é votado, cada silêncio é interpretado. É o amor visto como numa permanente sessão parlamentar de confrontos emocionais.

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Louca-Mente
A história de um primeiro encontro entre Piero (Edoardo Leo) e Lara (Pilar Fogliati). ©Risi Film/Divulgação

“Divertida-Mente” para Adultos Cansados

“Louca-Mente” é, no fundo, uma espécie de versão adulta da famosa animação da Disney, Divertida-Mente”. Mas aqui não há emoções coloridas para crianças: há traumas, expectativas falhadas, feminismo em alerta, masculinidades confusas, inseguranças antigas e feridas mal cicatrizadas. Vivemos numa época em que ninguém se entrega sem primeiro fazer um relatório de risco emocional. Amar tornou-se um exercício de gestão. Piero, professor divorciado, pai cansado e ainda magoado, e Lara, jovem independente com um histórico sentimental complicado, querem amar. Mas têm medo. Muito medo. Dentro dele convivem o romântico, o sedutor, o racional e o pessimista. Dentro dela disputam espaço a sonhadora, a impulsiva, a militante e a anárquica. Mas não são metáforas vagas: são personagens com corpo, voz, figurino e espaço próprio, que discutem enquanto os protagonistas fingem naturalidade no mundo real. O resultado é um retrato cruelmente reconhecível de quem já passou dos trinta e chega aos encontros com bagagem emocional de porão.

VÊ TRAILER “LOUCA-MENTE”

“Louca-Mente”: O Teatro da Cabeça e a Metaneurose Moderna

O grande achado do filme está na desmontagem da mentira contemporânea da espontaneidade. Ninguém é espontâneo. Somos todos actores amadores a improvisar com medo de errar, a ensaiar mentalmente cada frase antes de a dizer, a calibrar cada gesto, a editar cada emoção em tempo real. Genovese percebeu isso e constrói uma comédia sobre o pânico de ser autêntico, num tempo em que dizer “gosto de ti” parece mais arriscado do que investir em fundos de investimento ou criptomoedas. Formalmente, o filme funciona como um pequeno teatro da mente, cruzando três espaços — o apartamento de Lara e os dois quartéis-generais emocionais dos “grilos-falantes” — com uma montagem precisa e um timing cómico quase matemático. É profundamente teatral, mas nunca claustrofóbico, graças ao ritmo dos diálogos, à realização segura e à química notável do elenco, que reune praticamente a elite da comédia italiana da actualidade: além dos dois protagonistas já referidos, temos ainda Emanuela Fanelli, Maria Chiara Giannetta, Claudia Pandolfi, Vittoria Puccini, Marco Giallini, Maurizio Lastrico, Rocco Papaleo, Claudio Santamaria. Há momentos em que “Louca-Mente” parece quase um filme do Woody Allen passado pelo filtro da terapia, da vigilância emocional e das redes sociais: neurótico, inseguro, verborrágico e hiperconsciente. É a metaneurose como modo de vida.

Louca-mente
“Louca-Mente” é uma versão para adultos de “Divertida-mente”. @Risi Film/Divulgação

Sexo, Medo e Gargalhadas

Uma das cenas mais felizes do filme é a do sexo, tratada com elegância e humor, transformando o momento íntimo num verdadeiro coro grego da libido, onde todas as vozes interiores entram em histeria colectiva e numa versão rockeira de “Somebody to Love” dos Queen. Genovese filma o desejo sem pornografia, sem pudor e sem infantilização, isto é quase uma raridade no cinema comercial actual. Convém dizê-lo sem condescendência: este é o verdadeiro cinema popular no melhor sentido. Quer público, quer gargalhadas, quer salas cheias. Mas não abdica da inteligência e da análise social. Num tempo em que a comédia romântica foi quase extinta pelos super-heróis e pelas séries infinitas, pelo enfado da crítica, Paolo Genovese recupera o género com dignidade, engenho e ambição. Há clichés? Há. Exageros? Também. Mas há sobretudo uma observação social, empatia e um olhar honesto sobre as novas (hiper)sensibilidades emocionais. Está tudo lá.

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JVM

Louca-Mente — Crítica
  • José Vieira Mendes - 85

Conclusão:

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“Louca-Mente” de Paolo Genovese é uma radiografia sentimental do nosso tempo. Vivemos cansados, feridos, desconfiados, cheios de discurso terapêutico e vazios de coragem afectiva. Queremos amor, mas com garantia. Paixão, mas com botão de emergência. Entrega, mas com cláusula de salvaguarda. O filme percebe isso e ri-se connosco, não de nós. Não é uma obra-prima, nem pretende ser. É melhor do que isso: é um filme honesto, inteligente e humano, daqueles que nos fazem sair do cinema mais leves e, talvez, um pouco mais disponíveis para desligar a cabeça durante uns minutos… e voltar a sentir que somos humanos e não funcionamos só a GPS.

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Pros

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O Melhor: A ideia narrativa simples e eficaz, aliada a um humor empático e a um elenco em grande forma, sustentados por uma montagem ágil; uma leitura certeira, divertida e inteligente das relações amorosas no tempo da ansiedade emocional.

Cons

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O Pior: Alguns clichés inevitáveis e um excesso pontual de explicação tornam o filme, por vezes, demasiado previsível; falta-lhe maior risco formal e mais profundidade em certas personagens secundárias.


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