Estreou dia 23 de outubro e já ocupou o primeiro lugar no Top 10 séries da Netflix Portugal. Conquistou os fãs desde o início e assegurou uma posição favorável ao longo dos últimos anos. Refiro-me à quarta temporada de “Lupin”, criado por George Kay e François Uzan e protagonizado por Omar Sy, no papel de Assane Diop. Um mestre do disfarce, Diop utiliza uma mistura de tecnologia, destreza e charme para cometer roubos “impossíveis”, inspirando-se no personagem de Maurice Leblanc, Arsène Lupin, sendo conhecido pelo apelido do mesmo.
Esperámos três anos. A temporada passou de cinco episódios para oito e é a mais ambiciosa até agora, oferecendo uma nova perspetiva de um personagem que julgamos já ter desvendado. A estrutura é familiar, mas os novatos (Laika Blanc-Francard no papel de Adèle, por exemplo) trazem uma narrativa cheia de reviravoltas que prometem manter o espectador intrigado.
Quatro anos depois, Assane Diop tenciona deixar Lupin para trás
No primeiro episódio da quarta temporada, quatro anos depois de se ter entregado à polícia, reencontramos Assane Diop, a uma semana de ser libertado, na esperança de cumprir a promessa feita ao filho: deixar a vida do Lupin para trás e levá-lo a conhecer a terra do seu avô, o Senegal.
No entanto, os primeiros dez minutos instalam o caos que antecede as temporadas anteriores. Alguém toma posse de todas a telecomunicações de Paris e ouvimos a voz de Diop a anunciar que dois museus serão assaltados em simultâneo. Os alvos? A grande safira de Luís XIV e uma pintura que retrata as joias da coroa francesa em 1792. A polícia, incluindo Yousself Guérida (Soufiane Guerrab) e Sofia Belkacem (Shirine Boutella), tentam proteger os objetos prestes a serem roubados. Diop é imediatamente colocado num colete de forças e transferido para uma cela de vidro sob total vigilância dos guardas e dos prisioneiros.
É então que o impossível acontece. Diop desaparece perante os que o vigiam, os prisioneiros libertam-se e causam um motim e os roubos mencionados ao início tomam lugar, resultando na queda trágica de Sofia, numa tentativa de perseguição a Lupin num dos museus. No entanto, após isto, Diop volta a ser visto na sua cela, gerando o grande ponto de interrogação na cabeça de todos. Estamos completamente às escuras.
Como era de esperar, Diop reconstrói rapidamente o assalto, desde o uso de um ecrã LED que provocara a ilusão de que tinha desaparecido na cela até à pintura falsa, que se dissolvera após o alarme de irrigação ter sido ativado. Apercebemo-nos de que Diop está perante um copycat que pode comprometer a sua inocência.
Sabemos que “Lupin” está sempre três passos à frente. A quarta temporada vira completamente o jogo, uma decisão inteligente que evita que o espectador se canse do protagonista que nunca falha. Pela primeira vez desde que o conhecemos, Diop perde o controlo. O problema é que esta perda pode significar um grande risco para a sua família.
Ao perceber que está a ser incriminado, Diop foge da prisão para limpar o seu nome. Os possíveis culpados são rapidamente descartados: Hubert (Hervé Pierre) e Juliette Pellegrini (Clothilde Hesme). O seu novo inimigo é tão talentoso e engenhoso como ele, fazendo com que este seja um dos melhores adversários que enfrentou até agora. No entanto, aquele que parece ser apenas um imitador de Lupin acaba por ser apenas mais uma peça de um puzzle que cabe a Diop (e a nós) resolver.
Omar Sy continua a ser a peça-chave de Lupin

Nada funcionaria sem Omar Sy, que continua tão magnético como sempre. Assane Diop continua com o mesmo charme que lhe é característico e com uma vulnerabilidade acrescentada. Há uma luta constante entre a clara vontade de proteger aqueles que ama e a sua incapacidade de deixar Lupin para trás definitivamente. Curiosamente, ou não, uma das maiores reviravoltas envolvem Diop e uma das pessoas que mais ama: o seu filho, Raoul (Théo Christine), agora mais velho e com um certo ressentimento em relação a si. Revisitamos, ainda, a relação que tem com Claire (Ludivine Sagnier) e o seu melhor amigo, Benjamim (Antoine Gouy).
Lupin 4 mostra-nos roubos cada vez mais impossíveis e espetaculares, mas a que custo?

O roubo inicial do primeiro episódio é o suficiente para consolidar a base que se desenvolve ao longo da temporada. Pouco a pouco, as peças vão-se encaixando e vamos desvendando o grande mistério. O processo é, por vezes, bastante cómico. Há uma expectativa crescente ao longo de cada episódio que culmina num final que entrelaça todas as motivações e eventos aparentemente não relacionados.
O aumento do budget e a tentativa de aumentar a escala são notórios. O uso de tecnologia artificial e hacking avançado são uma novidade e elevam o patamar dos métodos até então conhecidos de Lupin.
Contudo, os roubos talvez sejam demasiado grandiosos, para uma série que se destacava por uma destreza subtil. O público de “Lupin” sempre se interessou pela forma como estes roubos “impossíveis” podiam ser realizados de forma compreensível e estrategicamente orquestrada. Os instintos de resolver um puzzle perdem-se um pouco na extravagância visual e na fantasia. Contudo, a sua ambição combina com o destaque que a série tem acumulado, acima do habitual de uma produção francesa no panorama global.
Apesar disto, “Lupin – Parte 4” traz-nos humor, leveza e uma sensação de escapismo com a quantidade certa de mistério. Um regresso para o qual talvez tenha valido a pena esperar três anos, com reviravoltas que não podíamos prever, trazendo uma nova forma de manter a série envolvente até ao fim.
Lupin Parte 4
Conclusão
- O enredo justifica mais uma temporada de sucesso da Netflix. Fãs que acompanham a série desde o seu início podem contar com mais ação, mais romance e mais mistérios, sem que se perca a essência original de “Lupin”. Um retorno há muito esperado e certamente difícil de não querer ver de uma só vez.
Overall
8/10User Review
( votes)Pros
- A atuação de Omar Sy, que continua a entregar a quantidade certa de humor, charme e uma vulnerabilidade acrescentada, dado que a temporada explora ainda mais as relações que mantém, especialmente com a sua família.
Cons
- Dado que passaram três anos desde a última temporada, a menos que tenhamos revisto as anteriores, há uma certa dificuldade em nos lembrarmos de todos os eventos e dinâmicas que desempenham um papel na história. Para além disso, certos momentos de ação privilegiam a fantasia que antes dava lugar a planos credíveis por parte de Diop/Lupin.



